Cinquenta anos depois do acidente que matou Juscelino Kubitschek, o homem injustamente apontado como responsável morreu sem o pedido de desculpas que o Estado brasileiro preparava para lhe entregar
Era o “lusco fusco”, como ele mesmo descreveria anos depois — aquela hora traiçoeira em que a luz do dia ainda não foi embora, mas a noite já começa a roubar a nitidez das coisas. Na Via Dutra, naquele 22 de agosto de 1976, Josias Nunes de Oliveira conduzia o ônibus 3148 da Viação Cometa em direção ao Rio de Janeiro, com toda a sua atenção voltada para a estrada. Tinha pouco mais de trinta anos, era motorista profissional, sabia o que fazia. Sabia, também, que aquele trecho da Dutra — por volta do quilômetro 165 — guardava um defeito grave na pista, uma ondulação que tendia a jogar os veículos em direção à faixa contrária quando ultrapassavam 70 km/h. Ele conhecia o perigo. Ia com cuidado.
De repente, o Opala. O carro passou pelo seu ônibus pelo lado direito – ultrapassagem incomum, sinal de que algo estava errado – e em seguida se desviou abruptamente, “como se o seu motorista tivesse perdido os sentidos”, contaria Josias. O automóvel, um modelo 1970 com pneus meio carecas, atingiu cerca de 100 quilômetros por hora, cruzou o canteiro central e foi direto para a pista contrária. Lá vinha uma carreta, placa ZH-0398, dirigida por Ladislau Borges, a 80 km/h. O choque foi inevitável e brutal.
Josias parou o ônibus. Foi um dos primeiros a chegar. Havia uma carreta destruída e um Opala esmigalhado. Enquanto o socorro tentava retirar Ladislau da cabine, onde ficara completamente prensado com o peso do corpo sobre o braço direito e o motor no ponto crítico de inflamar o óleo que se espalhava no chão, Josias foi até o automóvel. Ali dentro havia dois homens que ele não reconheceu. Uma pasta se abriu no impacto e documentos pessoais escorregaram para o chão – era assim, por papéis espalhados dentro de uma pasta 007, que Josias descobriria que quem estava naquele carro era Juscelino Kubitschek, ex-presidente da República, um dos políticos mais amados pela população.
Depois, voltou ao seu ônibus. Buzinou para chamar os passageiros de volta. Deu a partida. Foi embora. Era sua obrigação – a Cometa confirmaria que não havia qualquer registro de imprudência contra o motorista, e que o veículo havia parado para prestar socorro como manda a lei. Josias chegou ao Rio de Janeiro e voltou ao serviço às onze e meia da manhã do dia seguinte. Jornais da época informavam que foi também na manhã de 23 de agosto, ao erguer a cabeça do travesseiro, que Ernesto Geisel, o general à frente da junta militar que silenciava e oprimia o país, ficou sabendo da tragédia que fez sangrar milhões de brasileiros. Seu sono tinha sido tranquilo.
A primeira morte
Havia duas hipóteses para a tragédia: o motorista do Opala, Geraldo Ribeiro, havia sofrido um mal súbito ou o ônibus conduzido por Josias teria batido na traseira do carro, desgovernando-o. O próprio chefe de tráfego da Cometa, Agripino Jorge Braga, negava enfaticamente essa segunda versão. Os laudos periciais logo confirmaram: era impossível que o choque entre o ônibus e o Opala tivesse acontecido. Dez testemunhas declararam não ter percebido nada de anormal no momento do acidente. Os passageiros do próprio ônibus de Josias não haviam sentido batida alguma.
Nada disso importou. O regime abriu o processo 2629, que correu em Resende (Rio de Janeiro), e apontou Josias Nunes de Oliveira como o causador da morte do ex-presidente. A lógica era perversa na sua simplicidade: era preciso um culpado que não fosse o Estado. E Josias estava lá, na hora certa, no lugar errado.
