Foto Crédito: Chris Hardy/Unsplash
O sedentarismo mata tanto quanto algumas das principais doenças crônicas, mas ainda é tratado como “falta de vontade” individual – quando deveria ser enfrentado como problema central de saúde pública
No Dia Mundial de Combate ao Sedentarismo, lembrado em 10 de março, é hora de reconhecer que ficar parado não é apenas uma escolha de estilo de vida, mas resultado direto de como organizamos trabalho, transporte, escolas e cidades. O Brasil figura entre os países mais sedentários do mundo, com quase metade dos adultos fisicamente inativos e centenas de milhares de mortes anuais associadas à inatividade física, num cenário marcado por jornadas longas, transporte público precário, calçadas inexistentes ou perigosas e excesso de tempo de tela.
A Organização Mundial da Saúde recomenda ao menos 150 minutos semanais de atividade física moderada para adultos – ou 75 minutos intensa – e cerca de 60 minutos diários para crianças e adolescentes, metas que grande parte da população simplesmente não consegue cumprir nas condições atuais. O preço é conhecido: mais infartos, AVCs, diabetes tipo 2, alguns tipos de câncer, quadros de depressão e ansiedade, com estimativas de que a inatividade possa gerar quase 500 milhões de novos casos de doenças crônicas até 2030 se políticas efetivas não forem implementadas. Pequenas mudanças individuais – caminhar alguns quarteirões, subir escadas, levantar da cadeira a cada hora – ajudam, mas esbarram em cidades hostis ao pedestre e desiguais no acesso a praças, parques e equipamentos esportivos.
Enxergar o sedentarismo como escolha pessoal é confortável para governos, mas falso. Combater a inatividade exige atacar determinantes estruturais: tempo de deslocamento em metrópoles engarrafadas, escolas sem educação física consistente, bairros sem áreas verdes, violência que esvazia ruas e praças, além da falta de programas públicos que integrem saúde, urbanismo e segurança. Num país em que doenças cardiovasculares seguem entre as principais causas de morte e consomem de forma evitável recursos do SUS, insistir apenas em campanhas de autoajuda, uma vez por ano, é abdicar de uma política séria de prevenção.
A Agência PáginaUm de Notícias entende que tratar o sedentarismo como problema de saúde coletiva – e não como defeito individual – é passo indispensável para qualquer estratégia honesta de promoção de saúde. Enquanto políticas urbanas e de transporte continuarem empurrando a população para a imobilidade, culpar o cidadão pela falta de movimento será apenas mais uma forma de responsabilizar a vítima e adiar escolhas difíceis que cabem ao poder público.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

