O medo de se movimentar dificulta a recuperação. Foto Crédito: Agência PáginaUm
ATENÇÃO – Leia este texto com calma. Ele fala de você – ou de alguém que você conhece e ama. Não é para passar o olho: é para respirar, refletir e se ver nas situações descritas. Lendo devagar, lendo mais de uma vez, você aproveita melhor as orientações e já se prepara para a próxima matéria da série.
Na primeira matéria desta série, vimos como vídeos de exercícios nas redes sociais podem ser porta de entrada para o movimento, mas também gerar frustração ou piora da dor quando não trazem orientações de segurança nem respeitam os limites individuais. No consultório, os especialistas se deparam tanto com situações provocadas por movimento mal orientado quanto com o extremo oposto: não é excesso de ousadia, e sim um medo tão grande de se mexer que o corpo e a vida vão encolhendo aos poucos.
Segundo as fisioterapeutas Valéria Baldan, Emanuelle Medeiros e a fisioterapeuta especialista em práticas integrativas Sílvia Patrício, esse medo – a chamada cinesiofobia – raramente aparece como confissão direta. Ele surge em frases como “minha coluna é fraca”, “se eu fizer isso vai travar”, “melhor não forçar porque tenho desgaste”, manifestações que revelam uma relação de desconfiança com o próprio corpo.
O medo que “protege”
No dia a dia do consultório, o paciente não costuma dizer “tenho medo de me mexer”. Ele chega contando que a coluna é frágil, que tem artrose ou “desgaste”, conclui que é melhor não fazer esforço, como se o corpo fosse um terreno instável prestes a ceder.
Para Valéria Baldan, essas frases revelam uma relação de insegurança com o corpo: além da dor, há a sensação de que ele não é confiável. “Às vezes, a dor até já diminuiu, mas o medo continua alto”, relata. Emanuelle descreve a mesma cena: pacientes que se movem devagar, com pouca mobilidade, sempre prestando atenção na dor e na possibilidade de “travar” de novo.
Essa tal de cinesiofobia piora tudo
Em linguagem simples, cinesiofobia é o medo de se movimentar por achar que o movimento vai causar ou piorar uma lesão. A intenção é se proteger, mas o efeito costuma ser o contrário: ao evitar o movimento, a musculatura fica mais fraca e rígida, as articulações perdem mobilidade e o corpo vai ficando menos adaptado ao esforço.
“Cria-se um ciclo: a pessoa sente dor, evita se mexer, o corpo fica mais sensível… e a dor aumenta”, resume Valéria. Emanuelle descreve a mesma espiral: medo da dor, menos movimento, mais rigidez muscular, piora da mobilidade e, de novo, mais dor.
Nos idosos, esse medo costuma nascer de um conjunto de fatores: crises intensas no passado, quedas, diagnósticos assustadores dados por outros profissionais e orientações restritivas acumuladas ao longo da vida (“não pode isso, não pode aquilo”). “Muitas vezes a pessoa passa a acreditar que o corpo está ‘gasto’ e ‘frágil’, quando, na verdade, ele só está menos adaptado”, afirma Valéria.
Sílvia Patrício reforça que a dor crônica é um fenômeno de muitas dimensões: envolve aspectos físicos, emocionais, sociais e comportamentais. Ela lembra que a dor não é apenas algo que o corpo sente; pode “usurpar” a vida, alterar o estado emocional, mexer na rotina e nas atividades diárias, fazendo a pessoa se sentir cansada, limitada e incompreendida.
Sem apoio, muitos pacientes entram em um ciclo de dores, mais remédios, mais limitações, medo e isolamento. O trabalho com o medo do movimento busca justamente interromper esse círculo vicioso.
A vida encolhe
Esse medo não afeta só a ida à academia; ele rearranja a rotina inteira. “O que a gente observa é uma redução progressiva da vida”, diz Valéria. A pessoa começa evitando um movimento específico, depois passa a evitar sair de casa, abandona atividades de que gostava e, quando percebe, está com uma rotina muito limitada.
Segundo Emanuelle, isso não é falta de vontade, mas uma tentativa constante de evitar dor. Se o ciclo não é interrompido, a consequência pode ser perda importante de força, equilíbrio e mobilidade, maior sensibilidade à dor e dependência progressiva para caminhar, tomar banho ou se alimentar. Valéria ressalta que essa “proteção” cobra um preço alto e pode se somar a depressão, declínio cognitivo e até maior risco de óbito.
