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Estudo liderado pela Charité, na Alemanha, identificou características associadas a melhores e piores respostas ao tratamento com psilocibina e LSD
Um tratamento à base de psicodélicos pode apresentar resultados mais positivos quando o paciente vive em um ambiente estável, conta com apoio da família ou de amigos e demonstra abertura a novas experiências. A capacidade de aceitar situações difíceis, “soltar” determinadas vivências e estabelecer vínculos seguros com outras pessoas também aparece associada a uma maior chance de resposta à terapia.
Essas são as principais conclusões de um estudo liderado pela Charité – Universitätsmedizin Berlin, na Alemanha, que reuniu pela primeira vez a experiência de terapeutas de diferentes países sobre o uso de psicodélicos no tratamento de doenças mentais. Os resultados foram publicados no periódico científico Nature Mental Health.
A pesquisa ouviu 158 terapeutas que realizam tratamentos assistidos por psicodélicos. Os profissionais responderam a perguntas sobre sua experiência, a abordagem terapêutica utilizada e as características dos pacientes, incluindo condições de vida, traços de personalidade, duração e gravidade da doença. Também foram avaliados aspectos como a dose da substância, a intensidade do acompanhamento e o ambiente em que as sessões foram realizadas.
Respostas podem variar
A terapia assistida por psicodélicos utiliza substâncias como a psilocibina, presente em alguns cogumelos, e o LSD. Estudos vêm investigando seu potencial no tratamento de depressões graves e resistentes, transtornos de ansiedade, dependência e outras condições psiquiátricas.
Os resultados, contudo, podem ser muito diferentes entre os pacientes. Uma mulher de meia-idade com depressão há mais de uma década descreveu a experiência como dolorosa e curativa depois de uma sessão controlada com psilocibina. Seis semanas depois, não apresentava sinais mensuráveis de depressão em uma escala clínica reconhecida. Já outra paciente, com diagnóstico, trajetória da doença e condições de vida semelhantes, teve uma experiência oposta. Ela considerou a sessão uma “tortura interna”, não apresentou melhora e ficou ainda mais sem esperança após o tratamento.
“A terapia com psicodélicos é uma faca afiada. Por isso, é muito importante saber quando ela deve ser utilizada – e quando não deve”, afirma Felix Betzler, coordenador do estudo e chefe do grupo de pesquisa sobre drogas recreativas da Clínica de Psiquiatria e Psicoterapia da Charité.
Perfil associado à melhora
De acordo com a avaliação dos terapeutas, determinados fatores aumentam a probabilidade de uma resposta favorável. Entre eles estão:
- ambiente de vida estável;
- apoio de familiares ou amigos;
- abertura a novas experiências;
- capacidade de aceitar circunstâncias difíceis;
- disposição para se desapegar de determinadas experiências;
- capacidade de estabelecer vínculos seguros;
- experiências anteriores com estados alterados de consciência, como meditação ou técnicas de respiração.
Por outro lado, o consumo de cocaína, anfetaminas, álcool e cannabis foi apontado como uma influência negativa sobre os resultados.
Os terapeutas também observaram diferenças relacionadas aos traços de personalidade. Pacientes com características evitativas, dependentes e obsessivo-compulsivas foram considerados mais propensos a responder bem ao tratamento. Já pessoas com traços paranoides, esquizoides e esquizotípicos exigiriam maior cautela.
Os perfis narcisista, antissocial e emocionalmente instável, associado ao transtorno de personalidade borderline, foram considerados mais difíceis de classificar quanto à resposta à terapia.
Preparação é fundamental
O estudo reforça que os psicodélicos não devem ser tratados como uma solução rápida ou uma “cura milagrosa”. O resultado depende também de como a experiência é preparada, acompanhada e discutida posteriormente.
Antes da sessão, o paciente deve conseguir estabelecer uma relação de confiança com o terapeuta, definir objetivos e falar sobre seus medos. O acompanhamento profissional durante a experiência e a chamada integração posterior – momento de elaborar o que foi vivenciado – também são considerados fundamentais.
A equipe recomenda que esse tipo de tratamento seja realizado apenas em centros especializados e dentro de estudos clínicos ou ambientes devidamente regulamentados. Segundo os pesquisadores, terapeutas que atuavam fora de contextos clínicos controlados avaliaram as chances de sucesso de maneira mais otimista, inclusive em pacientes com doenças mais graves, menor apoio social ou experiências negativas anteriores.
Busca por uma psiquiatria mais precisa
Para Felix Betzler, identificar quais pacientes podem se beneficiar – e quais podem ser prejudicados – pode contribuir para uma abordagem mais precisa da psiquiatria. A equipe pretende usar os dados do estudo para desenvolver uma ferramenta digital capaz de estimar, antes do tratamento, a probabilidade de resposta de cada paciente.
Os autores ressaltam, porém, que a pesquisa se baseou nas avaliações e experiências dos terapeutas entrevistados. Os fatores identificados indicam possíveis preditores de resposta, mas não comprovam, sozinhos, que determinada característica seja responsável pela melhora ou pela piora do quadro clínico.
Com informações da Charité – Universitätsmedizin Berlin. Viljoen G. et al. “Therapist-rated predictors of response to psychedelic-assisted therapy”. Nature Mental Health, 29 de abril de 2026. DOI: 10.1038/s44220-026-00642-4.

