Pesquisadores estão cada vez mais de olho na influência dos pesticidas no surgimento de diabetes em pessoas magras. Foto Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil
Artigo recém-publicado na revista Science sugere que a exposição crônica a pesticidas pode alterar a flora intestinal e contribuir para o desenvolvimento de diabetes tipo 2 em pessoas não obesas, jogando luz sobre um risco potencialmente relevante para países de uso intensivo de agrotóxicos, como o Brasil.
Enquanto o Brasil se consolida como um dos maiores consumidores de agrotóxicos do planeta, um artigo que a revista Science acaba de publicar indica que a perturbação do microbioma intestinal por pesticidas pode ser uma peça importante para explicar o avanço global da diabetes tipo 2 em pessoas magras, sobretudo em populações rurais expostas diariamente a esses produtos. A hipótese se apoia em estudos com trabalhadores agrícolas, pesquisas experimentais em animais e levantamentos que detectaram resíduos de pesticidas em praticamente toda a população examinada em diferentes países.
Brasil entre os campeões de uso de agrotóxicos
Estudos da Embrapa indicam que o consumo anual de agrotóxicos no Brasil supera 300 mil toneladas de produtos comerciais, o que corresponde a cerca de 130 mil toneladas de ingrediente ativo e representa um aumento de cerca de 700% nos últimos quarenta anos, enquanto a área agrícola cresceu 78% no mesmo período. Levantamentos compilados no Atlas dos Agrotóxicos mostram que o país aparece entre os maiores consumidores e importadores de pesticidas do mundo, com salto de 384,5 mil toneladas em 2010 para mais de 700 mil toneladas em 2021.
Dados mais recentes do Ibama apontam que, apenas em 2023, foram comercializadas mais de 755 mil toneladas de ingredientes ativos de produtos fitossanitários no país. Paralelamente, o Ministério da Agricultura vem mantendo ritmo elevado de aprovação de novos registros: em 2023, por exemplo, já havia mais de 500 novos pesticidas autorizados, consolidando um mercado bilionário movimentado principalmente pelo agronegócio da soja, do milho e do algodão.
Nesse cenário, cresce a preocupação com possíveis impactos crônicos à saúde de trabalhadores rurais, comunidades vizinhas às áreas de cultivo e consumidores expostos a resíduos na alimentação. Relatórios da Comissão Pastoral da Terra também registram o maior número de casos de contaminação por agrotóxicos da década, evidenciando que o tema já aparece nas estatísticas de conflitos e violações no campo.
Microbioma intestinal na mira
O artigo da Science se insere em uma frente de pesquisa que ganhou força nos últimos anos: a dos efeitos dos pesticidas sobre o microbioma intestinal. O microbioma é o conjunto de trilhões de bactérias, fungos e vírus que habitam o intestino humano, participando da digestão, da produção de vitaminas e outros nutrientes, da modulação do sistema imunológico e da comunicação entre intestino e cérebro.
Revisões bibliográficas recentes indicam que desequilíbrios nessa comunidade – a chamada disbiose – estão associados a doenças metabólicas como obesidade e diabetes tipo 2, além de condições inflamatórias e neurológicas. No debate mais atual, a saúde intestinal vem sendo apontada como um possível indicador dos efeitos tóxicos dos agrotóxicos, e revisões brasileiras destacam que o consumo de alimentos com resíduos de pesticidas tem sido associado a efeitos negativos para o intestino, enquanto a alimentação orgânica tende a favorecer o equilíbrio da microbiota.
O que a Índia tem a ver com o Brasil
A reportagem da Science abre com a história de Bhanudas More, trabalhador rural de uma pequena vila no estado de Maharashtra, na Índia. Magro, fisicamente ativo e acostumado a jornadas longas nas lavouras de cana-de-açúcar e uva, ele foi diagnosticado com diabetes tipo 2 em um exame de rotina – um quadro típico de doença crônica associada, em geral, à obesidade e ao sedentarismo urbanos.
Mesmo com tratamento medicamentoso, More seguiu com glicemia difícil de controlar e passou a se queixar de distensão abdominal, gases e desconforto intestinal frequente, o que prejudicava o trabalho diário. A causa exata permanece incerta, mas os médicos chamaram atenção para um dado: nas áreas em que ele atua, o trabalhador é exposto regularmente a uma “mistura” de pesticidas agrícolas, em um padrão que lembra a realidade de muitos produtores e assalariados rurais brasileiros.
Pesquisadores citados pela Science suspeitam que casos como o de More ilustrem como a exposição crônica a agrotóxicos — mesmo em doses consideradas baixas — pode alterar o microbioma intestinal e, por essa via, contribuir para o desenvolvimento de diabetes tipo 2 em pessoas sem obesidade. No Brasil, estudos e relatos de campo vêm mostrando que o contato direto com pulverizações, a contaminação de água e a presença de resíduos nos alimentos são problemas recorrentes em regiões agrícolas, o que torna essa hipótese particularmente relevante para a saúde pública.
