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Estudo internacional aponta que tecnologias como ChatGPT podem transformar a formação de médicos e ajudar a suprir escassez global de profissionais de saúde, mas implementação requer investimentos e regulamentação
A inteligência artificial (IA) generativa, representada por ferramentas como ChatGPT, LLaMA e DeepSeek, está pronta para transformar radicalmente a educação médica mundial, oferecendo soluções inovadoras para enfrentar a alarmante escassez de profissionais de saúde. Segundo projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS), o mundo enfrentará um déficit de aproximadamente 10 milhões de profissionais de saúde até 2030, com impacto mais severo em países de baixa e média renda.
Um estudo internacional que acaba de ser publicado na revista científica The Lancet Digital Health examina como a IA pode revolucionar tanto a formação de estudantes de medicina quanto a especialização de médicos, mas também alerta para desafios significativos que precisam ser superados para uma implementação responsável e equitativa.
Transformação digital na sala de aula
A pesquisa, liderada por especialistas de instituições como Duke-NUS Medical School (Singapura) e Universidade Tsinghua (Pequim, China), destaca que a IA generativa já está mudando a forma como futuros médicos aprendem. Pacientes virtuais criados por algoritmos podem simular diversas condições clínicas com consistência e versatilidade, permitindo que estudantes pratiquem diagnósticos e tratamentos sem riscos reais.
“A natureza conversacional dos grandes modelos de linguagem promove um ambiente de aprendizagem envolvente e menos intimidador em comparação com configurações convencionais”, explica o estudo. Ferramentas como o modelo Sora, da OpenAI, prometen criar vídeos clínicos realistas de alta fidelidade para treinamento, enquanto tecnologias de realidade virtual e aumentada oferecem experiências imersivas que simulam procedimentos complexos.
Personalização e acessibilidade global
Uma das principais vantagens identificadas pelos pesquisadores é a capacidade da IA de personalizar experiências de aprendizagem. Chatbots com reconhecimento de contexto podem auxiliar no ensino de anatomia, enquanto pacientes virtuais interativos desenvolvem o raciocínio clínico dos estudantes. Essa flexibilidade permite que o aprendizado ocorra em qualquer lugar e horário, reduzindo barreiras geográficas e promovendo maior equidade educacional.
Para países com recursos limitados, os modelos emergentes focados em raciocínio, como o o3-mini e DeepSeek R1, oferecem soluções mais acessíveis devido à menor demanda computacional, potencialmente democratizando o acesso a tecnologias educacionais avançadas.
Desafios éticos e práticos
Apesar das promessas, a implementação da IA na educação médica enfrenta obstáculos significativos. O estudo alerta para problemas como “alucinações” dos modelos de IA – quando geram informações plausíveis mas incorretas – e a presença de vieses que podem perpetuar desigualdades raciais, de gênero e regionais.
“Os vieses, particularmente quando sutis ou incorporados à literatura médica, correm o risco de perpetuar disparidades sistêmicas ao longo do tempo”, observam os autores. Questões de privacidade também preocupam, já que modelos de IA podem inadvertidamente reproduzir informações confidenciais de pacientes.
Barreiras financeiras e técnicas
A adoção efetiva da IA requer investimentos substanciais em infraestrutura de tecnologia da informação, treinamento de professores e desenvolvimento de currículos específicos. Os custos incluem não apenas licenças de software, mas também hardware especializado, manutenção de sistemas e capacitação contínua do corpo docente.
O estudo revela que o acesso limitado à internet estável, dispositivos compatíveis e, em alguns casos, assinaturas pagas, amplia as desigualdades educacionais entre contextos de alta renda e países de baixa e média renda.
Caminho para o futuro
Para superar esses desafios, os pesquisadores propõem um modelo de financiamento híbrido envolvendo empresas de tecnologia, instituições de saúde, universidades e subsídios governamentais. Também defendem a criação de parcerias público-privadas e colaborações internacionais para desenvolver diretrizes éticas claras e garantir implementação sustentável.
“A IA oferece grandes promessas para melhorar a qualidade e acessibilidade da educação médica, mas a inovação precisa ser equilibrada com responsabilidade ética e inclusão”, concluem os autores, enfatizando que educadores humanos continuarão essenciais para supervisionar o uso apropriado da tecnologia e garantir o pensamento crítico dos estudantes.
Fonte: The Lancet Digital Health, artigo “Como a inteligência artificial pode transformar o treinamento de estudantes de medicina e médicos?”, publicado em 4 de outubro de 2025, DOI: 10.1016/j.landig.2025.100900. Autores principais: Yilin Ning (Duke-NUS Medical School), Jasmine Chiat Ling Ong, Haoran Cheng, entre outros pesquisadores de instituições internacionais.

