Alouatta seniculus, no zoológico de Sorocaba/SP - Foto Crédito: Miguel Rangel Jr/Wikimedia.
Há cerca de 13 milhões de anos, um ancestral dos bugios que hoje vivem na Amazônia brasileira já exibia dentes e mandíbulas adaptados para mastigar folhas, no que pode ser o mais antigo registro de um macaco claramente folívoro na América do Sul. A conclusão vem de uma nova análise de mandíbulas fósseis de Stirtonia victoriae, primata do Mioceno médio (fase da história da Terra entre cerca de 16 milhões e 11,5 milhões de anos atrás) encontrado na região de La Venta, no atual deserto de Tatacoa, sudoeste da Colômbia – área hoje reconhecida pela Unesco como patrimônio geológico mundial.
Os fósseis foram estudados por uma equipe internacional de pesquisadores que revisou exemplares de Stirtonia victoriae escavados em camadas da formação La Victoria, datadas em torno de 13 milhões de anos. O trabalho descreve pela primeira vez mandíbulas bem preservadas da espécie, até então conhecida principalmente por fragmentos da parte superior do crânio e dentes isolados.
Para investigar a dieta do animal, os cientistas recorreram a análises geométricas tridimensionais, comparando a forma das mandíbulas e dos dentes de Stirtonia com os de outros primatas fósseis e de macacos atuais, incluindo bugios do gênero Alouatta. As tomografias e modelos 3D permitiram medir o relevo das coroas dos molares e a robustez óssea da mandíbula, características diretamente associadas ao tipo de alimento que os animais eram capazes de processar com eficiência.
Os resultados indicam que Stirtonia victoriae tinha molares com cristas afiadas e bem desenvolvidas, além de um padrão de desgaste compatível com o consumo intensivo de material vegetal fibroso, como folhas e brotos. A dentição é tão semelhante à dos bugios modernos que alguns autores consideram difícil distinguir Stirtonia e Alouatta apenas pelos dentes, reforçando a hipótese de que o fóssil pertence ao mesmo ramo evolutivo dos bugios atuais.
Do ponto de vista ecológico, a descoberta sugere que, já no Mioceno médio, existia na região de La Venta uma comunidade de primatas ocupando nichos similares aos observados hoje em florestas tropicais úmidas da Amazônia. A área, que há cerca de 13,5 milhões de anos abrigava uma floresta baixa e quente, hoje corresponde a um setor árido do deserto de Tatacoa, no departamento de Huila, mas preserva um dos mais ricos conjuntos fossilíferos de vertebrados da América do Sul.
La Venta reúne fósseis de mais de uma centena de espécies de vertebrados, incluindo pelo menos 12 primatas que representam todas as famílias atuais de macacos do Novo Mundo, o que faz do sítio uma referência para entender a origem da fauna amazônica. Dentro desse conjunto, o gênero Stirtonia é o principal representante dos alouattíneos, o grupo que inclui os bugios folívoros, com duas espécies reconhecidas: Stirtonia victoriae, das camadas mais antigas, e Stirtonia tatacoensis, de depósitos um pouco mais recentes da formação Villavieja.
Estudos anteriores já apontavam Stirtonia como um parente próximo dos bugios modernos, mas a ausência de mandíbulas completas de S. victoriae limitava as inferências sobre sua dieta. Com os novos materiais e a análise em 3D, os autores sustentam que se trata do registro mais antigo de um macaco especializado em folhas na América do Sul, o que ajuda a esclarecer quando e como surgiu a folivoria extrema entre primatas neotropicais.
Modelos de evolução da folivoria em primatas indicam que dietas ricas em folhas tendem a favorecer corpos maiores, metabolismo mais lento e um aparelho digestivo capaz de fermentar material vegetal pobre em energia. As estimativas de massa corporal para Stirtonia, baseadas no tamanho dos dentes e das mandíbulas, sugerem um animal de grande porte para um macaco neotropical, comparável aos maiores bugios vivos.
A ligação com os bugios brasileiros aparece quando se observa a distribuição atual do gênero Alouatta. Espécies como o bugio-vermelho amazônico (Alouatta seniculus e formas próximas) ocupam grandes áreas da Amazônia ocidental e central, enquanto o bugio-de-mão-vermelha (Alouatta belzebul) vive na Amazônia oriental e em fragmentos de Mata Atlântica do Nordeste, e outros bugios ocorrem na Mata Atlântica do Sul e Sudeste. Em comum, esses animais apresentam forte componente folívoro na dieta, dentição adaptada ao corte de folhas e um modo de vida arbóreo, dependente de florestas com copas contínuas.
Embora não se possa falar em uma “linha reta” de descendência de Stirtonia até os bugios que vivem hoje no Brasil, os dados de fósseis, anatomia comparada e genética apontam que ambos pertencem ao mesmo ramo de primatas especializados em folhas, com origem no Mioceno médio de regiões que já se assemelhavam, em clima e vegetação, à Amazônia. Isso permite interpretar os bugios amazônicos atuais como herdeiros de uma estratégia ecológica que começou a se consolidar pelo menos 13 milhões de anos atrás.
Para especialistas em evolução e conservação, o elo entre La Venta e a floresta amazônica moderna ajuda a reforçar a importância de proteger habitats contínuos de mata tropical. Macacos folívoros de grande porte, como os bugios, são especialmente vulneráveis à fragmentação florestal e ao desmatamento, pois dependem de grandes áreas para encontrar alimento e se deslocar pelo dossel. Preservar essas florestas significa manter não apenas espécies vivas, mas uma história evolutiva que se estende por milhões de anos.
Entenda: quem são os bugios brasileiros
Os bugios (gênero Alouatta) são alguns dos maiores macacos das Américas e se destacam pela vocalização potente, produzida por meio de um osso hióide dilatado que funciona como caixa de ressonância. No Brasil, o grupo inclui várias espécies, entre elas o bugio-vermelho amazônico (ligado ao complexo Alouatta seniculus), o bugio-de-mão-vermelha (Alouatta belzebul), de distribuição amazônica e nordestina, e o bugio-marrom (Alouatta guariba), típico da Mata Atlântica.
A dieta desses animais é baseada principalmente em folhas jovens, complementadas por frutos, flores e brotos, o que exige um sistema digestivo especializado e longos períodos de descanso para a fermentação do alimento. Os bugios vivem em grupos, são estritamente arborícolas e desempenham papel importante na dinâmica das florestas, ajudando a podar a vegetação e, em muitas situações, a dispersar sementes.

