Foto editada com a ajuda de Inteligência Artificial.
Coluna “Reparou Nisso?” — Agência PáginaUm
A cena
Uma mulher, com mais de 70 anos, vai passar por uma cirurgia simples, dessas de entrar de manhã e voltar pra casa no mesmo dia. Com ela, no hospital, dois vínculos importantes: o companheiro, que mora com ela há quase duas décadas e vive ao seu lado todos os dias, e a filha, que acompanhava tudo da cidade onde atua como psicóloga, e que apareceu sem avisar dias antes do procedimento, preocupada com o estado de saúde da mãe.
No hospital, antes de tudo começar, os três – mãe, filha e companheiro – combinam a ordem das visitas: primeiro a filha fica com ela até o fim da cirurgia; depois, é a vez do companheiro, até a alta. Essa ordem não fica só na conversa – fica registrada, para que os funcionários do hospital sigam o estabelecido.
A filha acompanha a mãe do início ao fim do dia, com uma única exceção: os cerca de trinta minutos da operação em si, quando ninguém que não seja da equipe médica pode ficar dentro do centro cirúrgico. No Brasil, a lei garante à mulher o direito a um acompanhante durante quase todo o atendimento de saúde, mas, dentro da sala de cirurgia, só entra profissional de saúde.
Assim que a mãe começa a se refazer da anestesia, ainda antes de o enfermeiro sair para chamar o companheiro, a filha se antecipa e avisa seu padrasto de que ela vai continuar ao lado da mãe: alega que ele não irá porque está “muito ansioso”. Ele não aceita quieto – lembra, na hora, que não era esse o combinado e diz que não está ansioso, que a enteada não convive com ele no dia a dia, não o conhece, e está fazendo uma leitura psicológica dele só pra justificar o que ela deseja.
O tempo passa e o mesmo enfermeiro, em obediência ao que estava registrado, consulta a paciente, que confirma querer que o companheiro estivesse ao lado dela. Então, vai chamar o homem pra ver a companheira – e a filha não aceita. O padrasto entra na disputa direto com o enfermeiro: reforça que é a própria paciente quem está chamando por ele, e que esse era o combinado entre os três. Pra dar um fim à discussão ali mesmo, o enfermeiro propõe uma saída: a filha vai antes, e ele – o enfermeiro – volta em seguida para buscar o companheiro. Essa promessa só é cumprida quando a filha sai do quarto pra comer alguma coisa.
Não foi silêncio. O companheiro discordou duas vezes, com todas as letras – primeiro pra enteada, depois para o próprio enfermeiro, citando o pedido da companheira e o combinado registrado. Mesmo assim, esperou horas no corredor do hospital. Vale entender os três mecanismos em jogo aqui:
– por que a exclusão do padrasto aconteceu;
– por que o enfermeiro cedeu para a filha, que resistia mais; e
– por que a promessa que resolveu o impasse demorou para ser cumprida.
O conceito
O primeiro mecanismo tem nome na pesquisa sobre famílias e cuidado: gatekeeping. Em português, algo como “controle do portão” ou, resumindo bem o que acontece na prática, “ocupação do portão”: uma pessoa da família – às vezes sem perceber o efeito do que está fazendo – passa a controlar o acesso de outra pessoa a alguém que precisa de cuidado. O que diferencia isso de um simples desentendimento é a justificativa embutida: “ele está ansioso demais” não é uma observação neutra, é um argumento que pretende transformar a exclusão do padrasto em cuidado por ele, não contra ele.
O segundo mecanismo explica a escolha feita pelo enfermeiro no momento da disputa. De um lado, a filha recusando que o padrasto vá ver a mãe; do outro, o padrasto reforçando o pedido da própria companheira e o acordo registrado. Pra encerrar o atrito ali mesmo, o enfermeiro cedeu em benefício de quem estava resistindo mais na hora: deixou a filha ir, prometendo buscar o padrasto depois. Isso também tem nome: é o que a pesquisa em resolução de conflitos chama de estilo acomodador, um dos cinco modos de lidar com conflito descritos por Kenneth Thomas e Ralph Kilmann. É o padrão de quem, numa posição de mediar, prioriza acabar com o atrito imediato cedendo em favor de quem resiste mais ali na frente em vez de reforçar quem, pelas regras já combinadas, tinha razão.