Para Sílvia Patrício, emoções como raiva, angústia e ansiedade têm efeito direto sobre a experiência dolorosa. Quando esses sentimentos se acumulam, a respiração encurta, o corpo se contrai e o organismo entra em estado de defesa, o que pode intensificar ainda mais a percepção da dor. Em contrapartida, momentos de alegria, afeto e atividades prazerosas – uma conversa boa, um hobby, um pouco de distração – tiram a dor do centro da atenção por instantes, mostrando que corpo e emoção caminham juntos.
Qual o primeiro exercício?
Diante de um paciente que chega dizendo “tenho medo de piorar se me exercitar”, nenhuma das duas começa pela ficha de treinos. “O primeiro passo não é o exercício – é escutar”, afirma Valéria. Ela procura entender o que a pessoa viveu, o que acredita sobre o próprio corpo, quais foram as experiências ruins anteriores, que frases se repetem na cabeça daquele paciente.
Só depois entra a explicação sobre dor crônica e, por último, o movimento. “Se a gente pula essas etapas e vai direto para o exercício, a tendência é o paciente travar”, diz. Emanuelle segue raciocínio semelhante: primeiro, deixa o paciente contar toda a história; depois, explica de forma simples o que é dor crônica, quais são os gatilhos que podem piorar o quadro e só então propõe movimentos leves e seguros.
Sílvia Patrício aproxima essa prática do que chama de cuidado emancipador. Em vez de enxergar o paciente apenas como alguém que recebe tratamento, a proposta é que ele participe ativamente do próprio cuidado, compreendendo o que sente, reconhecendo limites e fazendo escolhas mais conscientes no dia a dia. A porta de entrada, explica Sílvia, é a educação em dor e o autoconhecimento – aprender a escutar o corpo, a mente e os sentimentos como um hábito diário, quase como escovar os dentes. Aos poucos, isso ajuda a quebrar esse ciclo de dores, medicamentos, limitações, medos e isolamento.
Para explicar a diferença entre remendar e cuidar de verdade, Sílvia usa a imagem de uma casa que começa a rachar por fora e recebe apenas remendos rápidos, como uma camada de pasta de dente e uma passada de lixa. Por um tempo, a parede parece impecável, mas as chuvas e a trepidação do trânsito fazem as rachaduras voltarem, cada vez mais profundas. “Muitas vezes fazemos o mesmo com o corpo: tentamos ‘dar um jeitinho’ na dor sem olhar para as causas, sem autocuidado e sem autoconhecimento”, diz. Na visão dela, quando a pessoa passa a se conhecer melhor – o que sente, o que pode, o que a assusta – ela consegue tomar decisões com mais consciência, em vez de deixar o medo mandar o tempo todo. Práticas que favorecem essa escuta interna, como Tai Chi e outras atividades de movimentos suaves e atenção à respiração, podem ser uma das formas de reconstruir essa confiança no corpo.
Uma parte importante desse processo é ajudar o paciente a diferenciar proteção real de alarme exagerado. “Nem toda dor nova significa que surgiu uma nova lesão”, explicam as especialistas. Em muitos casos, o corpo está mais sensível, “em alerta”, mas não necessariamente machucado – e fatores emocionais, ambientais (como frio e sono ruim) e mecânicos (sobrecarga, movimento errado ou falta de movimento) podem intensificar a dor sem corresponder a um dano novo. Quando essa compreensão se torna concreta para a pessoa, o medo de se mexer começa, aos poucos, a perder força.
Recuperando a confiança
Depois da escuta e da explicação, vem a etapa dos “testes” bem simples, pensados para criar experiências positivas com o movimento. Valéria descreve movimentos como levantar uma perna ou um braço, jogar uma bolinha sentado – sempre algo leve, controlado, sem sensação de ameaça. Já Emanuelle costuma começar demonstrando movimentos do dia a dia feitos da forma mais confortável possível: deitar e levantar da cama, calçar os sapatos com apoio, evitar inclinações bruscas da coluna.
A ideia é que a pessoa perceba, na prática, que consegue se mexer sem piorar a dor. “Isso muitas vezes vale mais do que qualquer explicação”, diz Valéria. Quando o paciente sente no próprio corpo que é possível se mover com segurança, a mensagem de proteção deixa de ser apenas racional e começa a virar confiança real.
