Desmonte na saúde gera incertezas e riscos a pacientes em El Salvador. Foto Ilustrativa. Crédito: Alexander Grey/Unsplash
O governo de El Salvador lançou em novembro de 2025 o DoctorSV, um sistema de saúde digital baseado em inteligência artificial, ao mesmo tempo em que reduziu de forma drástica o número de profissionais na rede pública. A combinação entre triagem automatizada e demissões em massa passou a pressionar hospitais e a colocar em risco pacientes que dependem do atendimento estatal.
O DoctorSV foi apresentado à população como solução para os problemas de saúde, com apoio do CAF (banco de desenvolvimento da América Latina e do Caribe) e do Google. Voltado ao atendimento básico da rede pública, o sistema concentra triagem, diagnóstico inicial e emissão de receitas digitais com QR code para retirada de medicamentos e acesso a exames. As fontes consultadas não esclarecem em detalhe até que ponto cada prescrição passa por validação médica individual.
Ao mesmo tempo em que a plataforma era lançada, o setor de saúde de El Salvador sofreu uma redução profunda de pessoal. Segundo estatística apresentada pelo Movimento de Trabalhadores Demitidos, foram 7.772 desligamentos ao longo de 2025. O Sindicato de Médicos do Instituto Salvadorenho do Seguro Social denunciou a eliminação de cerca de 672 postos na seguridade social. No Hospital Rosales, por exemplo, 1.800 funcionários foram convocados no fim de 2025 para ouvir que seus contratos estavam encerrados.
Os cortes atingiram diferentes áreas do atendimento, não apenas médicos e enfermeiros. Psicólogos, assistentes sociais, pessoal de limpeza, vigilância e setores técnicos também foram afetados, alterando o funcionamento geral e cotidiano das unidades. O resultado foi a sobrecarga da equipe que permaneceu na ativa, agora com menos apoio e estrutura para atender a mesma demanda.
Essa combinação de automação e redução de pessoal criou um quadro de tensão no atendimento. Pacientes com doenças crônicas, especialmente renais e oncológicos, passaram a enfrentar dificuldades para dar continuidade aos tratamentos. Há relatos de pessoas sem saber onde seguir com a diálise ou como manter terapias regulares.
O contraste entre a promessa tecnológica e a capacidade real de atendimento expôs a fragilidade do sistema. O caso de El Salvador se tornou um exemplo de transição tecnológica feita sob desmonte da rede pública, com impacto direto sobre profissionais e pacientes.

