Foto Crédito: Mitchell Luo/Unsplash
*Por Graziella Rocha e Eva Dengler
Todos os dias, milhares de pessoas circulam pelos aeroportos brasileiros. Entre passageiros, trabalhadores e famílias, estão crianças e adolescentes em situações de vulnerabilidade, muitas vezes invisíveis aos olhos de quem passa.
O tráfico de pessoas é uma grave violação de direitos humanos. O crime envolve ações como recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou acolhimento de pessoas, associadas ao uso de ameaça, fraude, engano, coação ou abuso de uma situação de vulnerabilidade, com a finalidade de exploração. No caso de crianças e adolescentes, a resposta ao tráfico exige atenção redobrada, uma vez que sua condição peculiar de desenvolvimento demanda proteção integral e prioridade absoluta, conforme previsto na legislação brasileira.
Os dados reforçam a dimensão desse desafio. O Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas 2024, publicado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), apontou um crescimento de 25% no número de vítimas detectadas em comparação ao período anterior com aumento dos registros relacionados ao tráfico de crianças, ao trabalho forçado e à exploração para a prática de crimes. Em 2022, mulheres e meninas representaram 61% das vítimas identificadas globalmente. O UNICEF também registrou que 48,8 milhões de crianças estavam deslocadas por conflitos e violência ao final de 2024, realidade que amplia riscos, fragiliza vínculos comunitários e exige respostas de proteção nos diferentes espaços de mobilidade.
No Brasil, o Relatório de Dados sobre Tráfico de Pessoas publicado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em 2025 mostrou que crianças e adolescentes representavam cerca de 17% dos casos identificados pelo Sistema Único de Saúde. Esse dado precisa ser compreendido a partir das desigualdades que atravessam a infância brasileira. Idade, pobreza, racismo, desigualdade de gênero, migração forçada, afastamento familiar, exposição à violência e acesso limitado a políticas públicas podem se combinar e criar contextos favoráveis ao aliciamento e à exploração.
Por estarem em processo de desenvolvimento físico, emocional e cognitivo, crianças e adolescentes nem sempre conseguem reconhecer situações de risco ou perceber que falsas promessas de trabalho, estudo, viagem ou relacionamento podem esconder diferentes formas de exploração. As organizações criminosas conhecem essas vulnerabilidades e adaptam continuamente suas estratégias aos territórios e às novas tecnologias.
As formas de exploração são diversas. Elas incluem exploração sexual, trabalho infantil em condições degradantes ou análogas à escravidão, mendicância forçada, uso de crianças e adolescentes no transporte, armazenamento ou comércio de drogas e outros produtos ilícitos, casamento forçado, adoção ilegal e remoção de órgãos.
O desafio tornou-se ainda mais complexo com a expansão do ambiente digital. Muitas vítimas chegam aos aeroportos depois de terem sido aliciadas em redes sociais, aplicativos de mensagens ou plataformas de jogos. Essa relação entre crimes digitais e tráfico de pessoas tem mobilizado, inclusive, iniciativas do próprio setor aéreo. Em 2026, a campanha Projeto Liberdade no Ar, realizada pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), destacou esse tema nos principais aeroportos do país.
A proposta amplia o olhar sobre os riscos do ambiente on-line e reforça o papel estratégico dos aeroportos na prevenção, conscientização e proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade. Quando o setor aeroportuário incorpora a proteção da infância e da adolescência às suas responsabilidades, cada balcão de atendimento, área de embarque, equipe operacional, companhia aérea ou empresa prestadora de serviços pode se tornar um ponto de cuidado e um elo de uma rede capaz de proteger vidas.
A mesma circulação intensa que pode ser utilizada para deslocar vítimas também torna os aeroportos estratégicos para prevenir e enfrentar o tráfico de pessoas. Ao reunir milhões de passageiros, trabalhadores, empresas e órgãos públicos, esses espaços oferecem oportunidades concretas para disseminar informação, reconhecer sinais de alerta e acionar respostas protetivas.
Assim como segurança operacional e gestão de riscos fazem parte da rotina do setor aéreo, a prevenção ao tráfico de pessoas precisa integrar a governança das organizações que atuam nessa cadeia. Para que esse potencial se traduza em resultados concretos, é essencial que aeroportos, companhias aéreas e empresas que integram a cadeia da aviação civil incorporem a proteção da infância às suas políticas, processos e práticas cotidianas. Isso envolve formação contínua, protocolos claros para identificação e encaminhamento de casos suspeitos, cooperação entre instituições e uma cultura organizacional comprometida com os direitos humanos.
Os profissionais que atuam diariamente nos aeroportos – do atendimento às equipes operacionais e de segurança – podem desempenhar um papel decisivo na identificação de sinais de alerta. Quanto maior o conhecimento sobre o tema e sobre os procedimentos adequados, maior a capacidade de interromper situações de violência e acionar a rede de proteção.
Campanhas educativas, painéis digitais, avisos sonoros e informações dirigidas aos passageiros também contribuem para ampliar o conhecimento sobre o tema, estimular denúncias e tornar mais visível um crime que frequentemente permanece oculto.
A articulação com organizações especializadas e com as redes locais de proteção fortalece a capacidade de prevenção e resposta do setor, especialmente em regiões marcadas por intenso fluxo turístico, migratório ou econômico.
Enfrentar o tráfico de pessoas exige políticas públicas consistentes, atuação articulada entre diferentes instituições e o compromisso permanente de organizações públicas e privadas. Mas esse esforço coletivo depende, sobretudo, da capacidade de identificar situações que raramente são evidentes, como relações de confiança, falsas promessas e deslocamentos que, à primeira vista, parecem comuns.
É justamente por isso que os aeroportos podem fazer diferença. Em espaços onde milhões de pessoas circulam todos os anos, profissionais preparados para reconhecer sinais de alerta podem interromper uma situação de violência antes que ela se concretize. Em muitos casos, proteger uma criança ou adolescente começa com um olhar atento, uma pergunta feita no momento certo e a decisão de agir.
Graziella Rocha e Eva Dengler – Respectivamente Consultora e Superintendente de Programas da Childhood Brasil

