"Ela havia chegado sem conseguir levantar da cadeira." Foto Ilustrativa. Crédito: Joel de la Cruz/Pexels.
VALE A PENA REPETIR – Leia este texto com calma. Ele fala de você – ou de alguém que você conhece e ama. Não é para passar o olho: é para respirar, refletir e se ver nas situações descritas. Lendo devagar, lendo mais de uma vez, você aproveita melhor as orientações e já se prepara para a próxima matéria da série.
Nas primeiras matérias desta série, vimos como a dor crônica pode encolher a vida. Primeiro, ao se misturar com um mar de informações desencontradas (vídeos de exercícios nas redes, promessas de cura rápida, conselhos bem‑intencionados que nem sempre ajudam) e deixar quem sofre ainda mais confuso sobre o que fazer. Depois, ao alimentar o medo de se mexer: a cada crise, o corpo parece mais frágil, a rotina vai sendo podada e, quando a pessoa percebe, está vivendo em um território cada vez menor, com receio de piorar a dor a cada passo. Mas pode ser diferente.
“Nunca vou me esquecer de uma paciente de 50 anos que, ao final do tratamento, mostrou à equipe uma foto dela andando de buggy com o filho durante uma viagem”, conta a fisioterapeuta Sílvia Patrício(*), especialista em práticas integrativas que atua em programas de cuidado para dor crônica. “Ela havia chegado sem conseguir levantar da cadeira e saiu com a consciência de que ainda podia viajar e viver com qualidade”, destaca.
Para aquela paciente, a imagem do buggy virou um símbolo de virada de chave. Quem convive com dor crônica sabe que não se trata apenas de sentir menos dor, mas de voltar a fazer coisas que pareciam perdidas: viajar, sair de casa sem medo de travar, caminhar com o filho, cuidar da própria rotina. É esse tipo de mudança que começa a aparecer quando a dor deixa de ser tratada só com remédio e repouso e passa a ser enfrentada com uma combinação de fisioterapia, terapia ocupacional, apoio emocional, revisão de medicações e práticas integrativas.
Como eles chegam
“Quase sempre, quem chega no consultório já passou por uma longa maratona”, resume a fisioterapeuta Valéria Baldan(**). Muitos pacientes com dor crônica desembarcam nos serviços especializados depois de anos de sofrimento: uma sequência de exames, consultas com diferentes médicos, fisioterapias, procedimentos e remédios – e pouca melhora que se sustente.
Eles trazem mais do que dor. Carregam cansaço, frustração e a sensação de que “o problema sou eu”. “Aos poucos, começam a acreditar que o erro está neles, não nos caminhos que não deram conta”, diz Valéria. Na rotina, o impacto se espalha: noites maldormidas, dificuldade para cuidar da casa, queda de produtividade no trabalho, irritação, desânimo e um isolamento que cresce devagar – a vida vai encolhendo.
Em muitos casos, o medo é tão grande quanto a dor. Medo de se mexer, de travar, de piorar, de tentar de novo e se frustrar. As pessoas chegam com diagnósticos diferentes, nomes técnicos que ouviram em consultas, vídeos salvos no celular, o que leu na internet, o que a Inteligência Artificial transmitiu, muita informação solta mas pouca compreensão real do que acontece com o próprio corpo.
O que fez diferença
Nas histórias em que há melhora, o que aparece não é um “procedimento milagroso”, mas um jeito diferente de cuidar. Valéria lista alguns pontos que se repetem nos casos de sucesso:
- Educação em dor em linguagem simples, ajudando a entender por que a dor aparece e por que pode continuar mesmo sem nova lesão.
- Tratamentos que aliviam o sintoma sem aumentar o medo – como terapia manual leve e técnicas toleráveis, que diminuem a tensão e o estado de alerta do corpo.
- Movimento orientado, ajustado à realidade de cada pessoa, com progressão de carga que faça sentido para aquele corpo.
- Mudanças na rotina: reorganizar tarefas, planejar pausas, distribuir melhor o esforço ao longo do dia.
- Apoio emocional e social, em atendimentos individuais ou em grupo.
Sílvia Patrício usa a imagem de uma casa com rachaduras na parede para explicar a diferença entre remendar e cuidar de verdade. “Se a gente só passa uma massinha por cima, a rachadura volta. Com o corpo é parecido: não adianta tentar ‘ajeitar’ a dor sem olhar para as causas, sem autocuidado e sem autoconhecimento”, diz.
Para ela, a virada começa quando a pessoa entende melhor o que sente, identifica o que piora e o que ajuda, e passa a tomar decisões não só pelo medo, mas pelo que faz sentido para o corpo e para a vida. Práticas integrativas como tai chi, meditação, exercícios respiratórios, auriculoterapia, acupuntura e outras técnicas disponíveis em alguns serviços ajudam a reduzir ansiedade, melhorar o sono e tirar o corpo do estado de alerta constante.
