Saneamento básico na cidade de Maceió, Alagoas. Foto: Carolina Gonçalves/Agência Brasil - EBC
Franca, município paulista, lidera ranking; Santarém, no Pará, tem pior índice de coleta de esgoto do país, com apenas 3,28% da população atendida; Rio Branco, capital do Acre, investe menos de R$ 9 por habitante por ano
Há um abismo sanitário entre regiões e municípios do Brasil quando o assunto é saneamento básico. Enquanto cidades do Sul e Sudeste já alcançam índices de universalização, localidades das regiões Norte e Nordeste amargam posições vergonhosas, com menos de 10% da população tendo acesso à coleta de esgoto e investimentos per capita irrisórios. Os dados são da 18ª edição do Ranking do Saneamento, produzido pelo Instituto Trata Brasil (ITB) em parceria com a GO Associados, com base nos indicadores mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), ano-base 2024, publicados pelo Ministério das Cidades.
O levantamento revela um cenário preocupante: 51 dos 100 municípios mais populosos do país investem menos de R$ 100 por habitante por ano – menos da metade dos R$ 225 por habitante estimados pelo PLANSAB (Plano Nacional de Saneamento Básico) como necessários para a universalização dos serviços até 2033.
Os campeões: universalização plena
Pela primeira vez na série histórica do ranking, os quatro primeiros colocados alcançaram pontuação máxima. São eles:
| Posição | Município | UF | Atendimento água | Atendimento esgoto | Tratamento esgoto |
|---|---|---|---|---|---|
| 1º | Franca | SP | 99,46% | 98,91% | 95,98% |
| 2º | São José do Rio Preto | SP | 99,39% | 97,77% | 90,44% |
| 3º | Campinas | SP | 99,80% | 96,61% | 85,77% |
| 4º | Santos | SP | 99,33% | 98,46% | 81,91% |
Essas quatro cidades não apenas apresentam níveis de atendimento considerados universalizados conforme o Marco Legal do Saneamento Básico, como também registram baixos índices de perdas na distribuição – compatíveis com os parâmetros da Portaria nº 490/2021 (limite de 25% de perdas ou 216 litros por ligação por dia).
Dos 20 municípios mais bem colocados, nove são do estado de São Paulo, seis do Paraná, dois de Goiás, dois de Minas Gerais e um do Rio de Janeiro.
Os piores: um retrato do descaso
Na outra ponta, a situação é dramática. Os cinco piores municípios do levantamento de 2026 são:
| Posição | Município | UF | Atendimento água | Atendimento esgoto | Tratamento esgoto |
|---|---|---|---|---|---|
| 100º | Santarém | PA | 44,93% | 3,28% | 9,26% |
| 99º | Porto Velho | RO | 30,74% | 8,69% | 19,72% |
| 98º | Rio Branco | AC | 46,74% | 25,07% | 44,53% |
| 97º | Várzea Grande | MT | 46,74% | 25,07% | 2,64% |
| 96º | Parauapebas | PA | 96,62% | 20,71% | 2,64% |
O dado mais chocante é Santarém (PA): apenas 3,28% da população tem acesso à coleta de esgoto. Em Porto Velho (RO), a cobertura de água potável é de apenas 30,74% — o pior índice entre os 100 maiores municípios.
Dos 20 piores municípios, quatro estão no Rio de Janeiro, quatro no Pará e três em Pernambuco. Sete são capitais de seus estados: Maceió (AL), Manaus (AM), São Luís (MA), Belém (PA), Rio Branco (AC), Macapá (AP) e Porto Velho (RO).
O abismo: 20 melhores x 20 piores
A desigualdade fica evidente quando se comparam os dois grupos:
| Indicador | 20 Melhores | 20 Piores | Diferença |
|---|---|---|---|
| Atendimento água | 99,05% | 83,01% | 16,05 p.p. |
| Atendimento esgoto | 98,08% | 28,06% | 70,02 p.p. |
| Tratamento esgoto | 77,97% | 28,36% | 49,61 p.p. |
| Perdas na distribuição | 24,28% | 44,78% | -20,50 p.p. |
| Investimento médio anual/hab | R$ 176,17 | R$ 77,58 | R$ 98,59 |
Enquanto os melhores municípios já praticamente universalizaram o acesso à água e ao esgoto, os piores ainda engatinham — e investem 66% abaixo do necessário para alcançar as metas legais.
