Peixe da espécie Stellifer naso. Foto Crédito: Rafael Lima Oliveira.
Pesquisadores da UFRJ e da UFRPE analisaram estruturas do ouvido interno de uma espécie de peixe coletada perto da foz do rio Doce e encontraram deformações em 60% dos exemplares – o maior índice já registrado em peixes costeiros do Brasil
Da Redação
Um estudo conduzido por pesquisadores do Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), identificou um número incomum de deformações em estruturas do ouvido interno de um pequeno peixe capturado no litoral do Espírito Santo – e associa o achado à contaminação deixada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015, considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil.
O trabalho, publicado em 7 de agosto de 2026 na revista científica Ocean and Coastal Research, analisou otólitos – pequenas estruturas calcificadas localizadas no ouvido interno dos peixes, responsáveis por funções de equilíbrio e audição – de 38 exemplares da espécie Stellifer naso, um peixe comum na costa brasileira, coletados na foz do rio São Mateus, entre os municípios de Conceição da Barra e São Mateus (ES), em maio de 2022.
O que os cientistas encontraram
Otólitos costumam ter um formato regular e previsível dentro de cada espécie, e mudanças nessa forma podem servir como um indicador do ambiente em que o peixe viveu – funcionando quase como um “registro” biológico de estresse ambiental sofrido pelo animal. Por isso, alterações na forma dessas estruturas vêm sendo cada vez mais usadas por cientistas ao redor do mundo como sinal de poluição ou de outros distúrbios ambientais.
No estudo, 23 dos 38 otólitos analisados – ou 60,5% do total – apresentaram algum tipo de anomalia: projeções de formato irregular, malformações e variações que fugiam do padrão esperado para a espécie. Usando ferramentas estatísticas para comparar o formato dos otólitos, os pesquisadores confirmaram que essas peças anômalas eram significativamente mais irregulares do que as normais, um resultado que os autores consideram estatisticamente robusto.
Esse percentual, segundo o artigo, é o mais alto já registrado em estudos desse tipo com peixes costeiros brasileiros. Para efeito de comparação, os próprios autores citam outros estudos que registraram anomalias entre cerca de 1% e 27% dos otólitos em outras espécies analisadas no país.
Por que Mariana?
A pergunta que motivou o estudo, segundo o artigo, foi entender o que estaria causando esse índice tão alto de deformações. Os pesquisadores descartaram uma explicação comum na literatura científica para esse tipo de anomalia – variações naturais de temperatura e salinidade da água, ligadas a fenômenos oceânicos como a ressurgência -, já que a região onde os peixes foram coletados não costuma registrar esse tipo de evento.
A hipótese que os autores consideram mais plausível é a contaminação por rejeitos de minério de ferro despejados no rio Doce após o rompimento da barragem de Fundão, em novembro de 2015. O desastre, apontado por especialistas como um dos maiores acidentes ambientais do mundo envolvendo mineração, já havia sido associado, em estudos anteriores, a acúmulo de metais pesados em peixes e outros sinais de contaminação registrados nos otólitos de espécies da região.
Chama atenção o intervalo entre o desastre, em 2015, e a coleta dos peixes analisados, em 2022 – quase sete anos depois. Os autores argumentam que esse tipo de contaminação por metais pesados pode ter efeito prolongado no ambiente, o que ajudaria a explicar por que os sinais de dano ainda apareceriam tantos anos após o rompimento da barragem.
Como reforço à hipótese, os pesquisadores mencionam ter identificado, em exemplares preservados em coleções de museu da mesma espécie, malformações no corpo dos peixes que poderiam estar ligadas ao mesmo processo de contaminação – achado de um estudo complementar ainda não publicado.
O que falta provar
Os próprios autores fazem questão de destacar os limites do que foi encontrado. O estudo não analisou diretamente a composição química ou cristalina dos otólitos – o que permitiria confirmar com mais precisão se as anomalias resultam de um tipo específico de alteração mineral associada a contaminação, hipótese que os pesquisadores levantam, mas não comprovam neste trabalho. Os autores recomendam que pesquisas futuras usem técnicas complementares, como análise química dos otólitos e imageamento tridimensional, para confirmar a origem exata das deformações.
O artigo também deixa em aberto a possibilidade de que fatores genéticos, ainda não identificados, tenham contribuído para o resultado observado – o que exigiria investigação adicional.
Ainda assim, os autores consideram o padrão encontrado relevante o suficiente para acender um sinal de alerta sobre os efeitos, ainda pouco compreendidos, que o desastre de Mariana pode estar produzindo sobre a fauna marinha do litoral capixaba quase uma década depois do rompimento da barragem.
O estudo “High incidence of anomalies in sagittal otoliths of Stellifer naso (Sciaenidae) may reflect contamination linked to the largest Brazilian environmental disaster” foi publicado na revista Ocean and Coastal Research, da Universidade de São Paulo, em 7 de agosto de 2026, e está disponível em acesso aberto.