O que é “educação em dor”?
“Educação em dor” é uma conversa estruturada em que o profissional de saúde explica, em linguagem simples, por que a dor aparece e por que ela pode continuar mesmo quando o exame já não mostra mais lesão.
Em vez de falar só em “osso gasto” ou “coluna fraca”, essa explicação mostra que a dor é uma resposta do sistema nervoso, influenciada também por sono, estresse, emoções,
memórias e forma de se movimentar. Isso não significa que a dor é “coisa da cabeça”, e sim que o corpo inteiro participa dela.
Quando a pessoa entende melhor o que acontece, ela costuma ter menos medo de se mexer, consegue reconhecer o que realmente é sinal de alerta e o que é só um alarme exagerado, e se engaja mais nos exercícios e nas outras partes do tratamento.
Três histórias de virada

Nos centros especializados em dor crônica, as histórias de mudança aparecem em diferentes formatos. Uma delas é a da paciente do buggy, que chegou sem conseguir levantar da cadeira e, após meses de cuidado integrado, decidiu encarar uma viagem com o filho. A foto sobre quatro rodas, em movimento, sintetiza a mensagem: ainda é possível viver coisas novas, mesmo com dor.
Outra história é a da aposentada Cláudia Maria de Jesus, com pouco mais de 50 anos, que tratou dores na coluna em um dos centros de referência. Ela estima que teve cerca de 70% de melhora. “Tudo o que fiz lá me ajudou bastante. Se eu não tivesse ido, acho que hoje não estaria andando como estou agora”, conta. “Quem tem dor crônica não melhora 100%, mas eu nunca mais travei”. Para Valéria, frases como essa indicam uma mudança importante: crises mais espaçadas, menos medo de se mexer e mais autonomia para fazer o básico do dia a dia.
Elza de Souza, perto de seus 70 anos, é outro exemplo de bons resultados. Ela faz tratamento para ligamentos rompidos e hérnia de disco: “Os profissionais são excelentes. Você sai aliviada. Recomendo para qualquer pessoa que precise, eles nos tratam muito bem”, destaca. O alívio não é só físico: ser acolhida por uma equipe que escuta e explica o que está acontecendo ajuda a diminuir o peso emocional da dor.
Já a podóloga Silvana Ribeiro, agora com mais de 60 anos, convive com as dores da fibromialgia. “Mesmo com pouco tempo, estou amando. É um serviço que faz muita diferença na vida da gente. Sou um exemplo vivo disso”, afirma. Em quadros como o dela, combinações de fisioterapia, exercícios leves, rodas de conversa e práticas integrativas costumam trazer ganhos em sono, disposição e humor, o que prepara o terreno para que o movimento volte a ser possível.
Em todas essas histórias, ninguém fala em “cura mágica”. O que aparece é dor mais fraca, crises mais espaçadas, mais tempo entre uma piora e outra – e, principalmente, mais confiança para se mexer e fazer planos.
O papel do exercício físico na virada
No consultório de Valéria, a mudança também é construída em pequenos passos. Ela relembra o caso de uma paciente de cerca de 50 anos, com dor lombar e torácica há muito tempo, que chegou evitando caminhar, ficar em pé ou pegar uma roupa no cabide, com o corpo rígido e carregado de medo.
O primeiro marco foi entender melhor a dor. O segundo, perceber que conseguia se mexer sem piorar tudo. “Lembro do dia em que ela disse: ‘andei um quarteirão e não travei’. Parece pouco, mas ali mudou a relação dela com o corpo”, conta a fisioterapeuta.
Nas histórias dos centros de dor, a lógica é parecida. Caminhadas leves, fortalecimento progressivo, exercícios em casa e hidroginástica aparecem como peças centrais, sempre adaptadas à condição e ao ritmo de cada pessoa. “O que muda a história não é fazer muito por pouco tempo. É fazer melhor, com continuidade”, resume Valéria.
Equipe multiprofissional e cotidiano

Um ponto em comum nas histórias da paciente do buggy, de Cláudia, de Elza e de Silvana é o trabalho em equipe. A fisioterapia organiza o movimento: força, mobilidade, coordenação, equilíbrio. A terapia ocupacional leva essas capacidades para o cotidiano: adapta a maneira de cozinhar, limpar a casa, pegar ônibus, cuidar dos netos, usar o celular ou o computador.
Profissionais de psicologia ajudam a lidar com medo, culpa, tristeza e frustração, especialmente nos dias de crise. Farmacêuticas e médicos fisiatras revisam medicações, ajustam doses, evitam interações desnecessárias e, quando possível, planejam reduções seguras. Enfermeiras e assistentes sociais completam a rede, facilitando o acesso, organizando agendas, apoiando no cuidado com outras condições de saúde.
