Foto Crédito: Centre for Ageing Better/Unsplash.
ATENÇÃO – Leia este texto com calma. Ele fala de você – ou de alguém que você conhece e ama. Não é para passar o olho: é para respirar, refletir e se ver nas situações descritas. Lendo devagar, lendo mais de uma vez, você aproveita melhor as orientações e já se prepara para a próxima matéria da série.
Num vídeo de pouco mais de 30 segundos, no TikTok, uma mulher jovem em roupas de ginástica está em pé, na cozinha de casa, atrás de uma cadeira. Com as duas mãos apoiadas no espaldar, ela se movimenta ao som da versão “academia” de “hoje é festa lá no meu apê, pode aparecer”, sucesso do cantor Latino anos atrás. Enquanto ela se mexe, cabelos balançando para a direita e para a esquerda num rabo de cavalo que passa por um boné estiloso, outra voz feminina sugere: “em vez de caminhar por uma hora, faça este exercício por 4 minutos e colha mais benefício sem sequer sair de casa”.
Uma senhora de aproximadamente 60 anos admira o vídeo que chegou em seu WhatsApp como que por encanto. Está visivelmente interessada. O exercício parece fácil: é só apoiar as mãos no espaldar da cadeira que ela tem na sala, dobrar e estender a mesma perna repetidas vezes (o vídeo não informa quantas), depois a outra, seguindo o ritmo da música. O próximo passo é erguer totalmente o braço direito e levar a mão até a coxa esquerda, que já está no ar. Fazer isso várias vezes. Depois, inverter o lado. A voz continua: “tente, você consegue”. Simples assim.
Esse é mais um dos tantos vídeos que circulam no Instagram, TikTok e YouTube prometendo resultados rápidos, no conforto do lar, com poucos minutos de esforço. Sem qualquer alerta, sem qualquer acompanhamento especializado. E é justamente aí, nesse “qualquer”, que mora o risco para quem sente dor crônica, é idoso ou convive com doenças como artrose, osteoporose, problemas cardíacos e respiratórios, que, às vezes, a própria pessoa desconhece. O vídeo nada comenta sobre isso, nada fala sobre a exigência de equilíbrio numa perna só, controle do quadril, joelho e coluna.
Quando o atalho vira armadilha
Para a fisioterapeuta esportiva Carolina Marques Andrade, especialista pela Sociedade Nacional da Fisioterapia Esportiva e da Atividade Física (Sonafe), os vídeos de exercício podem ser o primeiro passo para muita gente que está parada e morre de medo de começar. Na sua prática profissional, até o momento, ela não percebeu casos em que a dor piorou por causa desses vídeos e chama atenção para outro risco presente na fala de quem não vê esses vídeos com bons olhos: o de paralisar o paciente com discursos muito rígidos do tipo “não faça nada sem orientação”. “A maior dificuldade está em começar e se manter em atividade. E, se ele conseguir ter essa constância, mesmo executando exercícios ‘não adequados’ ou ‘sem orientação’, gradativamente pode melhorar sua capacidade física e trazer um impacto positivo ao corpo e ao movimento. Não existe situação ideal”, afirma. Para Carolina, o vídeo pode ser uma porta de entrada para quem não teria acesso a outro estímulo.

Carolina Marques Andrade – “Movimentar-se um pouco sem orientação e respeitando seus limites é melhor que não se movimentar – mas, se a dor muda de padrão ou ‘trava’, é hora de parar e procurar avaliação.”
Isso não significa, porém, que seja seguro para todos. A própria fisioterapeuta faz um corte claro: quando a dor se agrava, muda de padrão ou fica “mais específica” com o exercício, é hora de parar e buscar avaliação profissional. É essa triagem – separar o desconforto de um músculo que se adapta ao exercício da dor que anuncia lesão ou crise – que nenhum vídeo de 30 segundos consegue fazer. Estudos sobre exercício em dor crônica reforçam esse ponto: a atividade física é uma das colunas do tratamento, mas os melhores resultados aparecem quando há avaliação prévia, progressão gradual de intensidade e atenção às doenças associadas.
