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Psicóloga explica como a independência emocional ajuda a construir uma vida satisfatória; pesquisas mostram que a solidão pode variar ao longo da vida e afetar a saúde física
Da Redação
Celebrado no Brasil em 15 de agosto, o Dia dos Solteiros pode ser uma oportunidade para discutir não apenas relacionamentos amorosos, mas também a diferença entre estar sozinho e sentir-se solitário. A psicóloga Denise Zerbinatto, professora da Universidade São Judas, destaca que uma pessoa pode desejar um relacionamento sem acreditar que sua felicidade dependa dele. A frase atribuída a Albert Einstein – “A solidão é dolorosa na juventude, mas deliciosa nos anos de maturidade” – também ajuda a introduzir essa diferença. Estar sozinho pode representar uma escolha, um período de descanso ou uma oportunidade de autoconhecimento. Já a solidão envolve sofrimento e a percepção de falta de conexão ou de apoio.
A autoria da frase atribuída a Einstein, contudo, deve ser aceita com cautela, pois sua fonte primária nem sempre é claramente identificada.
Independência emocional
Para Denise, independência emocional não significa rejeitar relacionamentos nem deixar de precisar de outras pessoas. O conceito se refere à capacidade de construir autoestima, segurança e projetos próprios sem colocar em um único parceiro a responsabilidade pela felicidade. Como ela afirma,
“Ser emocionalmente independente não significa não precisar de ninguém. Nós somos seres relacionais e precisamos de vínculos. Significa não colocar toda a nossa autoestima, segurança e sentido de vida nas mãos de uma única pessoa.”
Ainda segundo ela, existe uma diferença entre querer estar em uma relação e acreditar que só será possível ser feliz depois de encontrar alguém. Uma parceria pode fazer parte de uma vida satisfatória, mas não deve ser tratada como requisito para que essa vida tenha valor.
A especialista também chama atenção para a pressão social pelo chamado “par ideal”. Perguntas como “quando você vai se casar?” ou “quando vai arrumar alguém?” podem fazer com que a pessoa enxergue a solteirice como um problema a ser resolvido. Nas palavras dela,
“Quando a sociedade apresenta o relacionamento como uma espécie de requisito para uma vida completa, a pessoa pode começar a comparar a própria trajetória com a dos outros e sentir que está atrasada ou que existe algo de errado com ela.”
Essa cobrança pode levar a escolhas baseadas no medo da solidão ou na necessidade de aprovação, em vez de um desejo genuíno de construir aquela relação.
Solidão ao longo da vida
Uma análise de nove estudos longitudinais, publicada na revista Psychological Science, identificou um padrão em forma de U na solidão durante a vida adulta. Os níveis tendem a ser maiores entre adultos jovens e idosos, enquanto a meia-idade aparece como o período de menor solidão média.
Na juventude, mudanças de cidade, estudos, início da carreira e formação de novas redes sociais podem interromper vínculos já existentes. Na velhice, aposentadoria, viuvez, limitações físicas e redução da convivência podem aumentar o risco de isolamento.
A análise também identificou maior solidão persistente entre mulheres, pessoas socialmente isoladas, indivíduos com menor escolaridade ou renda, pessoas divorciadas ou viúvas e aquelas com limitações funcionais ou pior saúde física, mental e cognitiva.
Os dados não significam que toda pessoa solteira seja solitária ou que todo relacionamento proteja contra a solidão. Também é possível ter muitos contatos sociais e ainda assim sentir-se só. Da mesma forma, alguém com uma vida mais reservada pode não experimentar sofrimento por falta de companhia.
Efeitos sobre a saúde
A solidão também pode afetar o corpo. Um estudo apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) avaliou, em camundongos, como o isolamento social interfere na recuperação da dor.
Publicado na revista Physiology & Behavior em março de 2026, o trabalho indicou que a solidão pode prolongar a dor física e que o efeito foi mais intenso entre as fêmeas. Os animais foram mantidos isolados ou em grupos e passaram por um procedimento que simulava a transição da dor aguda para a dor crônica.
Somente as camundongas isoladas continuaram apresentando dor intensa 14 dias depois do corte na pata. Segundo os pesquisadores, esse grupo não se recuperou da mesma maneira que os animais mantidos em grupo.