As práticas integrativas coordenadas por Sílvia e outros profissionais se somam a esse cuidado. Técnicas como tai chi, meditação, auriculoterapia, exercícios de respiração e outras abordagens corporais ajudam a diminuir a tensão muscular, melhorar o sono, reduzir a ansiedade e oferecer momentos em que a dor sai do centro da cena. “Quando a pessoa tem um espaço para se perceber com mais calma, começa a reconhecer melhor os sinais do corpo e a se sentir menos refém da dor”, afirma Sílvia.
Obstáculos, recaídas e pequenos passos
Mesmo com cuidado em equipe, o caminho não é reto. Crises de dor ainda acontecem. Há dias em que ir ao grupo ou à fisioterapia é difícil por causa de transporte, cansaço, falta de apoio em casa ou outras urgências.
Para Valéria, uma das chaves é mudar o jeito de olhar para as recaídas. “É um treinamento sessão a sessão para que a pessoa não veja a piora pontual como fracasso, e sim como parte de um processo que naturalmente oscila”, explica. Metas pequenas – subir um lance de escada com menos pausa, preparar uma refeição com pausas planejadas, participar de um almoço em família – ajudam a enxergar progresso mesmo quando a dor não desaparece.
Sílvia reforça que é um processo de reconexão com o próprio corpo. “Em algum momento, o corpo deixou de ser um lugar seguro. Não é na força que a gente reconstrói isso; é na confiança, um pouco de cada vez”, afirma. Educação em dor, escuta, práticas integrativas e movimento aos poucos criam esse chão de segurança.
Mas o prazer também exige cuidado
O conjunto dessas histórias mostra que não existe atalho rápido para a dor crônica – mas existe caminho. Quando há regularidade, vínculo com a equipe, compreensão do que acontece no corpo e apoio social, a dor deixa de ser dona da agenda, mesmo que continue presente.
“É uma oportunidade de olhar para si e um processo de voltar a confiar no próprio corpo e em si mesmo, respeitando o seu tempo e, aos poucos, retomando a vida, mesmo com a dor ainda presente”, resume Valéria Baldan. Para Sílvia Patrício, cuidado emancipador é justamente isso: “quando a pessoa percebe que pode escolher como se cuida, e que não está mais sozinha nem à mercê da dor o tempo todo”.
Nas histórias da paciente do buggy, de Cláudia, de Elza, de Silvana e da paciente que volta a andar um quarteirão sem travar, essa autonomia aparece em gestos muito concretos: viajar, caminhar pelo bairro, ir à feira, cozinhar, trabalhar, participar de encontros em família, voltar a se mexer pelo prazer de se mexer.
É essa dimensão do prazer que vai orientar a próxima matéria da série. Depois de falar do medo, da vida encolhida e dos caminhos de cuidado, o capítulo seguinte aborda o lazer: séries assistidas, redes sociais, videogames, trabalhos manuais, dança, música. O foco será entender como essas atividades podem entreter, de algum modo tirar a dor do centro das atenções, mas também podem funcionar como risco – e o que fazer para que se tornem aliadas, não inimigas, de quem vive com dor crônica.
Próxima matéria: 01 de junho
(*) Sílvia Patrício Soares – fisioterapeuta, farmacêutica e bioquímica, pós-graduada em Farmácia Clínica e Atenção Farmacêutica. Com especializações pela Faculdade de Saúde Pública da USP (Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Doença e no Envelhecimento; Saúde da Mulher no Climatério) e Unicamp (Práticas Integrativas e Complementares em Saúde: Ampliação da Cultura de Cuidado), além de formações em reiki, auriculoterapia, cromoterapia, Tai Chi Pai Lin, aromaterapia e meditação. E-mail: silviapatri@gmail.com.
(**) Valéria Baldan – Fisioterapeuta, educadora física e especialista em terapias integrativas, com atuação focada no tratamento da dor e na reabilitação do movimento. Tem formação em RPG e Pilates, além de pós-graduação pelo Hospital das Clínicas da USP. Com mais de 26 anos de experiência, atende em São Paulo (SP), no Instituto Sohma, e divulga orientações sobre dor e reabilitação em seu perfil profissional no Instagram @institutosohma.
——
Muitas pessoas que têm acompanhado esta série de matérias entraram em contato com a Agência PáginaUm e apresentaram dúvidas, pediram orientação. Várias delas serão respondidas aqui, nas próximas semanas pelos especialistas entrevistados. Se você vive com dor crônica, faça o mesmo: deixe suas dúvidas e experiências nos comentários. Essa troca de experiências fará com que esta série seja mais útil para a sua vida e para a vida de outras pessoas. Se preferir, envie sua mensagem para nosso WhatsApp (11) 93301‑6286. Se desejar, sua dúvida será abordada de forma anônima.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

