Cimi apresenta relatório sobre a violência contra os povos indígenas em território brasileiro. Reprodução YouTube.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) divulgou nesta semana o relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2025”, registrando crescimento em praticamente todas as categorias de violência monitoradas pela entidade há quase cinco décadas. O documento aponta 258 assassinatos de indígenas no país no ano passado – alta em relação aos 211 casos contabilizados em 2024 -, além de aumento nos suicídios, na mortalidade infantil e nos conflitos por direitos territoriais.
Segundo o Cimi, o cenário de 2025 esteve diretamente ligado à insegurança jurídica em torno da Lei 14.701/2023, o chamado Marco Temporal, cuja constitucionalidade seguiu sem julgamento definitivo pelo Supremo Tribunal Federal ao longo de todo o ano, mesmo após o tema ter sido considerado inconstitucional pela própria Corte em 2023. Em dezembro, o Senado aprovou em dois turnos uma proposta de emenda constitucional que tenta reintroduzir a tese na Constituição.
Assassinatos, suicídios e mortalidade infantil em alta
Os dados de violência contra a pessoa mostram piora em relação ao ano anterior. Foram 258 homicídios de indígenas em 2025, concentrados principalmente em Roraima (82 casos), Amazonas (47) e Mato Grosso do Sul (37). O relatório soma ainda 38 tentativas de assassinato, 33 casos de lesão corporal, 25 de violência sexual e 46 de racismo e discriminação étnico-racial, totalizando 474 registros no capítulo dedicado a esse tipo de violência.

Foto da capa: Bruno Kelly/Greenpeace Brasil.
Os suicídios também cresceram: foram 215 casos no ano passado, ante 208 em 2024, com maior incidência em Amazonas, Mato Grosso do Sul e Roraima, e concentração entre jovens de 20 a 29 anos.
Já a mortalidade infantil indígena somou 1.024 óbitos de crianças de até 4 anos em 2025 – aumento expressivo frente aos 922 registrados no ano anterior. Mais da metade dessas mortes (57%) decorreu de causas consideradas evitáveis, como gripe, pneumonia, doenças infecciosas intestinais e desnutrição.
Conflitos territoriais crescem em meio à morosidade das demarcações
O relatório também identifica alta nos conflitos relacionados a direitos territoriais: foram 169 casos em 2025, distribuídos por 143 Terras Indígenas em 23 estados – a maioria em áreas que ainda aguardam alguma medida de regularização fundiária. Das 1.443 terras e reivindicações territoriais existentes no país, 897 seguem pendentes de providência administrativa, sendo que 582 delas nem tiveram o processo demarcatório iniciado.
Apesar de avanços pontuais – nove Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação publicados, sete terras homologadas e cinco registradas como patrimônio da União -, o documento aponta que o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva registra a menor média de homologações de Terras Indígenas entre seus três governos.
O Cimi também contabilizou 210 casos de invasão possessória, exploração ilegal de recursos naturais e outros danos ao patrimônio indígena, atingindo ao menos 151 territórios em 20 estados – a maior parte deles (58,3%) em terras já regularizadas, evidenciando que a demarcação nem sempre garante proteção efetiva contra invasores.
Garimpo, mineração e povos isolados
Entre os casos destacados no relatório está a Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, apontada como uma das mais afetadas pelo garimpo ilegal desde 2024 – situação que, segundo o documento, remete à mesma devastação registrada na terra do povo Nambikwara já em 1996, quando o relatório do Cimi trouxe pela primeira vez imagens de crateras abertas por garimpeiros na região.
O levantamento também chama atenção para a situação dos povos em isolamento voluntário: são 119 registros de povos isolados mapeados pela Equipe de Apoio aos Povos Livres do Cimi, dos quais apenas 55 têm reconhecimento oficial da Funai. Casos de invasão e dano ao patrimônio foram identificados em 20 Terras Indígenas onde há presença de grupos isolados.
Omissão do poder público
O relatório dedica um capítulo específico às chamadas violências por omissão do Estado, que somaram 366 registros relacionados à desassistência em saúde, educação e infraestrutura básica, incluindo falta de acesso à água potável e saneamento – agravada, em diversas regiões, pela contaminação de rios por agrotóxicos e mercúrio usado em garimpos.

