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Um recente artigo publicado na Revista de Escola de Enfermagem da USP traz a voz de 12 adolescentes entre 14 e 19 anos que sobreviveram a tentativas de suicídio em um hospital público da capital paulista. Com dados coletados entre agosto e dezembro de 2024, as narrativas revelam que o gesto suicida surge como resposta a um sofrimento acumulado – luto, violência, discriminação e falta de apoio – que muitas vezes não havia espaço para ser dito antes.
A essas vozes, a psicóloga e doutora em psicanálise Carolina Nassau Ribeiro responde com o livro Suicídio na Adolescência: Uma Abordagem Psicanalítica*, que articula os achados clínicos desse estudo com teoria freudiana‑lacaniana e com a experiência em consultório. Enquanto o artigo mostra “o que aconteceu”, o livro propõe “como ouvir” – e, dessa maneira, como abrir caminho para que o adolescente não precise mais se expressar apenas por meio do ato.
O que os adolescentes dizem sobre suas tentativas
Nas entrevistas, os 12 jovens narram que a tentativa de suicídio surge depois de um acúmulo de vivências traumáticas: violência doméstica, abuso sexual, bullying, discriminação por raça, identidade de gênero ou orientação sexual, além de conflitos familiares intensos e ausência de apoio. Muitos relatam que, mesmo vivendo em casa, se sentiam “sozinhos no quarto”, porque o que tentavam dizer era ignorado, desqualificado ou punido.
É justamente nesse ponto que o livro entra em diálogo com o estudo: Carolina Nassau Ribeiro mostra que, para a psicanálise, o suicídio na adolescência não é apenas um “transtorno” a ser tratado, mas um sinal de que o sofrimento não encontrou lugar na fala e, por isso, se encarna no corpo. O gesto suicida, nas palavras das adolescentes e adolescentes, aparece como um “até aqui eu consigo suportar”, um limite a partir do qual o jovem não consegue mais se manter vivo sem que alguém finalmente o ouça.
Os adolescentes do estudo
O estudo da Escola de Enfermagem organiza, em tabela, os dados básicos dos 12 adolescentes ouvidos: idade, raça/cor, número de tentativas e forma empregada. A seguir, uma versão fiel ao original, mantendo o foco na diversidade e na repetição do gesto:
| Adolescente | Idade | Raça/cor | Nº de tentativas de suicídio | Método da tentativa |
|---|---|---|---|---|
| 6 | 15 | Parda | 1 | Envenenamento por medicamentos |
| 7 | 16 | Parda | 2 | Envenenamento por medicamentos |
| 8 | 18 | Parda | 3 | Envenenamento por medicamentos + uso de álcool |
| 9 | 19 | Negra | 2 | Envenenamento por medicamentos |
| 10 | 18 | Parda | 2 | Lançar‑se na frente de veículo em movimento na rua |
| 11 | 17 | Branca | 3 | Envenenamento por medicamentos |
| 12 | 18 | Parda | 2 | Envenenamento por produtos de limpeza |
Fonte: Conhecer para cuidar: histórias de vida de adolescentes sobreviventes de tentativa de suicídio em uma metrópole brasileira. Letícia Yazigi Martins e outros. Escola de Enfermagem da USP, n.60, 2026.
Esse quadro mostra que:
- A maioria tem entre 17 e 19 anos, coincidindo com a faixa etária de maior risco de suicídio no Brasil.
- Há jovens brancos, pardos e negros, evidenciando que o sofrimento atravessa grupos raciais, ainda que se articule a racismo, discriminação e menor acesso a serviços de saúde mental.
- Vários têm mais de uma tentativa, o que reforça que o suicídio não é um “evento isolado”, mas um processo que pode se repetir se o apoio não for contínuo.
Carolina Nassau Ribeiro, no livro, destaca que, ao olhar para essa tabela, é preciso ir além da estatística: cada linha é um sujeito com história, família, medo e desejo. A psicanálise, segundo ela, ajuda a entender que repetir o ato pode ser um modo de tentar obter respostas que nunca chegaram antes – de pais, da escola ou dos serviços de saúde.
Como o livro traduz essas vozes em orientações
Para famílias, o livro e o estudo concordam em um ponto central: não minimizar, não moralizar e não desviar o olhar. Quando um adolescente fala de morte, de autolesão ou de tentativa, muitas vezes está tentando dizer que não consegue mais suportar, sem saber que existem outros canais de ajuda. A psicóloga orienta que familiares evitem dizer “você está exagerando”, “isso é coisa de fase” ou “pense nos seus pais”, porque isso fecha o diálogo e reforça a sensação de que ninguém quer ouvir.
Em vez disso, Carolina sugere frases como:
- “Me conta mais”
- “Estou aqui para ouvir”
- “O que você sente importa”
Essas falas, aparentemente simples, são, para a abordagem psicanalítica, um passo concreto para que o sofrimento se torne algo que pode ser dito, em vez de apenas vivido.
O que a escuta clínica acrescenta ao atendimento
Para profissionais de saúde e educadores, o livro amplia o que o estudo já indica: a escuta qualitativa é, em si, parte do cuidado. O artigo mostra que muitos adolescentes relatam nunca ter tido um espaço em que pudessem falar de verdade sobre o que estavam sentindo, nem em casa, nem na escola, nem no próprio serviço de saúde. A psicanálise, segundo Carolina, oferece ferramentas para sustentar a presença diante do sofrimento sem se apressar, trabalhando o tempo da fala, o desejo do outro e a possibilidade de redobrar o vínculo com a vida.
Ela reforça que, além de protocolos de segurança, medicações e intervenções de emergência, é necessário articular projetos de cuidado em rede, envolvendo família, escola e serviços de saúde mental, com foco em continuidade do acompanhamento. A tabela de características dos adolescentes serve, nesse contexto, como lembrete de que nenhum protocolo vale mais do que o reconhecimento de que, por trás de cada número, existe um jovem com história, raça, gênero, violência e sonho.
Ouvir antes de interpretar
Entre o grito mudo do adolescente e o ato mais grave, há um espaço que precisa ser ocupado por escuta, paciência e acolhimento. O estudo da REEUSP mostra o que esses jovens vivenciam; o livro de Carolina Nassau Ribeiro mostra como conversar com esse sofrimento, tanto em casa quanto em contexto clínico.
Para famílias, educadores e profissionais de saúde, o que foi exposto pode funcionar como um convite a não reduzir o gesto ao “chamado de atenção” ou à “crise passageira”, mas a assumir que, ao ouvir de verdade, talvez se consiga evitar que o próximo passo seja um ato de que ninguém saiba se irá ter sobrevivente para contar.

