Fonte Monumental, popularmente conhecida como fonte das lagostas. Foto: Divulgação
No próximo dia 28 de março, a Praça Júlio de Mesquita, no centro de São Paulo, recebe o evento “Mulheres na Praça: o legado de Nicolina”, das 10h às 18h. A proposta é chamar atenção para a escultora Nicolina Vaz de Assis, autora da Fonte Monumental instalada na praça, considerada a primeira obra de arte pública da cidade assinada por uma mulher.
A atividade parte do reconhecimento de que, embora a fonte seja um marco da urbanização do centro paulistano no início do século XX, a autoria de Nicolina permanece pouco conhecida. Ao tomar a praça como ponto de encontro, o evento busca discutir a presença de mulheres na história da cidade e o apagamento de seus nomes na memória urbana.
A Fonte Monumental, popularmente chamada de “fonte das lagostas”, foi encomendada pela Prefeitura no contexto das reformas que redesenharam o centro no começo do século passado. A obra reúne bacias sobrepostas e figuras escultóricas, com destaque para elementos ornamentais marinhos, e se tornou um dos símbolos do período em que São Paulo buscava se aproximar do modelo de grandes capitais europeias.
A programação do “Mulheres na Praça: o legado de Nicolina” é gratuita e inclui diferentes atividades ao longo do dia: oficina de defesa pessoal com Georgia Mocelini (11h às 12h), roda de conversa “Mulheres e o seu legado”, com Dandara Oliveira (12h às 13h), roda de samba com o grupo Batucamina (13h30 às 14h30), discotecagem com a DJ Taty Aguiar (15h às 16h) e oficina criativa com Flávia Gomes (16h às 17h). Das 10h30 às 17h, acontece também uma feira de iniciativas lideradas por mulheres.
Quem foi Nicolina
Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto, nascida Nicolina Amélia Vaz, foi uma escultora brasileira, considerada uma das primeiras mulheres a atuar profissionalmente na escultura no país.
Ela nasceu em Campinas (SP), em 18 de dezembro de 1874 (algumas fontes indicam apenas “dezembro de 1866”) e morreu no Rio de Janeiro em 1941.
Filha do médico Luiz Gonçalves da Silva Vaz e de Benvinda Silva Vaz, manifestou interesse pela escultura ainda jovem. Casou-se aos 16 anos com o médico Benigno de Assis; viúva relativamente cedo, passou a sustentar a família com o próprio trabalho artístico.
Formação e início da carreira
Nicolina começou a se dedicar à escultura em Campinas, produzindo bustos e estátuas em mármore e bronze, muitas vezes encomendados para fins funerários ou comemorativos.
A projeção de seu trabalho abriu caminho para que se transferisse para o Rio de Janeiro, então capital federal, onde frequentou o Liceu de Artes e Ofícios e o ateliê de modelos vivos, aproximando-se do meio artístico oficial.
Ela obteve apoio para estudar na Europa, especialmente em Paris, onde teve contato com a escultura acadêmica e com tendências como o art nouveau, o que marcou sua linguagem formal.
Em Paris, conheceu o escultor português Rodolfo Pinto do Couto, com quem se casou em 1911, gesto que contrariava a norma social da época de que viúvas não deveriam se casar novamente.
Obra e atuação profissional
Nicolina ficou conhecida pela vivacidade e dinamismo de suas figuras, muitas delas femininas, e pela habilidade em articular encomendas públicas e privadas em sintonia com a escultura europeia de fim do século XIX e início do XX.
Entre suas obras importantes estão:
- O relevo em bronze O Selvagem (1898), para o túmulo de José Vieira Couto de Magalhães, no Cemitério da Consolação (SP), considerado o primeiro exemplar de escultura art nouveau na cidade.
- Diversos bustos de políticos e figuras públicas, incluindo o busto do Barão do Rio Branco e retratos de oito presidentes da República para o Museu da República.
- Obras funerárias e monumentais em mármore e bronze, realizadas sob encomenda para famílias e instituições da elite urbana.
Depois de retornar ao Brasil em 1907, Nicolina fixou-se no Rio de Janeiro, de onde passou a receber encomendas para jardins, parques e edifícios públicos.
Entre essas obras se destaca O Canto das Sereias, na Quinta da Boa Vista (Rio de Janeiro), e, sobretudo, a Fonte Monumental de São Paulo.
A Fonte Monumental e o pioneirismo em São Paulo
Em torno de 1913, Nicolina foi chamada pela prefeitura de São Paulo, no contexto de reformas urbanas conduzidas desde a gestão de Antônio Prado, para criar uma grande fonte destinada originalmente à Praça da Sé.
A peça, toda em mármore de Carrara, acabou instalada na antiga Praça da Vitória, hoje Praça Júlio de Mesquita, no encontro da Avenida São João com as ruas Barão de Limeira e Vitória.
A Fonte Monumental — popularmente apelidada de “fonte das lagostas” por conta dos elementos ornamentais — é considerada a primeira obra de arte pública instalada em São Paulo com autoria feminina.
O monumento se tornou um marco da fase em que a cidade buscava se alinhar às grandes capitais europeias, ao mesmo tempo em que evidencia a pouca visibilidade dada às artistas mulheres na história oficial.
Reconhecimento e legado
Ao longo da carreira, Nicolina participou de exposições, salões oficiais e manteve ateliê ativo, sendo reconhecida pela crítica e pela imprensa de seu tempo como escultora de destaque da chamada “belle époque tropical”.
Mesmo assim, sua trajetória foi por muito tempo pouco mencionada em narrativas hegemônicas da arte brasileira, fenômeno hoje revisto por pesquisas sobre a participação de mulheres nas artes visuais.
Após sua morte, em 1941, obras de Nicolina Vaz de Assis passaram a integrar acervos de instituições como o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e coleções particulares.
Estudos recentes reavaliam sua produção como parte central da história da escultura brasileira no período republicano, destacando tanto seu pioneirismo quanto a dimensão de gênero envolvida em sua atuação num campo dominado por homens.