Perdas: água jogada fora
Outro indicador crítico é o Índice de Perdas na Distribuição (IPD) – a água que é produzida, mas nunca chega aos consumidores por vazamentos, ligações clandestinas ou erros de medição.
A média dos 100 maiores municípios foi de 41,51% em 2024 – acima da média nacional de 39,5% e muito acima do limite de 25% estabelecido por portaria.
Os piores desempenhos:
- Nova Iguaçu (RJ): 96,09% de perda – praticamente toda a água produzida é desperdiçada
- Parauapebas (PA): 70,68%
- Belo Horizonte (MG): 68,29%
- Maceió (AL): 64,05%
Na ponta oposta, Suzano (SP) tem apenas 1,27% de perda, seguida por Santos (SP) com 5,35% e Goiânia (GO) com 11,45%.
Investimento per capita: quem investe e quem não investe
O investimento anual por habitante é o termômetro mais direto da prioridade dada ao saneamento pelos gestores públicos. O PLANSAB estabelece R$ 225/habitante/ano como necessário para universalização até 2033.
Maiores investidores (média 2020-2024):
- Praia Grande (SP): R$ 572,87/hab/ano
- Aparecida de Goiânia (GO): R$ 387,87
- Cuiabá (MT): R$ 349,98
- Vila Velha (ES): R$ 326,33
- Nova Iguaçu (RJ): R$ 323,40
Menores investidores:
- Rio Branco (AC): R$ 8,99/hab/ano — menos de R$ 9 por habitante
- Petrolina (PE): R$ 15,42
- São Luís (MA): R$ 18,17
- Ananindeua (PA): R$ 22,28
- São José (SC): R$ 25,49
A diferença é brutal: Praia Grande investe 63 vezes mais por habitante do que Rio Branco.
Capitais: heterogeneidade extrema
Entre as 27 capitais brasileiras, apenas Cuiabá (MT) conseguiu investir acima do patamar de R$ 225 por habitante no período analisado (R$ 349,98). A média das capitais foi de R$ 138,27 – pouco mais da metade do necessário.
No atendimento de esgoto, apenas sete capitais superam 90%: Goiânia, São Paulo, Curitiba, Campo Grande, Brasília, Boa Vista e Belo Horizonte. Na outra ponta, Macapá (AP) atende 14,94% da população com coleta de esgoto, e Porto Velho (RO), apenas 8,69%.
No tratamento de esgoto, o quadro é ainda pior: São Luís (MA) trata apenas 15,78% do esgoto coletado; Teresina (PI), 18,74%; e Porto Velho (RO), 19,72%.
O que dizem os especialistas
Luana Siewert Pretto, Presidente Executiva do Instituto Trata Brasil:
“Os resultados desta edição mostram que, apesar dos avanços registrados em diversos municípios no acesso à água potável e à coleta de esgoto, o tratamento do esgoto ainda é o aspecto mais distante da universalização no país e segue como o principal desafio a ser enfrentado. Em um ano eleitoral, é fundamental que o saneamento ganhe centralidade no debate público e integre de forma prioritária as agendas dos futuros governantes em todo o país.”
Gesner Oliveira, Sócio Executivo da GO Associados:
“O Ranking chega à sua edição de 2026 não apenas com motivos de celebração, mas também de preocupação. A melhora, ainda que lenta, dos indicadores médios no país muitas vezes mascara a profunda heterogeneidade que caracteriza o setor no Brasil. Municípios que já apresentam bons indicadores seguem investindo na modernização, enquanto outros permanecem praticamente estagnados. É premente que a sociedade civil acompanhe de perto a atuação dos gestores públicos e cobre avanços concretos, especialmente em um ano eleitoral.”
Conclusão
O Brasil ainda tem mais de 30 milhões de pessoas sem acesso à água potável e cerca de 90 milhões (43,3% da população) sem coleta de esgoto. As consequências vão além da saúde: afetam a produtividade no trabalho, a desvalorização imobiliária, o turismo e, sobretudo, a dignidade e a qualidade de vida da população.
O prazo para universalização, estabelecido pelo Marco Legal do Saneamento Básico, é 2033. Faltam sete anos. Com o atual ritmo de investimentos – especialmente nos municípios com piores indicadores – a meta parece cada vez mais distante.

