Foto Crédito: Ömürden Cengiz/Unsplash.
A maioria das crianças brasileiras que nasceram com a cabeça muito menor que o esperado após a infecção pelo vírus da zika na gestação apresenta lesões extensas e permanentes no cérebro, com impacto importante na visão, na audição, nos movimentos e no desenvolvimento nos primeiros anos de vida. A conclusão é de um estudo publicado em 29 de dezembro de 2025 na revista internacional PLOS Global Public Health, assinado por um grupo de pesquisadores liderado por Demócrito de Barros Miranda-Filho e Ricardo Arraes de Alencar Ximenes, da Universidade de Pernambuco e da Universidade Federal de Pernambuco, em parceria com Celina Maria Turchi Martelli (Fiocruz), Elizabeth B. Brickley e Laura Cunha Rodrigues (London School of Hygiene & Tropical Medicine), entre outros.
Para chegar a essas conclusões, os cientistas juntaram, em um único grande trabalho, os dados clínicos e de exames de 843 crianças brasileiras com microcefalia associada ao zika, acompanhadas até os 3 anos de idade. Em vez de olhar apenas para um hospital ou uma cidade, eles reuniram informações de 12 grupos de acompanhamento infantil criados em plena epidemia de zika, entre 2015 e 2018, em diferentes serviços de saúde das regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país.
Todas as crianças tinham em comum o fato de terem sido expostas ao vírus ainda na barriga da mãe e de apresentarem microcefalia moderada ou grave – isto é, nasceram com a cabeça bem menor que o padrão ou desenvolveram essa redução do tamanho da cabeça nos primeiros meses de vida. Em 601 das 843 crianças, a microcefalia já estava presente ao nascer; em 172, o problema apareceu depois, mostrando que o dano ao cérebro pode continuar a evoluir mesmo após o parto.
Os pesquisadores analisaram, caso a caso, medidas como tamanho da cabeça e peso ao nascer, presença de malformações visíveis, sinais neurológicos (por exemplo convulsões, rigidez muscular e dificuldade de interação social) e resultados de exames de imagem do cérebro, como ultrassom, tomografia e ressonância magnética. Também foram avaliadas alterações nos olhos, na audição e na deglutição, o que permite entender de forma mais ampla como a infecção pelo zika durante a gestação afeta o corpo da criança.
Os resultados mostram um quadro de grande gravidade: calcificações e “espaços alargados” dentro do cérebro (ventriculomegalia) aparecem em cerca de 80% dos casos, ao lado de atrofia cerebral e outras deformações, e crises epilépticas atingem aproximadamente metade ou mais das crianças, dependendo do serviço analisado. Alterações na retina e no nervo óptico, além de problemas de audição e dificuldade para engolir, são frequentes e ajudam a explicar por que tantas dessas crianças têm atraso no desenvolvimento, dificuldade de comunicação e necessidade de cuidados especializados em tempo integral.
Com esse conjunto de informações, os autores mostram que existe um “leque” de gravidade dentro da chamada síndrome congênita do zika: mesmo entre crianças com microcefalia, algumas têm comprometimento extremo, outras um pouco menos, mas quase todas precisam de acompanhamento contínuo com equipes de neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia, oftalmologia, otorrino e outras especialidades. Segundo os pesquisadores, por reunir dados de quase metade de todos os casos confirmados de síndrome congênita do zika notificados no Brasil entre 2015 e 2023, o estudo oferece até agora o retrato mais completo do impacto da doença nas crianças e reforça a urgência de organizar redes de atendimento de longo prazo para essas famílias.

