Foto Crédito: Shubhendu Mohanty/Unsplash
O periódico científico Regulatory Toxicology and Pharmacology anunciou a retratação de um artigo amplamente citado que defendia a segurança do herbicida Roundup, produzido pela Monsanto. A decisão, divulgada em 28 de novembro de 2025, ocorre 25 anos após a publicação original em 2000 e foi motivada por “sérias preocupações éticas” relacionadas à autoria do estudo, conforme informou o coeditor-chefe Martin van den Berg em nota oficial. O artigo não deve mais ser utilizado como referência científica, uma vez que foi revelado que funcionários da Monsanto influenciaram secretamente seu conteúdo para minimizar os riscos cancerígenos do glifosato, princípio ativo do Roundup.
O escândalo veio à tona em 2017, durante processos judiciais contra a Monsanto, quando e-mails internos mostraram que a empresa ajudou a redigir o artigo, que apresentava conclusões favoráveis à segurança do herbicida, ao passo que representantes da companhia discutiam táticas para influenciar a literatura científica com artigos assinados por acadêmicos apenas como fachada. Este estudo foi base para muitos documentos e políticas públicas que negavam o potencial cancerígeno do produto.
Cientistas como Naomi Oreskes, da Universidade Harvard, e Alexander Kaurov trabalharam para apresentar um pedido formal de retratação, preocupados com a persistência da influência do artigo. Eles constataram que o estudo continuou entre os mais citados na área, mesmo após as denúncias, influenciando decisões públicas e acadêmicas. A retratação é vista como um passo importante para alertar a comunidade científica e o público sobre a falha ética e a falta de integridade do estudo.
Os autores principais Robert Kroes e Ian Munro já faleceram, e o último autor vivo, Gary Williams, não respondeu aos questionamentos da revista. A decisão enfatiza a importância da transparência e da revisão rigorosa para garantir a credibilidade das pesquisas em toxicologia e saúde pública.
Retratação não é o bastante
A publicação e a utilização de um artigo ético questionável, citado por cientistas e adotado como base para políticas públicas ao redor do mundo durante 25 anos, pode causar consequências graves para a humanidade, especialmente em áreas como saúde pública, meio ambiente e confiança na ciência. Quando estudos comprometidos são usados para fundamentar decisões governamentais, pode haver subestimação de riscos reais, como o potencial cancerígeno do glifosato, levando à exposição desnecessária de milhões de pessoas a substâncias potencialmente perigosas.
Além disso, a adoção de políticas baseadas em pesquisas éticas duvidosas pode enfraquecer a credibilidade científica e alimentar a desinformação, tornando mais difícil o combate a pseudociência e o avanço de políticas efetivas. O exemplo do estudo sobre o Roundup mostra como a influência corporativa pode distorcer o debate científico e a regulação de produtos, prejudicando tanto a saúde humana quanto o meio ambiente por décadas.
Outra consequência é o impacto social: comunidades expostas a agrotóxicos podem sofrer efeitos adversos, enquanto políticas públicas que deveriam proteger a população acabam sendo moldadas por interesses privados. Isso pode gerar desconfiança nas instituições científicas e governamentais, dificultando a implementação de medidas corretivas mesmo após a descoberta da fraude.
Portanto, a utilização prolongada de artigos éticos comprometidos tem potencial para causar danos irreversíveis à saúde, ao meio ambiente e à confiança pública, ressaltando a importância de revisão ética rigorosa e célere e transparência nas pesquisas científicas que influenciam políticas públicas.
Fontes para consulta
- https://zeppelini.com.br/quando-retratar-um-artigo-nao-e-o-bastante-et-al-347/
- https://fpabramo.org.br/2018/05/15/roundup-da-monsanto-pode-fazer-mais-mal-do-que-se-sabia/
- https://revistapesquisa.fapesp.br/manipula%C3%A7%C3%A3o-de-dados/
- https://apublica.org/2020/04/esquizofrenia-epilepsia-depressao-ha-23-anos-agricultor-lida-com-efeitos-tragicos-do-agrotoxico/