Seu corpo não é igual ao de todo mundo
No consultório da fisioterapeuta e educadora física Valéria Baldan, o feed das redes chega de outra maneira. “Sim, isso tem sido cada vez mais frequente”, diz, sobre pacientes que pioraram após seguir vídeos. Ela conta casos de pessoas com dor lombar que começaram a fazer pranchas e abdominais sem preparo e chegaram com mais dor, contraturas musculares e até episódios em que a coluna “travou”. Em joelhos, a cena se repete: tentativas de agachamento, sem adaptação, terminam em sobrecarga e aumento da dor.
“O maior risco é tratar o corpo como se fosse igual ao de todo mundo”, resume. Na artrose, exercícios que exigem muito impacto ou flexão de joelho podem aumentar dor e inflamação. Na osteoporose, movimentos de flexão ou torção realizados sem preparo e sem controle de carga podem favorecer microlesões ou até fraturas em casos delicados. Em problemas cardíacos e respiratórios, esforço mal dosado pode trazer falta de ar intensa, palpitações e mal-estar. “O ‘parece fácil’ pode enganar, porque o vídeo não mostra para quem aquele exercício não é indicado”, diz.
A terapeuta ocupacional Roberta de França Cruz, que atua com reabilitação e dor crônica, vê o mesmo padrão com outra lente: a do cotidiano. “Algumas vezes, ouço relatos. Acredito que o grande problema é receber pacientes que começaram exercícios por conta própria, principalmente de redes sociais, sem orientação prévia, e às vezes chegam com piora da dor ou até novas lesões”, conta. Entre os exercícios mais associados à piora, ela cita prancha e apoio de peso em punhos, agachamentos mal executados, movimentos repetitivos sem pausa e exercícios com impacto ou carga sem preparo prévio – justamente o tipo de demanda que, no vídeo que abriu esta matéria, é vendido como alternativa mais ‘eficiente’ do que caminhar.
“Sem avaliação, a pessoa pode agravar patologias existentes, desenvolver lesões por sobrecarga, compensar movimentos e gerar dor em outras regiões, piorar quadros como artrose, tendinopatias, entre outras. O maior risco é a pessoa achar que qualquer exercício serve e tratar um corpo ‘genérico’ quando, na verdade, cada caso exige individualização”, completa. Para um idoso ou alguém com dor crônica, ela reforça, “é necessário que haja acompanhamento e orientação individualizada para que haja melhor progressão do quadro de dor. O exercício precisa respeitar limites clínicos e não apenas a aparência do movimento na tela”.
Quando o corpo não lê legendas
Além dos riscos físicos, há um problema de comunicação básico: muita gente simplesmente não lê – ou não entende – as orientações que aparecem na tela em letras pequenas (quando elas aparecem). “Muitos pacientes não leem descrições, não entendem termos técnicos, ignoram avisos pequenos. Isso aumenta muito o risco de execução errada ou exagero”, alerta Roberta.
Ela lista as confusões mais comuns que encontra: achar que dor é sempre “normal” no exercício, acreditar que “quanto mais esforço, melhor o resultado”, pular etapas básicas e orientações, ir direto para exercícios mais avançados, repetir volume ou intensidade além do adequado, imitar o movimento sem perceber erros de postura ou alinhamento. “Movimento sem compreensão é uma das maiores causas de piora”, reforça a terapeuta ocupacional. Valéria diz observar padrão semelhante no consultório, sobretudo em pacientes que tentam “acompanhar o ritmo” dos vídeos sem entender o objetivo de cada exercício.
Carolina, que trabalha com esportes, não observa esse tipo de confusão em seus pacientes, mas concorda que faltam avisos explícitos nos vídeos: “Vejo poucas orientações sobre contraindicações, sinais para parar e a recomendação de buscar um fisioterapeuta caso comece a sentir dor ou a dor já existente se torne mais específica. Isso aumentaria a segurança de quem pratica os exercícios”, avalia.
