Foto editada com a ajuda de Inteligência Artificial.
Coluna “Reparou Nisso?”— Agência PáginaUm
A cena
Estação Sé, no metrô de São Paulo, perto do meio-dia de uma segunda-feira. Um mar de gente se cruzando em todas as direções – provavelmente uma das estações mais movimentadas do Brasil. Um senhor idoso, de roupas simples, pergunta a uma mulher como chegar até o Jabaquara. Ela não para, não fala nada – só gesticula, indicando que não sabe, e segue andando no mesmo ritmo.
Outro homem percebe que o idoso está perdido. Se aproxima, oferece ajuda, pede para ele acompanhar – vai indicar o caminho até a linha azul, sentido Jabaquara. O idoso o segue, um pouco atrás, meio à distância.
Chegando perto da escada rolante certa, o homem aponta para o letreiro, olha pro idoso e diz: “olha lá, é só descer ali.”
O idoso continua parado. Ainda perdido.
O homem, então, resolve simplesmente acompanhá-lo até o ponto certo – sem mais explicação, sem mais indicação, só caminhando junto até o lugar onde não haveria erro possível. Só ali, já perto de embarcar, o idoso agradece muito e conta duas coisas: que não está acostumado a andar de metrô, e que não sabe ler.
Três pessoas, três comportamentos
Essa cena tem três personagens, e cada um revela algo diferente sobre como lidamos uns com os outros no meio da multidão.
A mulher que não parou: duas explicações possíveis, não excludentes
A primeira pessoa abordada nem chegou a parar de verdade – só gesticulou que não sabia e seguiu andando no mesmo ritmo. É fácil ler isso como frieza. Mas vale considerar duas explicações, que podem estar acontecendo ao mesmo tempo.
A primeira é a mesma sobrecarga urbana que Stanley Milgram descreveu em 1970, num estudo clássico sobre a vida nas grandes cidades: em ambientes densos, as pessoas são bombardeadas por tanto estímulo e contato social que precisam, quase automaticamente, racionar sua atenção. Entre as estratégias que ele descreveu para lidar com esse excesso está justamente reduzir a duração e a intensidade de cada contato – e não parar de jeito nenhum é a versão mais extrema disso.
A segunda explicação é mais específica: ela era uma mulher, sozinha, abordada por um desconhecido numa estação de metrô lotada. Pesquisas sobre segurança de mulheres em espaços públicos – como um estudo conduzido em Londrina (PR) – mostram um padrão consistente de regulação constante do próprio comportamento diante de estranhos, especialmente em ambientes imprevisíveis e muito movimentados, por conta de uma percepção de insegurança que faz parte do cotidiano de muitas mulheres. Não dá pra saber, a partir da cena, se foi essa a razão dela especificamente – seria presunçoso afirmar isso sobre uma pessoa que aparece só por um instante. Mas é um padrão documentado o suficiente para valer menção, até para não reduzir a explicação só à sobrecarga urbana genérica, que vale igualmente para homens e mulheres.
Note que as duas explicações não competem entre si – pelo contrário, provavelmente se somam. E nenhuma das duas exige que ela tenha agido “errado”: manter-se em movimento, sem se deter com um estranho, é uma estratégia legítima de navegação urbana, seja qual for o motivo específico por trás dela naquele momento.
O homem: ajudar é bonito, mas presumir que todo mundo lê pode travar a ajuda
O homem fez o oposto da mulher – parou, se ofereceu, insistiu em acompanhar. Isso já é raro e vale reconhecimento. Mas o momento em que apontou pro letreiro e disse “é só descer ali” revela algo que passa despercebido: ele presumiu, sem nem perceber que estava presumindo, que o idoso conseguiria ler a placa e se localizar sozinho a partir dali.
Essa presunção não é falha de caráter – é o tipo de coisa que qualquer pessoa alfabetizada faz o tempo todo, porque o ambiente urbano inteiro (placas, letreiros, painéis de linha) foi desenhado supondo leitura como padrão universal. O problema é que não é. Segundo o IBGE, em 2024, 14,9% da população brasileira com 60 anos ou mais ainda não sabia ler – cerca de 5,1 milhões de pessoas, mais da metade de todos os analfabetos do país. Mesmo no Sudeste, região com os menores índices, a taxa entre idosos ainda foi de 8,1%. Ou seja: o idoso da cena não é uma exceção estatística rara – é parte de um padrão bem conhecido e bem documentado, especialmente entre gerações que tiveram menos acesso à escola.