Por mais de um ano o processo se arrastou. A absolvição em primeira instância veio em 19 de agosto de 1977, quatro dias antes do primeiro aniversário das mortes trágicas. O juiz Gilson Vitral Vitorino, da comarca de Resende, baseou a sentença nas dúvidas que o processo 2629 ainda continha, mesmo após as alegações finais de todas as partes. E fez questão de registrar, com todas as letras, que a grandeza da vítima não poderia pesar sobre sua decisão: “O fato de ter sido uma das vítimas personalidade de indiscutível projeção na história político-social de nosso País, por que não dizermos do cenário mundial, não significa que tenhamos que aceitar provas falhas e inseguras para incriminar um homem presumivelmente inocente, com o único intuito de reparar um mal com outro.”
O promotor José Diniz Pinto Bravo, não aceitou a decisão e anunciou que iria recorrer. Josias reagiu com a serenidade de quem sempre soube que não havia feito nada: “Eles podem apelar à vontade, que não vou perder, como não perdi nenhuma das minhas noites de sono por causa do acidente. O doloroso foi estar sentado nessa cadeira de réu, tendo certeza de que não tinha feito nada, absolutamente nada.”
E apelaram. A sentença definitiva veio do II Tribunal de Alçada do Estado do Rio de Janeiro em 1978. A A inocência de Josias estava confirmada.
A decisão foi abafada. A pecha de culpado, não. Josias saiu do banco dos réus inocentado pela Justiça e condenado pelo Brasil. Por décadas, onde quer que fosse reconhecido, ouvia a mesma frase ou via o mesmo gesto – o dedo apontado, as palavras ditas em voz alta ou em murmúrio: “Foi ele que matou o Juscelino”. Em depoimento à Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo, em 1º de outubro de 2013, Josias resumiu em poucas palavras o que havia sobrado: “A minha vida caiu bastante. Moro em um asilo. O mundo inteiro chegou a apontar o dedo para mim na rua.”
A primeira morte de Josias Nunes de Oliveira aconteceu assim – lenta, pública, repetida. Uma morte que durou décadas.
Cinquenta anos para ouvir a verdade
O tempo passou. comissões em busca da verdade vieram e foram. As investigações se acumularam. E só em 29 de maio de 2026 – cinco décadas depois da noite na Dutra – a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, concluiu oficialmente o que peritos, testemunhas e o próprio Josias já diziam havia tanto tempo: Juscelino Kubitschek e Geraldo Ribeiro não morreram num acidente banal. Morreram em consequência de uma ação do Estado ditatorial. E o motorista do ônibus da Cometa não tinha culpa nenhuma.
A comissão anunciou que prepararia um pedido público de desculpas a Josias Nunes de Oliveira — o reconhecimento formal, por parte do Estado brasileiro, de que aquele homem havia carregado por quase cinquenta anos uma culpa que pertencia a outros.
A segunda morte
A cerimônia, no entanto, jamais acontecerá. Em 16 de junho de 2026, Josias morreu no interior de São Paulo, aos 82 anos. Dezessete dias depois de o próprio Estado reconhecer sua inocência, ele se foi sem ouvir o pedido de perdão que estava sendo preparado em seu nome.
A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos lamentou sua morte em nota, chamando sua trajetória de “uma das maiores e mais cruéis injustiças da história recente do país” e garantindo que a retratação formal seria entregue à família. “A ausência física do senhor Josias não encerra o dever histórico de reparação”, disse a comissão. E comprometeu-se a que a história do Brasil registrasse seu nome como o de um homem íntegro, vítima do silenciamento do regime e das falsas versões arquitetadas para encobrir os crimes da ditadura.
Há algo de insuportavelmente simbólico nesses dezessete dias. Como se o Brasil, tantas vezes acusado de lentidão em pedir desculpas pelos próprios crimes, tivesse chegado, mais uma vez, um instante atrasado demais ao encontro com a verdade.
Neste 22 de agosto, quando o país relembra os cinquenta anos da morte de Juscelino Kubitschek, é justo lembrar também do homem que parou o ônibus na pista da Dutra, desceu para tentar salvar quem estava naquele Opala destruído, e foi o último a ver o ex-presidente fechar os olhos. Juscelino morreu uma vez, naquela noite na rodovia. Josias morreu duas vezes: primeiro na acusação que o seguiu por meio século, depois no corpo, dezessete dias antes de o Brasil ter a coragem de, finalmente, concluir e anunciar que ele nunca devia ter sido culpado de nada.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

