Foto Crédito: Vitaly Gariev/Unsplash
O noticiário internacional nos invade com imagens e números de guerra: mortos, ataques aéreos, prédios destruídos, ocupação de territórios, retaliações em cadeia, conflito se expandindo e arrastando outras nações para o fogo cruzado. Analistas projetam o impacto no preço do petróleo, na inflação e na economia de países como o Brasil. Ficamos apreensivos, calculando como uma guerra distante pode mexer com o nosso dia a dia.
Quase nada disso, porém, mostra o que acontece com quem vive a guerra por dentro – sobretudo os adolescentes e jovens que, um dia, terão de cuidar do futuro de países hoje imersos em conflito. O que a guerra faz com a cabeça deles?
Uma carta recém-publicada na revista The Lancet Psychiatry, assinada por psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais iranianos, dá pistas incômodas sobre essa resposta. Eles relatam uma piora clara na saúde mental de adolescentes e jovens desde 2025, agravada pela guerra de 12 dias com Israel, pela repressão política e pelo fechamento prolongado de escolas e universidades. O comunicado é curto, mas aponta para um problema maior, que não é exclusivo do Oriente Médio: o que a guerra faz com a cabeça de quem ainda está formando sua identidade, seus vínculos e seu futuro. A partir do que essa carta descreve, e do que a pesquisa em saúde mental já mostrou em outros conflitos, é possível enxergar algumas formas pelas quais a guerra atravessa a mente de adolescentes e jovens.
A seguir, desenvolvo sete eixos que ajudam a entender esse impacto – a partir do caso iraniano, mas com lições que valem para qualquer cenário de conflito.
1. Corpo em “modo alerta” permanente
A guerra joga o organismo de adolescentes e jovens numa espécie de “modo sobrevivência”. Sirenes, notícias de bombardeios, imagens de destruição e boatos de novos ataques fazem com que o corpo fique em alerta constante, com aumento de batimentos cardíacos, tensão muscular, dificuldade de dormir e de se concentrar. Estudos com crianças e jovens expostos a conflitos em diferentes regiões (Ucrânia, Oriente Médio, África) mostram aumento expressivo de sintomas de ansiedade, ataques de pânico e quadros de estresse agudo logo após as fases mais intensas de violência.
No caso iraniano, a guerra de 12 dias em junho de 2025, somada a protestos, repressão e insegurança nas ruas, é descrita por profissionais como um ponto de virada, depois do qual os sinais de sofrimento psíquico se tornaram muito mais frequentes em consultórios e ambulatórios. O problema é que, ao contrário de um perigo pontual, a guerra e a instabilidade política funcionam como uma ameaça que não tem data clara para acabar – e o sistema nervoso não foi feito para viver em alerta máximo por meses ou anos.
2. Luto, perdas e culpa de quem sobrevive
Conflitos armados aumentam drasticamente a exposição de adolescentes à morte violenta: de parentes, amigos, vizinhos, colegas de escola. Revisões de pesquisas em guerras recentes mostram taxas de transtorno de estresse pós‑traumático (TEPT) entre 25% e 60% em crianças e adolescentes diretamente expostos, acompanhadas de altos índices de depressão e ansiedade.
Além do trauma dos eventos em si (bombardeios, tiros, destruição de casas), muitos jovens relatam a chamada culpa do sobrevivente: o sentimento de que “não mereciam” ter sobrevivido quando outros morreram. Esse tipo de culpa pode alimentar pensamentos suicidas, automutilação e uso de álcool ou drogas como forma de amortecer a dor. Quando o luto é coletivo – uma escola atingida, um bairro destruído – o impacto se espalha por toda a rede social do jovem, e os recursos de apoio (familiares, comunitários, escolares) costumam estar igualmente fragilizados.
3. Escola fechada e futuro em suspensão
No texto da The Lancet Psychiatry, os autores sublinham um ponto que, à primeira vista, pode parecer secundário, mas não é: o fechamento frequente de escolas e universidades no Irã, por guerra, poluição do ar, clima extremo e insegurança ligada a protestos. O ano letivo 2025–26 é descrito como um ciclo de abre‑e‑fecha, com aulas presenciais limitadas, ensino online ruim e frustração crescente – um déjà‑vu da pandemia de COVID‑19, agora somado à guerra e à repressão.
Pesquisas sobre saúde mental em contextos de conflito mostram que a interrupção prolongada da escola e da universidade não afeta apenas a aprendizagem acadêmica. A escola organiza o tempo, oferece rotina, dá espaço de convivência com pares e serve como um laboratório de construção de identidade e de projetos de vida. Quando esse eixo desaparece ou se torna imprevisível, aumenta a sensação de que o futuro está “suspenso” ou foi roubado – terreno fértil para sintomas depressivos, desesperança e desmotivação geral.
