O estudante de doutorado em Ciência da Computação e Engenharia Nayan Bhatia demonstra o Pulse-Fi, tecnologia que usa sinais de Wi-Fi para medir a frequência cardíaca de uma pessoa. Foto Crédito: Erika Cardema/UC Santa Cruz.
A tecnologia que transforma sinais de Wi-Fi em monitores de saúde acaba de dar um grande salto: pesquisadores (*) da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, EUA, desenvolveram um sistema capaz de medir batimentos cardíacos com alta precisão usando apenas dispositivos Wi-Fi de baixo custo. Sem a necessidade de relógios inteligentes ou sensores hospitalares, o futuro da telemedicina está batendo à porta das casas. O sistema, batizado de Pulse-Fi, alcançou precisão clínica em testes com 118 participantes, usando chips ESP32, que custam de R$ 30 a R$ 60. Basta ter um roteador e um receptor Wi-Fi no ambiente – posicionados em qualquer lugar do cômodo e até 3 metros de distância da pessoa – para que um algoritmo de inteligência artificial reconheça variações mínimas no sinal provocadas pelos batimentos do coração, mesmo que o indivíduo esteja sentado, deitado, em movimento ou trocando de posição.
Além do conjunto de dados ESP32 coletados, eles também testaram o Pulse-Fi usando um conjunto de dados produzido por uma equipe de pesquisadores no Brasil usando um dispositivo Raspberry Pi, o que criou o mais extenso conjunto de dados existente sobre Wi-Fi para monitoramento cardíaco, até onde os pesquisadores sabem.
Para chegar a esse resultado, os engenheiros combinaram Wi-Fi doméstico e aprendizado de máquina, criando filtros que eliminam “ruídos” do ambiente e garantem que apenas o pulso humano seja detectado. Em apenas cinco segundos de leitura, o erro é inferior a meio batimento por minuto.
Como se sabe, a frequência cardíaca é um dos indicadores de saúde mais básicos e importantes, fornecendo uma visão geral da atividade física, estresse e ansiedade, nível de hidratação de uma pessoa e muito mais.
Tradicionalmente, a medição da frequência cardíaca requer algum tipo de dispositivo vestível, seja um relógio inteligente ou um equipamento hospitalar. Mas essa nova pesquisa mostra como o sinal de um dispositivo Wi-Fi doméstico pode ser usado para esse monitoramento crucial da saúde com precisão de ponta – sem a necessidade de um dispositivo vestível.
Saúde domiciliar
O sistema é barato, não intrusivo e funciona com equipamentos comuns, tornando-se promessa para hospitais, clínicas e – principalmente – lares de baixa renda ou locais sem acesso a tecnologia avançada. O método também apresenta alta robustez para diferentes cenários e pessoas. Os testes demonstraram eficácia independentemente da posição do equipamento, da distância entre transmissor e receptor ou das posturas do paciente.
A equipe já trabalha em versões capazes de monitorar a respiração e detectar apneia do sono, expandindo o leque de aplicações para a medicina preventiva e cotidiana com resultados iniciais animadores.
Quando a tecnologia pode estar na sua casa?
A resposta é: em breve! O artigo revela que o Pulse-Fi já funciona com hardwares acessíveis e baratos, como o ESP32 e o Raspberry Pi, que podem ser adquiridos online ou em lojas de eletrônicos. A publicação recente na conferência internacional DCOSS-IoT ratifica o potencial comercial do sistema, e os pesquisadores convidam empresas interessadas para buscar licenciamento e desenvolvimento de produtos para o consumidor final.
Com mais testes e integração de software prontos, a expectativa é de que, nos próximos anos, soluções do tipo possam ser embarcadas em caixas de Wi-Fi comercial, aplicativos ou pequenos dispositivos vendidos diretamente ao público – transformando o roteador doméstico em uma ferramenta de monitoramento de saúde automática, invisível e constante.
Em resumo, a ciência prepara o caminho para que, respirando e vivendo normalmente, qualquer pessoa possa se beneficiar do monitoramento vital por Wi-Fi em seu lar, sem usar nada no corpo. O futuro pode estar a um update de distância.

