Crédito da foto: Fauzan Saari/Unsplash
A Copa do Mundo de 2026 ficará marcada, entre outras coisas, por ter introduzido a “pausa de hidratação” no vocabulário global do futebol: pela primeira vez nos 96 anos de história do torneio, as partidas passaram a ser interrompidas na metade de cada tempo para que os jogadores pudessem se hidratar e descansar. Muitos torcedores reclamaram, achando que se tratava apenas de um pretexto para exibir mais publicidade durante o evento esportivo mais assistido do planeta.
Segundo reportagem publicada pela organização Covering Climate Now, essa desconfiança não é totalmente infundada, mas confunde causa com consequência: existem razões científicas para as pausas, defendidas pelo próprio sindicato internacional de jogadores de futebol – mas quase nenhuma cobertura da mídia americana sobre a Copa de 2026 chegou a explicar esse motivo, com uma única exceção notável.
A exceção: Telemundo
Essa exceção foi a rede Telemundo, cujo departamento de jornalismo já era reconhecido por sua cobertura climática. Em 3 de julho, durante a transmissão do jogo entre Argentina e Cabo Verde, a jornalista Vanessa Hauc – apresentadora do programa ambiental “Planeta Tierra” – entrou ao vivo no momento em que centenas de milhões de americanos estavam sob alerta de calor extremo devido a uma “cúpula de calor” que cientistas classificaram como praticamente impossível de ocorrer sem as mudanças climáticas.
O narrador Andrés Cantor, famoso pelo grito prolongado de “gooool”, apresentou a repórter dizendo que, embora as pausas de hidratação fossem polêmicas, havia uma razão mais profunda por trás delas. Hauc então explicou que a temperatura de 89°F (cerca de 31,7°C) em Miami durante o jogo podia ser sentida como se fossem 101°F (38°C) em campo, somando umidade e exposição solar – e que, por isso, as pausas não eram apenas uma precaução, mas uma medida de segurança num mundo cada vez mais quente, causado principalmente pela queima de petróleo, carvão e gás natural.
Horas depois, ao cobrir o jogo entre Colômbia e Gana em Kansas City – com 88°F e 70% de umidade -, Hauc voltou a explicar que essas condições dificultam o resfriamento natural do corpo, elevando o risco de exaustão, desidratação e insolação entre os atletas, atribuindo o fenômeno de ondas de calor mais frequentes e intensas à crise climática.
Segundo a reportagem, em intervenções de apenas 42 e 52 segundos, Hauc entregou uma verdadeira aula de jornalismo climático — humanizando a história ao falar do calor sentido por jogadores e espectadores, localizando o problema ao relacioná-lo ao esporte, e apontando soluções ao nomear a causa (queima de combustíveis fósseis) e alertar que o futebol precisará se adaptar ao aquecimento do planeta.
Por que a mudança nas regras aconteceu
A demanda por pausas já vinha do FIFPRO, sindicato internacional dos jogadores, motivada por condições de jogo cada vez mais adversas. No Mundial de Clubes da FIFA do ano anterior, o calor foi tão intenso que um árbitro chegou a desmaiar em campo. O sindicato encomendou um estudo científico e recomendou a interrupção das partidas quando a “temperatura de bulbo úmido” (que combina calor e umidade) atingisse 26°C, com suspensão total a partir de 28°C. A FIFA, por sua vez, só concordava com pausas a partir de 32°C — e a solução das pausas de hidratação parece ter sido o meio-termo encontrado entre as duas posições.
A reportagem pondera que essa explicação não elimina totalmente as suspeitas sobre o apetite da FIFA por receita publicitária extra: o presidente da entidade, Gianni Infantino, negou que as pausas gerassem receita adicional, já que os contratos comerciais já estavam assinados previamente — argumento que, segundo o texto, é tecnicamente correto, mas incompleto, já que os minutos extras de comerciais aumentam o valor dos contratos de TV para as próximas edições do torneio.
O contraste com o resto da mídia
A matéria destaca que a própria Telemundo também lucrou com anúncios durante as pausas, mas, ainda assim, teve o cuidado de explicar ao público por que elas estavam acontecendo — o que a reportagem descreve como uma escolha ao mesmo tempo jornalisticamente responsável e comercialmente inteligente, já que pesquisas recentes apontam interesse do público americano (especialmente da população latina) em notícias sobre aquecimento global.
O texto conclui citando outros exemplos de esportes se adaptando ao clima — como o tênis profissional, que permite pausas de resfriamento acima de determinada temperatura, e a Maratona de Los Angeles deste ano, que permitiu que corredores completassem oficialmente a prova na milha 18 em vez da 26 devido ao calor extremo — encerrando com a reflexão de que o verão de 2026, por mais quente que pareça hoje, tende a ser lembrado como um dos “verões mais frescos” das próximas décadas.
Fonte: Covering Climate Now, “The World Cup Story (Almost) No One Told”, publicado em 23 de julho de 2026. Disponível em: https://coveringclimatenow.org/from-us-story/the-world-cup-story-almost-no-one-told/

