Estreito de Ormuz. Foto Crédito: Oppenverse
Desde o fim de fevereiro, a crise no Estreito de Ormuz lembrou ao mundo que a segurança energética global ainda passa por um gargalo de poucos quilômetros – e que a transição climática continua acorrentada ao petróleo e ao gás. Não foi preciso um bloqueio naval formal para paralisar fluxos: bastou que o risco de guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel se traduzisse em prêmios de seguro proibitivos e, em muitos casos, no cancelamento da cobertura de risco de guerra para navios que cruzam o Golfo.
Hoje, cerca de 20% do petróleo transportado por via marítima e uma fatia crucial do GNL mundial passam por Ormuz, incluindo boa parte das exportações do Catar, dos Emirados Árabes Unidos e de outros produtores do Golfo. Quando a instabilidade disparou, armadores, afretadores e seguradoras passaram a tratar a travessia como uma loteria de alto risco, reduzindo drasticamente o tráfego de petroleiros e gaseiros, com navios desviados ou ancorados à espera de novas condições de seguro.
O “apagão” de seguros que liga guerra e energia
Do ponto de vista operacional, o estreito continua navegável: não há um bloqueio físico permanente imposto por marinhas estrangeiras ou pelo próprio Irã. Mas a escalada militar – ataques a instalações e ameaças explícitas a navios – levou grandes seguradoras e resseguradoras marítimas a reverem apólices de risco de guerra, emitirem avisos de cancelamento e relançarem cobertura a preços muito mais altos, quando decidem oferecer.
Como lembrou uma análise do Stimson Center, o seguro tornou‑se um dos principais canais de propagação da crise: mesmo antes de mudanças formais no status jurídico da via marítima, a simples incerteza sobre cobertura faz o comércio desacelerar mais rápido do que os comunicados diplomáticos. Em termos práticos, um petroleiro de centenas de milhões de dólares não navega se o seguro de guerra some ou se torna financeiramente inviável; e, quando isso acontece em Ormuz, o “gargalo” atinge não apenas o Golfo, mas refinarias, termelétricas e indústrias em todos os continentes.
Choque de preços e retrocessos climáticos
A primeira consequência visível é de mercado: um choque de oferta nessa escala injeta imediatamente um “prêmio de risco” sobre o barril de petróleo e sobre o gás, com alta de preços vista nas principais praças globais. No caso europeu, think tanks já alertam que uma interrupção prolongada dos fluxos de GNL via Ormuz aperta a disponibilidade de cargas spot, dificulta o enchimento de estoques e pressiona os custos de energia para a indústria.
Sempre que o gás dispara de preço e o petróleo segue o mesmo caminho, governos e empresas tendem a recorrer a soluções de curto prazo para manter luzes acesas e fábricas funcionando – inclusive prolongando a vida de usinas a carvão ou adiando o fechamento de ativos fósseis ineficientes. Foi o que se viu na crise de 2021–2023, quando o corte abrupto do gás russo levou vários países europeus a reativarem térmicas a carvão, aumentando as emissões justamente no momento em que a curva deveria estar caindo de forma mais rápida.
A lógica se repete agora em outra geografia: uma rota crítica de combustíveis fósseis é atingida, os preços sobem, e a resposta imediata tende a privilegiar qualquer solução que garanta segurança energética, ainda que à custa de metas climáticas. Para países em desenvolvimento muito dependentes de importações, como a Índia ou nações do Sudeste Asiático, a combinação de energia cara e volatilidade cambial pode empurrar investimentos para opções mais baratas no curto prazo – frequentemente carvão local ou derivados pesados – com impactos duradouros na trajetória de emissões.
O recado para a transição energética
Há, porém, um segundo efeito, menos visível no noticiário diário, mas central para o debate climático: a percepção de que segurança energética e descarbonização não são agendas concorrentes – são a mesma agenda, vista de ângulos diferentes. Como sintetizou um estudo do think tank europeu Bruegel, a atual crise reforça um ponto fundamental: a exposição da Europa (e, por extensão, do mundo) a choques geopolíticos permanece enraizada na dependência estrutural de combustíveis fósseis importados, negociados em mercados voláteis.
Em outras palavras, trocar a dependência do gás russo por maior dependência de GNL dos Estados Unidos, do Catar ou de outros fornecedores não resolve o problema de fundo; apenas desloca o foco geográfico do risco. Enquanto grande parte da matriz energética continuar baseada em petróleo e gás que precisam passar por estreitos como Ormuz, Bab el‑Mandeb ou Malaca, qualquer conflito regional terá potencial de provocar novos “choques de energia” que atrasam a transição e elevam o custo político de políticas climáticas ambiciosas.
É por isso que várias análises recentes defendem que a resposta estratégica à crise de Ormuz não pode se limitar a buscar fornecedores alternativos de petróleo e GNL. Ela precisa incluir, de forma explícita, a aceleração do investimento em fontes renováveis domésticas (solar, eólica, biomassa sustentável), em redes elétricas mais resilientes e em soluções de armazenamento e flexibilidade, capazes de reduzir de maneira estrutural a demanda por combustíveis fósseis importados.
De gargalos físicos a gargalos sistêmicos
O episódio de Ormuz também expõe um deslocamento importante na geopolítica da energia: não são apenas navios de guerra e oleodutos que definem o que flui e o que para, mas sistemas inteiros – de seguros, finanças, logística, tecnologia. Um memorando de seguradora em Londres, um algoritmo de precificação de risco, uma decisão de gestora de ativos sobre exposição a rotas sensíveis podem ter hoje impacto tão grande sobre o abastecimento quanto um míssil ou um embargo formal.
Para a agenda climática, essa constatação tem duas implicações. A primeira é que a transição não será apenas um exercício de engenharia energética; será também uma disputa por reconfigurar os sistemas financeiros e regulatórios que hoje sustentam a economia fóssil – dos subsídios a combustíveis à forma como riscos climáticos e geopolíticos são precificados nos balanços. A segunda é que, se esses mesmos sistemas forem reorientados para favorecer investimentos em energia limpa, eficiência e resiliência, eles podem acelerar a transição tão rapidamente quanto hoje conseguem congelá‑la quando um estreito entra em crise.
No fim, o que o Estreito de Ormuz está sinalizando não é apenas a fragilidade de uma rota de navios, mas a fragilidade de um modelo de desenvolvimento que continua a apostar o clima do planeta e a estabilidade da economia em um punhado de gargalos fósseis. Enquanto essa aposta permanecer a regra, cada nova crise regional será também um teste de estresse para as metas do Acordo de Paris – e, até agora, os resultados desses testes não têm sido animadores.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

