O comportamento sexual dos franceses tem muito a ver com o nosso. Crédito da foto: Alejandra Quiroz/Unsplash
Um estudo francês mostra a passagem de uma sexualidade cercada por tabu para outra moldada por aplicativos, diversidade e prevenção em crise
A França já foi palco de um dos maiores choques estatísticos sobre sexo no século 20. Meio século depois, um novo retrato da vida sexual dos franceses mostra algo que interessa muito além de Paris: a intimidade mudou mais rápido do que a moral pública – e o Brasil, com seus próprios tabus, aplicativos e disputas sobre comportamento sexual, não está fora dessa história.
O levantamento Contexte des Sexualités en France (CSF-2023), divulgado em 2024, mostra uma sociedade em que a iniciação sexual acontece mais cedo, o número de parceiros ao longo da vida aumentou, a internet virou espaço de encontro e a prevenção perdeu força. O contraste com o antigo Relatório Simon, publicado no início dos anos 1970, revela menos uma França “mais livre” e mais uma transformação profunda na forma como desejo, identidade, tecnologia e saúde sexual passaram a se cruzar.
Alguns números
Idade da primeira relação sexual
- 1972: média de 19,2 anos para os homens e 21,5 para as mulheres.
- 2023: idade mediana de 17,7 anos para os homens e 18,2 para as mulheres – uma queda expressiva em relação à década de 1970, embora o próprio estudo recente identifique um leve recuo nessa idade nos últimos anos, revertendo a tendência de queda contínua observada em décadas anteriores.
Número de parceiros ao longo da vida
- 1972: o relatório não trazia esse dado diretamente, mas indicava baixíssima variação de parceiros – 78% das pessoas nunca haviam tido relação fora do casamento.
- 2023: mulheres de 18 a 69 anos declaram, em média, 7,9 parceiros sexuais ao longo da vida, e os homens, 16,4 – diferença de gênero que persiste, mas com aumento expressivo em ambos os grupos.
Frequência das relações sexuais
- 1972: 57% dos entrevistados haviam tido relações sexuais no mês anterior à pesquisa.
- 2023: os pesquisadores descrevem o que chamam de “paradoxo contemporâneo” – mais diversidade nas práticas sexuais, porém menor frequência da atividade sexual, sobretudo entre os adultos mais jovens.
Contracepção e prevenção
- 1972: apenas 9% das mulheres usavam pílula anticoncepcional (55% entre as de 20 a 29 anos), um número então considerado avanço notável.
- 2023: o foco de preocupação migrou para o uso de preservativo – hoje, apenas 49,4% das mulheres e 52,6% dos homens usaram camisinha na primeira relação com um parceiro conhecido nos últimos 12 meses, dado que os próprios pesquisadores classificam como preocupante, já que indica queda na prevenção mesmo com mais acesso à informação do que em 1972.
Diversidade sexual e de gênero
- 1972: 6% dos homens e 2% das mulheres relatavam relações homossexuais, tratadas no relatório com tom de “revelação surpreendente”.
- 2023: o estudo aponta uma contestação cada vez mais marcante da norma heterossexual, fenômeno que não é novo, mas que se intensificou nos últimos anos – reflexo de uma sociedade francesa hoje descrita como mais tolerante às diferenças de orientação sexual e identidade de gênero.
Um fator sem precedentes: a sexualidade digital – Um dado que sequer poderia existir em 1972: cerca de 33% das mulheres e 46,6% dos homens franceses afirmam já ter tido algum tipo de relação sexual on-line – proporção que sobe para mais de 63% entre as jovens mulheres e 72% entre os jovens homens. A internet se tornou, para essa geração, o que a pílula anticoncepcional foi para a de 1972: um fator tecnológico que reconfigura o comportamento sexual.
Um retrato de época
Nos anos 1970, o escândalo não estava apenas nos números. Estava no fato de que eles desmontavam o discurso oficial. A França conservadora da vitrine pública já vivia uma sexualidade mais diversa do que admitia. Havia relações antes do casamento, infidelidade, iniciação sexual relativamente precoce e uma distância evidente entre o que se dizia e o que se fazia.