Quando se trata de dor crônica, cada detalhe importa. Pesquisas apontam que pessoas com dor de longa duração tendem a ter o sistema nervoso mais sensível a estímulos, maior medo de se machucar e, ao mesmo tempo, grande desejo de uma solução rápida – um terreno fértil para aderir a promessas de “4 minutos em vez de 1 hora” sem olhar o contexto.
Valéria Baldan – “O ‘parece fácil’ pode enganar. Já vi paciente chegar travado depois de copiar pranchas, abdominais e agachamentos de vídeos que prometiam resultado rápido para qualquer pessoa.”

Não dói só no músculo
O vídeo também cutuca uma ferida emocional. “É comum ouvir: ‘todo mundo consegue, só eu não’”, relata Valéria. Ao ver alguém executando o exercício com facilidade, sorrindo ao som de uma música animada, pacientes com dor crônica frequentemente se sentem fracos, incapazes ou preguiçosos. “Isso pode gerar frustração, sensação de incapacidade, medo de se movimentar e até um certo afastamento do próprio corpo”, diz. A consequência não é só interromper aquele exercício; muitas vezes, é reforçar a ideia de que “nada funciona comigo”.
Roberta observa algo parecido: “Sim, muitos se culpam. Pensam que ‘não sou forte o suficiente’, ‘não consigo porque sou fraco’. Isso afeta autoestima, gera medo de movimento e pode até piorar a dor, fazendo com que o imobilismo aumente a dor.” Em pessoas com dor crônica, esse ciclo – dor, tentativa frustrada, culpa, mais imobilismo – é conhecido por agravar a sensibilidade do sistema nervoso e a limitação funcional.
Carolina chama atenção para outro lado dessa moeda: o excesso de proibições. “O discurso de que ‘não devemos fazer os exercícios sem orientação’ mais atrapalha neste sentido do que ajuda”, critica. Para ela, a mensagem precisa encontrar o meio-termo entre “faça qualquer coisa que vê na tela” e “não faça nada sem uma equipe completa ao seu lado”. “Movimentar-se um pouco sem orientação e respeitando seus limites é melhor que não se movimentar”, resume.
O que o vídeo não mostra
Se há divergências na forma de enxergar os vídeos – como risco predominante ou como porta de entrada -, há consenso sobre o que eles não entregam e o que o leitor precisa observar.
Roberta lembra que, na maior parte das vezes, o vídeo mostra só o movimento “bonito”, nunca o cuidado completo. “Geralmente ficam de fora o alongamento adequado, a progressão de exercícios gradual, as adaptações para quem tem dor ou limitação, as contraindicações e os sinais de alerta para parar”, diz. Ou seja, o espectador vê o “durante”, mas não recebe as etapas de proteção antes, durante e depois da prática.
Em linha com isso, Valéria sugere ficar atento a alguns sinais de alerta:
- Promessas de cura rápida
- Exercícios “para todo mundo”
- Falta de explicação de riscos
- Desafios do tipo “faça todos os dias”
- Movimentos complexos apresentados como simples
- Nenhuma orientação sobre dor: o que é aceitável, o que é motivo para parar.
“Se parece simples demais e serve para todos, provavelmente não é adequado para quem tem dor crônica”, afirma.
Roberta acrescenta outros pontos: vídeos que não falam de limitações, incentivam repetir sem adaptação, não têm orientação profissional clara, não mencionam que pessoas com certas doenças (artrose, osteoporose, problemas cardíacos) podem precisar de outra abordagem. “Você não precisa se virar sozinho. Seu corpo não é igual ao do vídeo – ele tem história, limites e necessidades próprias”, lembra.
