Foto Crédito: Daniel Olah/Unsplash
Nos últimos meses, a Europa voltou a enfrentar ondas de calor severas. O Reino Unido, por exemplo, bateu recordes de temperatura em junho de 2026 três vezes no mesmo mês. Esse tipo de evento já não é novidade: verões como os de 2003, 2015, 2018 e 2019 também trouxeram calor extremo, com milhares de mortes associadas e prejuízos agrícolas.
O que intriga os cientistas há algum tempo é um detalhe específico: a Europa está esquentando cerca de duas vezes mais rápido do que a média do resto do planeta. Enquanto o mundo, em média, já aqueceu perto de 1,3°C desde a era pré-industrial, o continente europeu já passou de 2°C. Isso é mais do que os modelos climáticos previam, e por anos os pesquisadores tentaram entender por quê.
A pista: o ar ficou mais limpo
Uma nova pesquisa, conduzida por cientistas do Barcelona Supercomputing Centre em conjunto com o Met Office (o serviço oficial de meteorologia e clima do Reino Unido), trouxe uma peça importante para esse quebra-cabeça: a redução da poluição do ar.
Desde os anos 1980, a Europa reduziu drasticamente a emissão de aerossóis – pequenas partículas poluentes, como sulfatos, lançadas por indústrias, usinas e veículos. Essa limpeza do ar foi uma vitória ambiental e de saúde pública, resultado de décadas de políticas contra a poluição.
Só que esses aerossóis tinham um efeito colateral “positivo” do ponto de vista climático: eles refletiam parte da luz do sol de volta para o espaço, funcionando como um leve escudo que ajudava a esfriar a atmosfera. Com menos poluição, mais luz solar chega à superfície. Além disso, segundo o estudo, essa mudança também estaria afetando a circulação atmosférica, favorecendo a formação de bolhas de ar quente que ficam “presas” sobre a Europa por mais tempo – um fenômeno ligado a ondas na corrente de jato (a grande faixa de vento que circula o hemisfério norte).
Em resumo: o ar mais limpo estaria contribuindo para ondas de calor mais longas e mais intensas.
O problema foi resumir isso numa manchete
Até aqui, tudo bem – é uma descoberta científica interessante. O problema surgiu na hora de resumir isso em manchetes.
Alguns veículos de imprensa, entre eles a GB News, publicaram manchetes como “as ondas de calor da Grã-Bretanha são causadas pela queda nos níveis de poluição”. Essa formulação sugere que, se a poluição não tivesse diminuído, as ondas de calor não estariam acontecendo – ou seja, dá a entender que o “vilão” é a limpeza do ar, e não as emissões de gases de efeito estufa (como o CO2). Esse tipo de leitura foi rapidamente aproveitado por comentaristas céticos em relação às políticas ambientais, que passaram a usar a notícia para questionar a necessidade de metas como o “net-zero” (zero emissões líquidas).
Não, não é assim que funciona!
Foi aí que entrou a checagem de fatos feita pelo site especializado em clima Carbon Brief. Eles ouviram cientistas – inclusive pesquisadores que não participaram do estudo original, como o professor Erich Fischer, da ETH Zurique – para esclarecer um ponto crucial: existe uma diferença grande entre “causar” um fenômeno e “amplificar” ou “revelar” um fenômeno que já existia.
A explicação é mais ou menos assim:
- As ondas de calor, no fundo, são causadas por sistemas de alta pressão atmosférica – isso é meteorologia básica e sempre foi assim.
- O que mudou é que esses sistemas de alta pressão agora acontecem dentro de um clima que já está muito mais quente do que há 100 anos, por causa do acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera.
- Os aerossóis poluentes, ao refletirem parte do sol, estavam mascarando uma parte desse aquecimento – como se fosse um véu escondendo o tamanho real do problema.
- Agora que o ar está mais limpo, esse véu foi removido, e o aquecimento que já estava lá – causado pelos gases de efeito estufa – fica mais visível e mais intenso.
Ou seja: a poluição em queda não criou o aquecimento. Ela só estava disfarçando parte dele. O motor principal das ondas de calor continua sendo as emissões de gases de efeito estufa; a redução da poluição apenas tirou o “freio de emergência” que, sem querer, vinha segurando um pouco esse aquecimento.
Os próprios cientistas do estudo original reforçam esse ponto: mesmo reconhecendo que a queda de aerossóis tornou as ondas de calor mais fortes, eles destacam que, se essas emissões poluentes não tivessem sido reduzidas, o impacto geral do aquecimento global teria sido pior – porque a poluição do ar traz outros problemas graves, como doenças respiratórias e mortes prematuras.
Pondo fim a um absurdo
Pode parecer um detalhe de linguagem, mas é uma diferença com consequências práticas. Se alguém interpreta a notícia como “o problema é o ar limpo”, a conclusão política seria absurda: voltar a poluir para “resfriar” o planeta. Foi exatamente esse tipo de leitura equivocada que os cientistas quiseram evitar ao classificar como “simplesmente errada” qualquer tentativa de usar essa pesquisa para atacar políticas ambientais.
A mensagem correta é outra: o aquecimento global por gases de efeito estufa é o problema de fundo, e ele estava parcialmente escondido por décadas de poluição do ar. Agora que o ar ficou mais limpo – o que é bom para a saúde de todo mundo -, esse aquecimento aparece com mais força nas ondas de calor europeias.
Resumindo em uma frase
As ondas de calor na Europa não são causadas pelo ar mais limpo – elas são causadas pelo aquecimento global, que estava sendo parcialmente disfarçado pela poluição, e agora, com o ar mais limpo, esse aquecimento aparece mais evidente.
Texto baseado na checagem de fatos publicada pelo Carbon Brief, com informações do estudo do Barcelona Supercomputing Centre e do Met Office britânico.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