Hoje, o debate mudou de eixo. O que antes era medido como choque moral agora aparece como questão de saúde pública, diversidade, consentimento e prevenção. A sexualidade deixou de ser apenas um tema de “costumes” e passou a ser entendida como um campo onde tecnologia, gênero, idade e desigualdade importam tanto quanto desejo.
O que isso tem a ver com o Brasil
Muito. O público brasileiro conhece bem a distância entre discurso e prática quando o assunto é sexo. Aqui também convivem moralismo, hipervisibilidade digital e uma vida íntima bem mais plural do que o debate público costuma admitir.
Os aplicativos de relacionamento, por exemplo, mudaram a forma de conhecer pessoas no Brasil tanto quanto na França. Eles ampliaram possibilidades, mas também intensificaram cobrança, exposição e desgaste emocional. Para muitos homens, a lógica do “match” trouxe mais acesso, mas também mais competição. Para muitas mulheres, trouxe autonomia, mas também mais vigilância, assédio e trabalho extra de cuidado com a própria segurança.
Mais cedo, mais diverso, menos protegido
O estudo francês indica que a primeira relação sexual ocorre hoje mais cedo do que há 50 anos. Também mostra um aumento do número médio de parceiros e uma sexualidade mais diversa, menos presa à norma heterossexual. Mas esse avanço convive com um dado incômodo: a prevenção perdeu espaço.
Esse ponto dialoga diretamente com o Brasil. Mesmo com campanhas, escolas, aplicativos e redes sociais, ainda é grande a distância entre informação e prática. Preservativo, consentimento, prevenção de ISTs e educação sexual seguem sendo temas disputados, frequentemente tratados como problema ideológico em vez de questão de saúde.
A lição aqui é simples: mais informação não garante comportamento mais seguro. E mais liberdade não garante menos risco.
A intimidade na era digital
Talvez a maior mudança seja a entrada definitiva da internet na vida sexual. Se a pílula simbolizou uma revolução no controle reprodutivo, os aplicativos e a sexualidade on-line simbolizam uma revolução na forma de buscar, negociar e viver encontros.
No Brasil, isso já faz parte da rotina de milhões de pessoas. A intimidade passou a ser mediada por perfis, mensagens, imagens e algoritmos. Isso mudou a velocidade dos encontros, a percepção de disponibilidade e até o vocabulário do desejo. Ao mesmo tempo, trouxe novas formas de frustração, insegurança e sobrecarga.
A França ajuda a enxergar isso com mais clareza porque mostra o que acontece quando a mudança tecnológica se soma a mudanças culturais profundas. O resultado não é uma sexualidade mais simples, mas mais complexa, mais exposta e mais difícil de enquadrar em velhas categorias.
O que fica da comparação
No fim, o estudo francês diz menos sobre um país específico e mais sobre o nosso tempo. A sexualidade virou um território em disputa entre liberdade e controle, prazer e prevenção, visibilidade e vulnerabilidade.
Para o leitor brasileiro, a comparação serve como espelho: ajuda a perceber que os dilemas daqui não são exceção, mas parte de uma transformação mais ampla. Mudam os países, mudam as línguas, mudam os costumes. Mas permanecem as tensões entre o que se diz em público e o que se vive na intimidade, entre a promessa de autonomia e os riscos que acompanham a vida sexual contemporânea.
Enfim, se a França ajuda a medir o caminho percorrido em 50 anos, o Brasil ainda precisa enfrentar um passo básico: tratar sexualidade como tema de saúde pública, e não de silêncio ou moralismo. Falar sobre sexo com seriedade continua sendo uma forma de proteger vidas.
E você, como percebe essas mudanças na sua própria realidade – seja na família, na prática profissional em saúde ou na experiência pessoal? Vamos continuar essa conversa nos comentários.
Fontes: Rapport sur le comportement sexuel des Français (Pierre Simon, Jean Gondonneau, Lucien Mironer e Anne-Marie Dourlen-Rollier, Julliard, 1972); “Contexte des Sexualités en France” (CSF-2023), Inserm/ANRS-MIE, primeiros resultados divulgados em 13 de novembro de 2024.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