Juntas pela vida
Nos idosos com dor crônica, fisioterapia e terapia ocupacional se complementam. A fisioterapia atua diretamente no corpo: força, mobilidade, coordenação, equilíbrio e confiança física para caminhar, subir degraus, se agachar. A terapia ocupacional é a área que ajuda a pessoa a recuperar autonomia nas atividades significativas do dia a dia, como se vestir, cozinhar, sair de casa e retomar hobbies. Ela olha para a rotina e para as atividades que foram abandonadas – ir à feira, tomar banho sozinho, pegar ônibus, voltar a frequentar uma praça ou uma igreja.
Um exemplo citado por Valéria é o idoso que parou de sair de casa por medo. Na fisioterapia, ele recupera segurança para caminhar; na terapia ocupacional, aprende a reorganizar o trajeto, fazer pausas, planejar a volta a lugares que têm sentido para ele. Em casos assim, o trabalho conjunto costuma acelerar muito o processo de retomada da autonomia.
Até onde ir?
Para quem está voltando a se mexer, algum desconforto é esperado, principalmente quando a musculatura está destreinada. Em geral, é uma dor leve ou moderada, que melhora depois do descanso. O que preocupa é a dor muito intensa, que só piora ou não melhora com o tempo.
Entre os sinais claros de alerta, as especialistas citam: dor no peito ou que irradia para o braço, falta de ar importante, confusão, tontura forte, desequilíbrio, perda de força, cansaço extremo ou uma dor muito fora do padrão habitual. Nesses casos, a recomendação é interromper o esforço e procurar avaliação profissional.
Caminhos possíveis
Nem todo mundo que se identifica com esse medo pode pagar atendimento particular. Valéria e Emanuelle lembram que existem caminhos possíveis dentro do SUS: unidades básicas de saúde, centros de reabilitação, grupos de alongamento e programas de atividade física em praças e parques organizados por municípios. Não é o cenário ideal, reconhecem, mas pode ser um ponto de partida importante para não enfrentar tudo sozinho.
Sílvia Patrício acrescenta que, nesse processo de cuidado mais ativo, práticas integrativas e complementares – as PICS já disponíveis em parte da rede pública – podem ser aliadas importantes. Elas ajudam a regular a respiração, reduzir o estresse, aumentar a consciência corporal e favorecer um estado emocional mais equilibrado, preparando o terreno para que o movimento volte a fazer sentido. Nas próximas matérias da série, ela detalha como isso aparece na prática, em histórias reais e em serviços do SUS.
Para quem já convive com dor há anos, tentou se mexer, piorou e hoje tem medo de tentar de novo, as três profissionais deixam uma mensagem direta. O medo é compreensível e costuma nascer de experiências reais, não de fraqueza. Mas isso não significa que o corpo não possa melhorar: muitas vezes, o que faltou não foi esforço, e sim uma abordagem mais gradual, individualizada, com mais explicação e segurança. Retomar o movimento aos poucos, com orientação e respeito aos limites, é uma forma de cuidar do corpo sem tratá‑lo como se fosse frágil.
Colaboraram para esta matéria



@institutosohma.
Dando a volta por cima
Esta segunda matéria mostrou o lado menos visível da relação entre dor crônica e movimento: o medo que se infiltra no corpo e nos pensamentos, reduz a vida e transforma qualquer passo em ameaça. Na próxima matéria da série, vamos seguir com quem já passou por esse lugar – pessoas que viveram esse ciclo de medo, sedentarismo e mais dor, mas conseguiram, com apoio de fisioterapia, terapia ocupacional, práticas integrativas e programas de atividade física orientada, reconstruir confiança, retomar atividades como ir à feira, caminhar no bairro ou voltar a dançar e encontrar uma melhora possível no dia a dia.
Serão histórias de “virada” que mostram na prática o que significa cuidado emancipador: menos culpa, menos imobilização e mais protagonismo na própria rotina, mesmo quando a dor não desaparece por completo.
Se você vive com dor crônica e se reconheceu em algum desses medos, ou se cuida de alguém nessa situação, deixe suas dúvidas e experiências nos comentários. Elas vão orientar as próximas matérias da série – inclusive a escolha das histórias reais e das respostas das especialistas – para que o conteúdo seja o mais útil possível para a sua vida. Se preferir uma comunicação mais privada, envie sua mensagem para o WhatsApp (11) 93301‑6286; algumas dúvidas poderão ser abordadas de forma anônima nas próximas matérias da série.
Próxima matéria: 25 de maio
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

