Foto Crédito: Diego Formiga/Instituto Ar.
O segundo dia da COP30, realizado ontem, 11 de novembro, em Belém, foi marcado por uma série de acontecimentos que colocaram em evidência a tensão entre movimentos sociais e a organização da conferência, os impactos da crise climática sobre a saúde pública e o avanço de soluções práticas em territórios, cidades e comunidades. Os eventos envolveram lideranças indígenas, representantes do setor público e privado, profissionais da área médica, ativistas ambientais e autoridades internacionais, consolidando Belém como palco central dos debates globais sobre clima.
Protestos e reivindicações indígenas
No fim da tarde, um tumulto entre manifestantes e seguranças na entrada da Blue Zone do Parque da Cidade expôs o clima de insatisfação de movimentos sociais e indígenas com a limitação do acesso e da participação popular nos espaços de decisão da COP. Imagens da TV Liberal mostraram ferimento em um dos seguranças. O episódio, de acordo com manifestantes, teve como fundo o descontentamento com a autorização para pesquisa visando exploração de petróleo na Foz do Amazonas e a falta de consulta às comunidades indígenas do Oiapoque. Lideranças como Júlio Pontes e André Marajó, além do defensor público Cassio Bitar, apontaram para o avanço de interesses econômicos na região do Tapajós, relegando as populações tradicionais e suas demandas. O cacique Raoni Metuktire, reconhecido internacionalmente, lançou manifesto público contra os planos de exploração petrolífera do bloco 59 na costa do Amapá e, junto a Luene e Lia Karipuna (Apoianp), denunciou a contradição na postura do governo brasileiro entre o compromisso climático e o incentivo à exploração de combustíveis fósseis, reiterando o direito à consulta livre, prévia e informada conforme a Convenção 169 da OIT.
Marcha pela Saúde e Clima
Logo no início da noite, cerca de 3 mil médicos, enfermeiros, lideranças indígenas, representantes de coletivos sociais e estudantes caminharam pelas ruas de Belém, denunciando os impactos já vividos da crise climática na saúde pública e exigindo políticas concretas de proteção à vida. A Marcha Global Saúde e Clima, coordenada pelo Movimento Médicos pelo Clima, Fiocruz, Instituto Ar e apoiada por dezenas de organizações, escancarou a urgência de incorporar a pauta da saúde como prioridade política nas ações de mitigação e adaptação climática. Líderes como Evangelina Araújo (Instituto Ar), Mario Moreira (Fiocruz), Mario Massuda (Ministério da Saúde) e Weibe Tapeba (Saúde Indígena) pontuaram que eventos extremos como enchentes, secas e queimadas já impactam diretamente o cotidiano dos sistemas de saúde, provocam doenças respiratórias e cardiovasculares, e agravam quadros psiquiátricos e de sofrimento mental, especialmente entre os mais vulneráveis. Segundo a Organização Mundial da Saúde, entre 2030 e 2050, a crise climática poderá causar, anualmente, até 250 mil mortes adicionais, pressionando ainda mais os custos globais do setor. As lideranças reivindicaram integração entre saúde e meio ambiente nas políticas públicas e denunciaram a ausência de planejamento emergencial frente aos desastres ambientais.
Cidades e água no centro das soluções
Dentro da COP30, durante o segundo dia, avançaram as discussões sobre a liderança local e subnacional, evidenciando o papel dos territórios, cidades e comunidades no enfrentamento à crise climática. A campanha Beat the Heat Implementation Drive, coordenada pela Presidência da COP30 e PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), entrou em fase de execução com o objetivo de proteger 3,5 bilhões de pessoas do calor extremo em 185 cidades, marcando o início da mobilização de financiamento e parcerias. Na Reunião Ministerial de Alto Nível sobre Urbanização e Mudanças Climáticas, Brasil e Alemanha foram anunciados como copresidentes de uma aliança destinada a incorporar a governança multinível em cem NDCs até 2028, além de expandir treinamento a 6 mil funcionários públicos locais. A Buildings Breakthrough Initiative apresentou normas para edifícios de baixo consumo energético e o plano No Organic Waste (NOW) confirmou investimento de 30 milhões de dólares para combater emissões de metano oriundas de resíduos orgânicos. A segurança hídrica também ganhou força com o anúncio de um programa de investimento em água na América Latina e no Caribe, coordenado pela CEPAL e CAF, comprometendo vinte bilhões de dólares até 2030. A plenária ministerial global Mutirão reuniu ministros e prefeitos de mais de oitenta países, reafirmando que o futuro do Acordo de Paris será concretizado a partir da articulação local e regional.
Esse conjunto de fatos mostra que o segundo dia da COP30 consolidou Belém como espaço de embate democrático e de propostas concretas, com participação mobilizada da sociedade civil, reivindicação de consulta e respeito aos povos tradicionais, integração inédita dos profissionais de saúde no debate climático e conquistas reais no avanço das políticas públicas para urbanização, resíduos, edificações verdes e segurança da água. Cada tema tratado nas ruas e nos salões da conferência reforça que a luta climática é antes de tudo uma luta da vida cotidiana dos brasileiros e das populações do mundo.