O idoso: por que ele guardou que não sabia ler?
Talvez a pergunta mais interessante da cena seja: por que o idoso simplesmente seguiu o homem, “meio à distância”, em vez de dizer logo de cara que não conseguia ler a placa?
O sociólogo Erving Goffman, em seu estudo clássico sobre estigma (1963), descreve exatamente esse tipo de situação: pessoas que carregam uma característica que pode gerar julgamento social – e que ainda não foi percebida pelos outros – tendem a controlar cuidadosamente o que revelam sobre si, e para quem. Goffman chama esse grupo de “desacreditáveis”: não é que a característica seja visível o tempo todo, mas existe o risco constante de que apareça, e a pessoa gerencia ativamente essa informação. Analfabetismo funciona exatamente assim no Brasil – carrega estigma social forte, mesmo sendo uma realidade estatisticamente comum entre os mais velhos. Muita gente prefere seguir “meio perdida”, fingindo entender, a admitir em voz alta que não sabe ler.
Foi só quando o homem, sem perceber, insistiu em acompanhar o idoso fisicamente até o fim – em vez de apenas apontar a direção – que a solução real apareceu, ainda que por acidente. E só depois de resolvido é que o idoso, já mais seguro, revelou o que estava por trás da dificuldade o tempo todo.
O que isso diz sobre nós
A cena inteira mostra como ajudar de verdade, numa cidade grande, exige mais do que boa vontade – exige notar que nem toda dificuldade é dita em voz alta, e que nem todo mundo enxerga o ambiente do jeito que a maioria de nós enxerga. Uma placa clara resolve o problema de quem lê. Para quem não lê, só resolve companhia de verdade – o tipo que o homem, por sorte e insistência, acabou oferecendo.
Pra pensar
Da próxima vez que for ajudar alguém a se localizar numa cidade grande, vale substituir “é só seguir a placa” por “posso te acompanhar até lá?” – não custa muito mais, e resolve pra quem, silenciosamente, não conseguiria seguir a primeira instrução.
Vale um adendo importante aqui, e ele é sobre o próprio texto que você está lendo: se a dificuldade de ler é tão comum quanto os números do IBGE mostram, boa parte de quem mais precisaria dessa reflexão não vai chegar a este parágrafo – porque ele está escrito. Então talvez o pedido mais útil desta coluna não seja “leia e reflita”, e sim: se você conhece alguém que evita placas, formulários, cardápios ou letreiros, e sempre “dá um jeito” de resolver sem admitir por quê, vale oferecer ajuda direta, sem constranger – e comentar sobre este texto em voz alta, não só compartilhar o link.
De onde veio isso:
- Milgram, S. (1970) — “The Experience of Living in Cities”, Science, sobre sobrecarga de estímulo e adaptação social em ambientes urbanos densos.
- Estudo de caso em Londrina (PR), publicado em Cadernos Metrópole — sobre percepção de insegurança e regulação de comportamento de mulheres em espaços públicos.
- Goffman, E. (1963) — Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada, sobre controle de informação por pessoas com características socialmente estigmatizadas.
- IBGE (2024) — Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), sobre taxas de analfabetismo por idade e região no Brasil.
E você, já reparou nisso?
Essa coluna só funciona com cena de verdade – do tipo que você já viveu, viu ou até protagonizou sem perceber. Tem alguma situação que te chamou atenção recentemente?
Me conta pelo WhatsApp: (11) 93301-6286. Sua sugestão é tratada com sigilo – nomes, lugares e qualquer detalhe que possa identificar alguém são sempre trocados ou omitidos antes da publicação. A próxima cena analisada por aqui pode ser a que você mandar.
IMPORTANTE – Esta coluna traz observações de comportamento do dia a dia com base em pesquisa científica, pra te fazer pensar sobre seus próprios hábitos e relações. Não é aconselhamento psicológico nem diagnóstico de ninguém. SAIBA MAIS
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