As fêmeas isoladas também apresentaram alterações em comportamentos relacionados à ansiedade e à depressão, além de níveis persistentemente baixos de ocitocina, hormônio associado ao vínculo social e à modulação da dor. Entre os machos, o isolamento aumentou a ansiedade, mas não prejudicou da mesma forma a recuperação física.
Como o experimento foi realizado em animais, os resultados não podem ser automaticamente aplicados aos seres humanos. Ainda assim, os autores defendem que o suporte social seja considerado em situações como pós-operatórios e tratamentos para dor.
A relação entre solidão e sofrimento físico já foi abordada pela Agência PáginaUm na reportagem “Você se sente só nessa batalha contra a dor?”. A nova pesquisa acrescenta uma dimensão experimental ao debate ao indicar que o isolamento social pode interferir na recuperação da dor – ao menos em camundongos – e reforça a importância de considerar o suporte social durante tratamentos e períodos de recuperação.
A solidão também aparece em discussões mais amplas sobre saúde mental. Em “O lugar incômodo do Brasil na saúde mental dos brasileiros“, a Agência PáginaUm mostrou como a sensação de isolamento pode se tornar especialmente intensa em períodos de insegurança e sofrimento emocional. A diferença entre estar sozinho e sentir-se só é central para compreender por que a qualidade dos vínculos importa mais do que a simples presença de outras pessoas.
Estado civil não define felicidade
O estado civil não resume a vida afetiva de uma pessoa. Amizades, relações familiares, grupos comunitários, atividades culturais, trabalho e participação social também podem oferecer apoio e sensação de pertencimento.
A análise publicada na Psychological Science indica que pessoas casadas tendem a apresentar menor solidão, mas ressalta que, para adultos mais velhos que não são casados, manter contatos sociais contínuos e significativos pode ajudar a reduzir o risco de solidão persistente.
Para Denise, a independência emocional permite que a escolha de estar com alguém seja feita por vontade, e não por necessidade. “É poder estar em uma relação porque ela acrescenta à sua vida, e não porque você acredita que, sem ela, a sua vida não tem valor”, afirma.
Como fortalecer os vínculos
Algumas atitudes podem ajudar a reduzir o isolamento:
- manter contato regular com pessoas importantes;
- participar de atividades coletivas, como cursos, grupos culturais e esportivos;
- retomar amizades que foram interrompidas;
- oferecer ajuda e também aceitar apoio;
- buscar atividades que proporcionem prazer e sentido;
- observar mudanças persistentes de humor, sono, apetite ou interesse;
- procurar atendimento profissional quando a solidão vier acompanhada de sofrimento intenso.
Também é importante respeitar quem prefere uma vida mais reservada. Ter menos contatos não significa necessariamente estar solitário. O sinal de alerta é o sofrimento associado à falta de conexão e a sensação de que não há com quem contar.
Um dia para ampliar a conversa
O Dia dos Solteiros, comemorado no Brasil em 15 de agosto, pode ser usado para discutir diferentes formas de viver, amar e construir uma rede de apoio. A data não precisa transformar a solteirice em um estado ideal nem apresentar o relacionamento como solução para todos os problemas.
Para algumas pessoas, a felicidade incluirá casamento e filhos. Para outras, uma relação sem casamento. Há também quem escolha permanecer solteiro. O importante, segundo a psicóloga, é que essas decisões sejam tomadas de forma consciente. “A pergunta mais importante talvez não seja ‘por que você ainda está solteiro?’, mas ‘que vida você quer construir?’”, conclui Denise.
Uma vida afetiva saudável não depende de um único formato de relacionamento. Ela pode incluir vínculos amorosos, amizades, família, projetos pessoais e espaços de solitude. Estar sozinho não é, por si só, um problema. O que exige atenção é a solidão persistente, especialmente quando vem acompanhada de sofrimento e falta de apoio.
Com informações da Agência FAPESP e do Diário da Saúde. As declarações de Denise Zerbinatto foram fornecidas no material de divulgação da Universidade São Judas, integrante do Ecossistema Ânima.

