Imagem ilustrativa, criada por Inteligência Artificial.
Coluna “Reparou Nisso?” — Agência PáginaUm
A cena
Uma mulher de uns 25 anos se acomoda no assento preferencial de um ônibus de linha. Nesse momento o ônibus está praticamente vazio – não há nenhum idoso por perto pra ocupar o lugar. Alguns pontos adiante, sobem três idosos ao mesmo tempo: duas mulheres e um homem. Uma das idosas senta na vaga ao lado da moça, no mesmo banco preferencial. A segunda ainda está de pé, procurando onde sentar. É essa segunda idosa que faz a moça reagir: de olhos bem abertos, ela pega a bolsa que estava no colo e começa a se levantar – o gesto de quem vai ceder o lugar. Mas, antes que a moça termine de se levantar, a segunda idosa acha um lugar sozinha: senta no assento reservado a quem acompanha pessoa em cadeira de rodas. O idoso, o único homem do trio, continua em pé.
A moça, então, para o próprio movimento. Volta a se sentar do jeito que estava antes – e fecha os olhos, como se estivesse dormindo. Segue viagem assim, com o idoso parado bem na frente dela, sem cadeira, e com o mesmo direito ao lugar que ela ocupa.
Ninguém decidiu, em voz alta, deixar um idoso em pé. Mas foi isso que aconteceu – e a moça ainda “desligou” de propósito, fechando os olhos, pra não precisar ver o resultado. E tem outro detalhe que vale reparar: na vez em que ela quase cedeu o lugar, foi pensando numa mulher. Pro homem, ela nem chegou a esboçar o gesto.
O conceito
Por que ela só pensou na mulher, e nunca no homem?
Isso não costuma ser uma escolha pensada – é algo mais automático. Pesquisas mostram que, sem perceber, a gente costuma achar mais natural ajudar uma mulher do que um homem em situações do dia a dia, mesmo quando os dois precisam exatamente da mesma coisa. É como se a gente aprendesse, desde cedo, que mulher “precisa” de ajuda e homem “dá conta sozinho” – mesmo que isso não seja verdade, e mesmo que a pessoa que pensa assim seja, ela mesma, uma mulher. Ninguém decide isso conscientemente. É um hábito mental que já vem pronto.
Por que ela fechou os olhos e fingiu dormir?
Esse detalhe pode parecer exclusivo dela, mas não é – pesquisadores que estudam esse tipo de situação em transporte público já catalogaram esse comportamento como uma estratégia comum, usada por muita gente, em muitos lugares diferentes. Tem até nome: “fingir estar alheio” – olhar pela janela, mexer no celular, colocar fone de ouvido ou fechar os olhos como se estivesse dormindo. A função é sempre a mesma: fazer de conta que não está “realmente ali” naquela situação, pra não correr o risco de ser vista como alguém que percebeu e não fez nada. Curiosamente, fingir estar dormindo funciona melhor que simplesmente ignorar, porque tira até a possibilidade de acusação – quem está “dormindo” não pode ser cobrado por não ter visto.
Por que ela não sentiu que devia nada, mesmo tendo deixado o idoso em pé?
Porque, na cabeça dela, ela já tinha “feito a parte boa”: começou o gesto de ceder o lugar pra idosa. Pesquisas mostram que só começar uma atitude correta – mesmo sem terminar – já é suficiente pra alguém se sentir em paz consigo mesmo, como se tivesse cumprido a obrigação. É como pagar uma dívida com um cheque que nunca vai ser descontado: a pessoa se sente quites mesmo assim.
A pesquisa
A ideia de que ajudamos mulheres com mais facilidade do que homens vem de uma pesquisa de 1986, feita por Alice Eagly e Maureen Crowley, que juntou 172 estudos diferentes sobre ajuda entre desconhecidos. O resultado foi bem consistente: de modo geral, mulheres recebem mais ajuda espontânea de estranhos do que homens. As pesquisadoras Peter Glick e Susan Fiske, num estudo de 1996, explicam de onde vem essa crença: a ideia, quase sempre inconsciente, de que mulher precisa de proteção “por padrão” – uma ideia que homens e mulheres carregam igualmente, não só os homens.