O terceiro mecanismo explica por que a promessa que resolveu esse impasse levou certo tempo pra ser cumprida. “Eu já volto para te buscar” é o que a pesquisa em psicologia chama de intenção vaga: sem hora marcada, sem gatilho definido, sem ninguém responsável por cobrar. Esse tipo de promessa é sistematicamente mais fácil de esquecer ou empurrar pra depois do que um combinado com hora e responsável – porque a própria forma da promessa não cria pressão nenhuma pra ser lembrada.
A pesquisa
Uma revisão publicada em 2026 pela American Board of Professional Psychology reúne estudos sobre gatekeeping em famílias que cuidam de parentes idosos, com atenção especial a famílias reconstituídas – exatamente o caso da cena, com um padrasto e uma filha do primeiro casamento dividindo o espaço de cuidado. A revisão descreve como esse tipo de controle de acesso tende a aparecer mais nesse tipo de configuração familiar, e como frequentemente vem disfarçado de preocupação legítima com o bem-estar de alguém, no caso o padrasto.
Sobre o segundo mecanismo, a referência é o Thomas-Kilmann Conflict Mode Instrument, criado em 1974 pelos pesquisadores Kenneth Thomas e Ralph Kilmann e ainda hoje um dos modelos mais usados no mundo pra estudar como as pessoas lidam com conflito. Dos cinco estilos que descrevem, o acomodador é definido como pouco assertivo e muito cooperativo: quem o usa abre mão da própria posição – ou da posição que deveria estar defendendo, no caso de ser um mediador – pra evitar o desconforto imediato de manter um confronto.
Sobre o terceiro – por que a promessa do enfermeiro demorou para ser cumprida -, a referência é o psicólogo Peter Gollwitzer, da Universidade de Nova York, que desde 1999 estuda o que chamou de “intenções de implementação”: planos que especificam quando, onde e como uma ação vai acontecer (“se X, então Y”), em vez de apenas a intenção genérica de fazer algo. Uma meta-análise reunindo mais de 100 estudos, e depois outra com mais de 600, mostrou que promessas ou planos formulados dessa forma específica são cumpridos de duas a três vezes mais que intenções vagas.
Vale um adendo: a pesquisa sobre gatekeeping é majoritariamente baseada em correlação, não em experimentos que provem causa e efeito. Já as pesquisas sobre estilos de conflito e sobre intenções de implementação estão entre as mais replicadas da psicologia aplicada, com efeitos consistentes em muitos contextos diferentes – inclusive fora de ambientes de saúde.
O outro lado
Vale separar as pessoas dessa cena, porque ninguém agiu por maldade.
A idade da mãe dá um motivo real, não só emocional, para a preocupação da filha: risco de complicação em cirurgia sobe de fato depois dos 70 anos. E o afastamento dela durante o procedimento não foi escolha – foi a lei que determinou isso. O que fica mais difícil de explicar é o momento em que ela, duas vezes seguidas, se recusa a aceitar o combinado – mesmo depois de ouvir do próprio padrasto, diretamente, que não era esse o acordo.
Já o enfermeiro, que cedeu para a filha na hora, provavelmente só queria resolver o impasse rápido, num ambiente com dezenas de outras urgências acontecendo ao mesmo tempo. Ceder pra quem está resistindo mais, ali na frente, costuma parecer – na hora – o caminho mais rápido pra “resolver” um conflito. O problema é que rápido nem sempre é justo.