4. Trabalho infantil e adultização precoce
Os autores iranianos chamam atenção para algo que aparece menos nas análises geopolíticas: as sanções econômicas e a crise interna empurraram muitos adolescentes para fora da escola e para dentro do mercado de trabalho em áreas de baixa remuneração e pouca proteção, como serviço doméstico e construção civil.
Estudos sobre crianças e adolescentes em zonas de guerra indicam que essa “adultização” forçada – assumir responsabilidades financeiras e tarefas perigosas cedo demais – aumenta o risco de depressão, ansiedade e exposição a violência, inclusive abuso físico e sexual. A mensagem implícita que o jovem recebe é devastadora: não há espaço para adolescência; sobreviver é mais importante do que sonhar. Isso corrói, justamente, a capacidade de projetar um futuro diferente, que é um dos principais fatores de proteção em saúde mental.
5. Estigma e silêncio em torno do sofrimento
No artigo, os autores lembram que, além de todos esses fatores, há um obstáculo transversal: o estigma em relação à saúde mental e à busca de ajuda. Em grande parte do mundo – e não apenas no Irã – ainda se associa sofrimento psíquico a fraqueza, falta de fé ou “problema de caráter”. Em contextos politicamente carregados, admitir sintomas de ansiedade, depressão ou trauma pode ser visto, inclusive, como sinal de fragilidade diante do inimigo ou de deslealdade ao grupo.
Isso faz com que muitos adolescentes e jovens permaneçam em silêncio, mesmo quando já apresentam sintomas graves. Revisões recentes apontam que, em zonas de conflito, a maioria dos jovens com TEPT, depressão ou ansiedade significativa jamais recebe atendimento adequado, seja por falta de serviços, seja por medo de estigma e discriminação. O resultado é uma demanda invisível: o sofrimento não aparece nas estatísticas de serviços de saúde, mas se expressa em evasão escolar, violência, abuso de substâncias e, nos casos mais graves, suicídio.
6. Por que alguns adoecem mais e outros resistem
Um ponto importante da literatura é que não existe “resiliência mágica” individual. Pesquisas com adolescentes em conflitos recentes mostram que a capacidade de resistir ou se recuperar depende muito de fatores de proteção externos: apoio familiar, funcionamento mínimo das escolas, presença de adultos confiáveis na comunidade, acesso a serviços de saúde mental, espaços de convivência e atividades culturais.
Em contextos em que há programas comunitários de apoio psicossocial, centros juvenis, atividades em grupo conduzidas por profissionais ou voluntários treinados e redes de apoio bem articuladas, os danos da guerra à saúde mental tendem a ser menores ou mais reversíveis. Já onde esses elementos faltam – como no cenário descrito no Irã, com escolas fechadas, repressão política, economia estrangulada e pouca abertura para ONGs e organismos internacionais – a tendência é de maior gravidade e cronicidade dos quadros.
7. O que se sabe que ajuda
A carta iraniana não se limita a descrever o problema; ela lista caminhos possíveis. Os autores defendem um programa abrangente de promoção de saúde mental para jovens, baseado em três eixos: reforço da atenção primária, participação de universidades e abertura para ONGs e agências internacionais como UNICEF.
Na prática, isso significa: treinar equipes de atenção básica para identificar sofrimento psíquico, oferecer intervenções breves, encaminhar casos graves e coordenar redes de apoio; formar voluntários em saúde mental especialmente em áreas mais atingidas; melhorar serviços de aconselhamento nas escolas e aproximá‑los das famílias; e criar espaço institucional para que organizações da sociedade civil e agências internacionais possam atuar sem entraves excessivos. Experiências em outros cenários de guerra mostram que intervenções comunitárias em grupo, programas baseados em escola e serviços de apoio psicossocial de baixo custo conseguem reduzir sintomas de TEPT, depressão e ansiedade em crianças e adolescentes, especialmente quando combinados com ações de proteção social (alimentação, renda, moradia).
Em paralelo, os autores pedem mais pesquisa: é preciso entender melhor como a combinação de guerra, colapso educacional e crise socioeconômica afeta a mente de adolescentes e jovens e testar intervenções adaptadas a contextos de alta instabilidade.
Quando a The Lancet Psychiatry publica um alerta sobre jovens iranianos, não está apenas falando de um país específico; está apontando para um padrão que se repete sempre que uma geração cresce cercada por bombas, medo e incerteza. Guerras acabam com vidas e com infraestrutura, mas também corroem algo menos visível e igualmente decisivo: a possibilidade de imaginar o amanhã. E, sem essa capacidade, não há saúde mental que se sustente.
Mesmo vistos de longe, esses sinais servem de alerta também para países como o nosso, onde jovens expostos à violência cotidiana carregam marcas semelhantes – ainda que as bombas não caiam do céu.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