O comportamento de fingir dormir foi documentado por Anton Smolkin, pesquisador russo que estudou o assunto observando passageiros de ônibus e metrô entre 2009 e 2015. Ele identificou duas estratégias comuns pra não ceder o lugar sem parecer mal-educado: fingir estar ocupado com algo importante, ou fingir estar “alheio” à situação – e, dentro dessa segunda categoria, fechar os olhos e fingir sono aparece como um dos métodos mais usados, ao lado de olhar pela janela ou mexer no celular.
Já a ideia de que “começar” uma boa ação já deixa a gente com a consciência tranquila vem de um estudo de 2001, de Benoît Monin (hoje em Stanford) e Dale Miller (então em Princeton). Eles descobriram que, depois de fazer algo que prova que somos “boas pessoas”, ficamos mais à vontade pra agir de um jeito questionável logo em seguida – porque já sentimos que temos esse crédito garantido.
Vale um adendo: a pesquisa sobre ajuda e gênero assim como a pesquisa sobre o “crédito moral” têm bastante base de experimento, repetida várias vezes ao longo de décadas. Já o estudo sobre fingir dormir é baseado em observação de campo – feito assistindo ao comportamento real das pessoas, não em laboratório -, o que também é confiável, mas de um jeito diferente: mostra que o padrão existe e se repete, mais do que explica exatamente por que ele acontece.
O outro lado
Vale ser justo com a moça da cena: o fato de ela ter usado uma estratégia tão comum, catalogada por pesquisadores em vários países diferentes, mostra que não é um comportamento raro nem exclusivamente calculado por ela. É quase um “script” que a gente aprende sem perceber – e que, uma vez aprendido, sai quase automático, sem exigir que a pessoa pense conscientemente “vou fingir que estou dormindo pra não ter que ceder o lugar”. Isso não apaga o resultado (o idoso ficou em pé), mas ajuda a entender que não foi um plano frio, pensado com antecedência.
O que isso diz sobre nós, em sociedade
As placas de “assento preferencial” dizem “idosos, gestantes, pessoas com deficiência” – uma lista neutra, sem gênero. Mas quem realmente pode ceder o lugar, na prática, segue um filtro bem menos neutro do que a placa sugere. E, quando esse filtro deixa alguém de fora, a sociedade já tem um repertório pronto de pequenos gestos – fechar os olhos, olhar pra tela do celular – que deixam a cena parecer “sem culpados”, mesmo quando um idoso continua em pé.
Para refletir
Você consegue lembrar de uma vez em que ofereceu ajuda com mais naturalidade a uma pessoa do que a outra, na mesma situação, sem nunca ter pensado nisso como escolha? E, alguma vez, você já usou um gesto parecido com “fechar os olhos” pra escapar de uma situação incômoda, sem crédito nem prejuízo aparente pra ninguém – só pra não precisar decidir?
De onde veio isso:
- Eagly, A. H. & Crowley, M. (1986), “Gender and helping behavior: A meta-analytic review of the social psychological literature”, Psychological Bulletin — sobre mulheres receberem mais ajuda espontânea de estranhos do que homens.
- Glick, P. & Fiske, S. T. (1996), “The Ambivalent Sexism Inventory: Differentiating hostile and benevolent sexism”, Journal of Personality and Social Psychology — sobre a crença de que mulheres precisam de proteção por padrão.
- Smolkin, A. A. (2017), “Analysis of the situation (not) to give up one’s seat to an elderly person on public transportation”, Innovation in Aging — estudo de observação sobre estratégias usadas pra não ceder o lugar, incluindo fingir sono.
- Monin, B. & Miller, D. T. (2001), “Moral credentials and the expression of prejudice”, Journal of Personality and Social Psychology — estudo que deu origem à ideia do “crédito moral”.
E você, já reparou nisso?
Essa coluna existe porque leitores mandam cenas reais – do tipo que a gente vive, testemunha ou até protagoniza sem perceber na hora. Teve algum momento parecido com esse, de gentileza que começou e não terminou, que ficou martelando na sua cabeça depois?
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IMPORTANTE – Esta coluna traz observações de comportamento do dia a dia, com base em pesquisa científica, pra te fazer pensar sobre seus próprios hábitos e relações. Não é aconselhamento psicológico nem diagnóstico de ninguém. SAIBA MAIS
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