A Science e os estudos internacionais
No estudo destacado pela Science, a equipe do pesquisador Velmurugan Ganesan, na Índia, analisou quase 3 mil pessoas no sul do país. Em áreas urbanas, cerca de 23% dos participantes tinham diabetes, associada aos fatores clássicos de risco, como obesidade e colesterol elevado; nas áreas rurais, a prevalência ainda era alta, em torno de 16%, mas sem ligação com esses fatores tradicionais, o que levou os cientistas a considerar o papel de exposições ambientais, incluindo o uso intensivo de pesticidas.
Para investigar essa possível conexão, o grupo testou, em modelo animal, a exposição prolongada ao inseticida clorpirifós, amplamente empregado na agricultura. Em vez de doses altas por poucos dias, adotaram uma dose “realista”, baseada em resíduos estimados na dieta humana, administrada a camundongos por 120 dias. Os animais expostos ao pesticida apresentaram uma remodelação do microbioma intestinal, com redução de bactérias consideradas benéficas, como Lactobacillus, e aumento de espécies potencialmente problemáticas, como Helicobacter.
Os camundongos desenvolveram hiperglicemia e quadro compatível com diabetes tipo 2 sem ganhar peso, sugerindo um tipo de diabetes “não obeso” associada à exposição química, diferente do padrão clássico ligado principalmente ao estilo de vida. Em outro trabalho, coassinado por Ganesan, os autores descrevem um mecanismo provável: ao metabolizar o clorpirifós, as bactérias intestinais produzem acetato e outros compostos que o fígado utiliza na produção de glicose (gluconeogênese), contribuindo para manter a glicemia elevada em animais de laboratório.
O artigo da Science também descreve pesquisas que expuseram espécies típicas da microbiota humana a uma bateria de pesticidas, identificando mudanças na produção de centenas de pequenas moléculas, incluindo ácidos graxos de cadeia curta, ácidos biliares e metabólitos do triptofano — substâncias que participam da manutenção da barreira intestinal, da regulação da inflamação e de respostas imunes. Em alguns casos, bactérias passaram a acumular pesticidas dentro de suas células, o que, segundo os autores, pode prolongar a permanência desses compostos no organismo.
Evidências em humanos
As evidências em humanos ainda são consideradas iniciais, mas são motivo de preocupação. Um estudo liderado por Robin Mesnage, citado pela Science, analisou a urina de 130 pessoas no Reino Unido em busca de resíduos de 186 pesticidas. Os pesquisadores encontraram resíduos de inseticidas piretróides ou organofosforados em todas as amostras analisadas, além de glifosato em 53% dos participantes.
Pessoas que relataram maior consumo de frutas e verduras apresentaram níveis mais altos de certos resíduos de pesticidas, indicando que alimentos contaminados são uma importante via de exposição. Ao cruzar esses dados com a análise de fezes, os autores observaram associações entre níveis mais elevados de resíduos na urina e mudanças na composição e no metabolismo da microbiota intestinal, reforçando o elo entre dieta, agrotóxicos e microbioma, embora sem provar causa e efeito.
No Brasil, revisões recentes sobre agrotóxicos e saúde intestinal reforçam essa preocupação ao apontar que a ingestão de alimentos com resíduos de pesticidas tem sido associada a alterações na microbiota e a maior risco de doenças crônicas, enquanto a alimentação orgânica aparece como possível fator protetor para o intestino. Ainda faltam, porém, estudos de intervenção em larga escala que avaliem, por exemplo, mudanças no microbioma de grupos que passam a consumir apenas produtos orgânicos por determinado período.
Implicações para a saúde pública
Pesquisadores ouvidos pela Science e por revisões internacionais enfatizam que ainda não há prova definitiva de causalidade entre pesticidas, alteração do microbioma e doenças como a diabetes tipo 2 em humanos. Muitos estudos são observacionais ou feitos em modelos animais, o que dificulta separar os efeitos diretos das substâncias químicas daqueles mediados pela flora intestinal.
Mesmo assim, o conjunto de evidências vem sendo considerado suficiente, por diversos pesquisadores da área, para acender alertas em políticas de saúde pública, sobretudo em países como o Brasil, com uso intensivo de agrotóxicos, forte presença do agronegócio e populações vulneráveis expostas na rotina de trabalho ou por meio da alimentação. Especialistas lembram que não existe solução rápida ou universal para “consertar” a microbiota: probióticos podem ter papel pontual, mas a composição do microbioma é determinada por dieta, ambiente, uso de medicamentos e exposições químicas, entre outros fatores.
No curto prazo, pesquisadoras e pesquisadores apontam três linhas de ação: reduzir a exposição a agrotóxicos sempre que possível, fortalecer políticas de vigilância de resíduos em alimentos – como o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) – e investir em pesquisa sobre os efeitos do uso crônico de pesticidas na saúde intestinal da população brasileira. Em uma realidade em que trabalhadores rurais muitas vezes não conseguem sequer escolher se vão ou não participar da pulverização, garantir transparência, proteção e alternativas de produção menos dependentes de químicos passa a ser também uma medida de cuidado com o microbioma – esse “órgão invisível” que, silenciosamente, ajuda a sustentar a saúde de milhões de pessoas.
Os estudos citados aqui são apenas o começo de um campo em rápida expansão. Apoiar pesquisa independente e jornalismo que acompanha de perto o uso de agrotóxicos é parte essencial do cuidado com a nossa saúde intestinal – e com a qualidade da democracia.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

