Foto Crédito: Serviço Fotográfico da Santa Sé/Divulgação.
No Capítulo V da encíclica “Magnifica Humanitas”, Pontífice denuncia a extração de dados sanitários e genéticos de populações vulneráveis como a “nova face” do colonialismo contemporâneo
Cidade do Vaticano — O Papa Leão XIV fez um alerta contundente sobre o que classificou como a “nova face” do colonialismo na era digital, desta vez atuando por meio da apropriação de dados de saúde, perfis epidemiológicos e informações genéticas de populações inteiras. A denúncia está no capítulo V da primeira encíclica do Pontífice, Magnifica Humanitas – Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial, publicada em 25 de maio de 2026.
No documento – assinado em 15 de maio, data alusiva aos 135 anos da Rerum Novarum de Leão XIII e se debruça sobre os desafios da inteligência artificial (IA) – o Papa dedica um trecho específico à crítica do que chamou de “colonialismo dos dados”. A passagem central está no parágrafo 178 do Capítulo V, intitulado “A cultura do poder e a civilização do amor”.
“O colonialismo apresenta, nos nossos dias, um rosto inédito. Não domina apenas os corpos, mas apropria-se dos dados, transformando as vidas pessoais em informações que podem ser exploradas”.
Segundo o Pontífice, territórios com menor relevância geopolítica e maior fragilidade estrutural estão sendo atravessados por uma “nova lógica de extração”: a dos fluxos sanitários, perfis epidemiológicos, mapas genéticos e dados demográficos. Leão XIV compara essas informações às novas “terras raras” do poder – um recurso estratégico disputado na geopolítica contemporânea.
A alavanca estrutural sobre o futuro
O Papa argumenta que os titulares desses dados – frequentemente coletados sob justificativas humanitárias como “ajudar, investigar ou inovar” – detêm, na prática, uma “alavanca estrutural em relação ao futuro” . Com essas informações relacionadas entre si, é possível desenvolver modelos preditivos, orientar estratégias de investimento, antecipar crises e, sobretudo, “selecionar quem e o que importa”.
O documento denuncia que esse poder permite decidir antecipadamente a quem destinar medicamentos, investimentos e proteções, criando uma assimetria global no acesso à saúde. A encíclica adverte que, se não houver uma mudança de rumo, a era digital “não será pós-colonial, mas colonial duma outra forma”.
O pedido de perdão e o paralelo histórico
A advertência sobre o colonialismo de dados não é feita isoladamente. No mesmo capítulo, o Papa Leão XIV insere essa crítica em um contexto mais amplo de revisão histórica da Igreja. No parágrafo 176, o Pontífice faz um pedido formal de perdão pela demora da Igreja em condenar a escravatura histórica.
“Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão” , escreve o Papa, reconhecendo que “a memória da cumplicidade e da cegueira de ontem face à injustiça da escravatura torna-se para nós um apelo à vigilância”.
Para o Papa, essa memória histórica exige um olhar atento às novas formas de dominação. O parágrafo 178 é, nesse sentido, a aplicação concreta desse aprendizado: assim como a Igreja tardou a reconhecer a injustiça da escravidão física, não pode agora ser complacente com a escravidão digital e a extração de dados.
A solução proposta: soberania e bem comum
O Pontífice propõe como caminho ético a transformação do conhecimento partilhado em bem comum, em vez de alavanca de domínio. Ele defende que se devolva aos povos não apenas os dados que os descrevem, mas também “a possibilidade de decidir como serão utilizados, por quem e para quem” .
A encíclica critica duramente a concentração de poder tecnológico nas mãos de poucos — grandes empresas de tecnologia que, segundo o documento, detêm “recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos” .
“Não serve uma IA mais moral se essa moral for decidida por poucos” , escreve o Papa no parágrafo 107 .
O contexto da encíclica
A Magnifica Humanitas foi apresentada pelo próprio Papa Leão XIV em 25 de maio de 2026, na Sala do Sínodo, no Vaticano – uma inovação, pois foi a primeira vez que um Pontífice apresentou pessoalmente uma encíclica à imprensa, ao lado de especialistas em tecnologia.
O documento tem aproximadamente 200 páginas e é fruto de uma reflexão de dez anos no seio da Santa Sé sobre as novas tecnologias. Seu lema central é o “desarmamento da IA”, que o Papa repete como exortação: “A Inteligência Artificial deve ser desarmada”.
Ficha Técnica:
- Documento: Carta Encíclica Magnifica Humanitas do Santo Padre Leão XIV
- Data de assinatura: 15 de maio de 2026
- Publicação: 25 de maio de 2026
- Tema central: Salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial
- Parágrafo citado: Capítulo V, § 178
- Fonte oficial: vatican.va