Carolina, por sua vez, reforça que alguns elementos poderiam tornar esses vídeos menos arriscados: avisos falados sobre sinais de alerta, indicação explícita para procurar fisioterapeuta se a dor mudar, e, principalmente, a mensagem de que não existe milagre. “Se o resultado prometido vem fácil demais, se promete ‘curar’ sua questão totalmente, se ignora os riscos, provavelmente não é uma boa orientação a se seguir. O segredo está na constância, não existe milagre que supere isso”, diz.
O que fazer, então?
Se o vídeo não é solução pronta, e o atendimento privado é fora de alcance, o que sobra? É aqui que as três convergem com mais força. “As UBS são a porta de entrada do SUS. Lá, a pessoa é acolhida e pode ser direcionada à fisioterapia ou grupos de academia da cidade, onde terá as orientações de profissionais de saúde capacitados – gratuitamente via SUS”, lembra Carolina.
Perguntas simples podem ajudar a transformar qualquer orientação – seja de um vídeo, seja de um profissional – em algo mais seguro:
- “Esse exercício é adequado para a minha condição?”
- “Como posso adaptar para o meu momento de hoje?”
- “O que eu deveria sentir enquanto faço?”
- “Quais são os sinais de que devo parar e procurar ajuda?”
Movimento sim, mas seguro – e sem festa no apê
Na tela do celular, a música continua dizendo que “hoje é festa lá no meu apê, pode aparecer”. Latino provavelmente adoraria que a senhora de 60 anos do começo desta reportagem tivesse ido à festa – mas ela não apareceu. Exigiu demais do corpo tentando seguir o vídeo, a dor aumentou, o medo de se mexer cresceu e, por alguns dias, até sair de casa virou um desafio.

Roberta de França Cruz – “O maior risco é tratar um corpo com história de dor crônica como se fosse igual ao do vídeo. Movimento é importante, mas movimento seguro é o que realmente traz melhora.”
É assim, entre promessas fáceis de quatro minutos e corpos com histórias longas de dor, que muitos leitores vivem hoje: divididos entre a necessidade de se movimentar e o receio de piorar tudo. “Continue. Respeite seus limites, faça os exercícios observando os sinais do seu corpo e tente – a cada dia – se superar um pouco mais. Mas se mantenha em movimento, pois o movimento cura. E caso perceba que algo não vai bem, busque atendimento profissional com um fisioterapeuta”, aconselha Carolina. “Seu corpo não está errado, ele só precisa ser escutado”, diz Valéria. “Movimento é importante, mas movimento seguro é o que realmente traz melhora. A internet não é ruim e pode ser sua aliada na busca de informações e de profissionais que possam te auxiliar com individualidade”, completa Roberta.
As profissionais ouvidas nesta reportagem
(*) Crédito foto de Valéria Baldan: Laércio Luz./Fotos de Carolina Marque de Andrade e Roberta de França Cruz: arquivo pessoal.
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Esta é a primeira reportagem de uma série especial da Agência PáginaUm sobre dor crônica e movimento. Nas próximas matérias, vamos tratar do medo de se mexer quando já se vive com dor há anos – esse bloqueio que faz tanta gente olhar para a cadeira, a calçada ou a escada e pensar “e se eu travar de novo?”. A partir daí, vamos acompanhar histórias de quem conseguiu virar o jogo com ajuda profissional, os cuidados com atividades de lazer e as barreiras concretas de tempo, dinheiro e ambiente que se colocam entre o corpo dolorido e o tão necessário primeiro passo. Acompanhe. Divulgue. Participe.
Próxima matéria: 18 de maio
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Se você vive com dor crônica, deixe suas dúvidas e experiências nos comentários. Elas vão orientar as próximas matérias da série – inclusive a escolha das histórias reais e das respostas dos entrevistados – para que o conteúdo seja o mais útil possível para a sua vida. Se preferir uma comunicação mais privada, envie sua mensagem para o WhatsApp (11) 93301‑6286. Se desejar, sua dúvida será abordada de forma anônima nas próximas matérias da série.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