O que isso diz sobre nós, em sociedade
Famílias reconstituídas cuidando de pais idosos são cada vez mais comuns – e trazem uma pergunta que a geração anterior raramente precisava responder: quem tem “prioridade” ao lado de alguém doente, o parentesco de sangue ou os anos de convivência diária? A lei brasileira protege bem um lado dessa equação – o direito de a paciente ter alguém de confiança por perto. Mas não existe protocolo parecido pra quando são várias pessoas próximas disputando a mesma vaga, e quem acaba mediando esse tipo de disputa raramente foi treinado pra isso.
E a cena mostra algo que vale reter: nomear o problema na hora, com clareza, duas vezes, pra duas pessoas diferentes, não foi suficiente pra resolvê-lo. Isso diz algo sobre como o acesso, em ambientes institucionais como um hospital, muitas vezes é controlado por quem consegue formalizar um pedido no momento certo e por quem está mediando o conflito – não por quem tem razão pelas regras já combinadas.
Trabalha com famílias em crise? Isto é para você
Profissionais de saúde lidam com esse tipo de situação o tempo todo, mesmo sem nomear. Alguns pontos que a cena, junto com a pesquisa, ajudam a destacar:
- Registrar o combinado por escrito, sempre que possível. Foi o registro no prontuário, somado ao pedido da própria paciente, que fez a equipe agir corretamente da primeira vez – mesmo que isso não tenha sido suficiente sozinho.
- Reconhecer o próprio impulso de “resolver rápido” cedendo pra quem resiste mais. Um mediador sob pressão de tempo tende ao estilo acomodador quase sem perceber. Vale perguntar, na hora: essa decisão está seguindo o combinado e o pedido do paciente, ou só está encerrando a discussão mais rápido?
- Transformar promessas vagas em compromissos específicos. “Eu te chamo daqui a pouco” tende a se perder na correria do plantão. “Eu volto aqui às 10h30, ou assim que a doutora liberar” tem muito mais chance de ser cumprido – e dá à pessoa que está esperando algo concreto pra cobrar.
- Ficar atento a famílias reconstituídas cuidando de idosos, onde a disputa de acesso entre filhos e padrastos/madrastas é um padrão documentado pela pesquisa – sem julgar quem “tem mais direito”, mas perguntando direto ao paciente o que ele quer.
Para refletir
Você consegue lembrar de um momento em que discordou de algo na hora, com clareza, mais de uma vez – e mesmo assim ficou esperando uma solução que demorou muito mais do que deveria? O que teria mudado se, naquele momento, a promessa que resolveria a situação tivesse hora marcada?
De onde veio isso:
- Lei federal nº 14.737/2023 – garante à mulher o direito a acompanhante durante consultas, exames e procedimentos de saúde no Brasil, com restrição a profissionais de saúde dentro de centros cirúrgicos e UTIs.
- American Board of Professional Psychology (2026) – revisão sobre gatekeeping e bem-estar de famílias idosas, com foco em famílias reconstituídas e disputa de acesso entre filhos e padrastos/madrastas no cuidado.
- Thomas, K. & Kilmann, R. (1974) – criadores do Thomas-Kilmann Conflict Mode Instrument, modelo de referência sobre os cinco estilos de lidar com conflito, incluindo o estilo acomodador.
- Gollwitzer, P. M. (1999), “Implementation intentions: Strong effects of simple plans“, American Psychologist – pesquisa sobre por que planos específicos são cumpridos com muito mais frequência do que intenções vagas.
E você, já reparou nisso?
Essa coluna existe porque leitores mandam cenas reais – do tipo que a gente vive, testemunha ou até protagoniza sem perceber na hora. Teve algum momento que ficou martelando na sua cabeça depois e que você deseja compartilhar ou entender?
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IMPORTANTE – Esta coluna traz observações de comportamento do dia a dia, com base em pesquisa científica, pra te fazer pensar sobre seus próprios hábitos e relações. Não é aconselhamento psicológico nem diagnóstico de ninguém. SAIBA MAIS
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

