Foto Crédito: Vitaly Gariev/Unsplash
Depois de falar sobre os riscos dos vídeos de redes sociais, o medo de se mexer, as histórias de sucesso e os cuidados com o lazer, esta reportagem amplia o foco. Quem vive com dor crônica não lida apenas com músculos, articulações e nervos inflamados: lida com falta de tempo, cansaço do trabalho e do cuidado com a família, pouco dinheiro para transporte ou academia, bairros sem áreas seguras para caminhar, falta de grupos públicos de atividade física e, muitas vezes, desânimo e medo de piorar ao tentar algo novo. A ciência hoje descreve a dor crônica como um fenômeno biopsicossocial, resultado da interação entre fatores físicos, emocionais e sociais, que se alimentam mutuamente.
Nesta quinta reportagem sobre o tema, o foco não é apenas o que dói, mas onde a vida aperta: como o cotidiano, o lazer, a sensação de segurança que sentimos ao percorrer as ruas do lugar em que moramos, o acesso a um sistema público e confiável de saúde e o tipo de cuidado que recebemos podem piorar ou aliviar essa dor.
Lembre-se de você
Na prática, isso aparece na agenda lotada de quem convive com dor. Quando pensa em seus pacientes com dor crônica – especialmente idosos e pessoas de baixa renda – a fisioterapeuta Valéria Baldan resume a situação desta maneira: “É uma vida com muitas demandas e pouco espaço para si”.
São pessoas que trabalharam a vida inteira, muitas ainda em atividade, e que também cuidam da casa, dos filhos, dos netos. O dia inteiro é preenchido por obrigações. No fim, o que sobra é cansaço – e a dor entra como mais um peso nessa lista.
A especialista observa que o impacto social da dor costuma se espalhar. Vêm afastamento do trabalho, perda de renda, aumento da dependência da família, redução das saídas de casa e, pouco a pouco, isolamento. Dentro de casa, muda a dinâmica: quem antes fazia tudo passa a precisar de ajuda para tarefas básicas. “A dor deixa de ser só física – ela começa a afetar a forma como a pessoa vive e se relaciona”, diz.
Ela também nota diferenças de gênero e contexto: muitas mulheres acumulam trabalho e cuidado de outros, o que aperta ainda mais o tempo para cuidar de si. Idosos que moram sozinhos enfrentam a falta de apoio para sair ou se exercitar; os que moram com a família nem sempre recebem estímulo para que se mantenham ativos.
Seu corpo não é o corpo do vídeo
Nesse cenário apertado, o que aparece como “atalho” – um vídeo rápido na internet, uma sequência de exercícios copiados de rede social – pode virar problema. A terapeuta ocupacional Roberta de França Cruz vê com frequência pacientes que começaram a se exercitar por conta própria, a partir de vídeos, e chegaram ao consultório com piora da dor ou novas lesões.
“O maior risco é a pessoa achar que qualquer exercício serve e tratar um corpo genérico”, afirma. Um agachamento que parece simples para quem não tem dor pode ser inadequado para quem tem artrose avançada no joelho; uma prancha sustentada nos punhos pode ser demais para quem já tem tendinopatias ou osteoartrite na mão; exercícios com impacto podem ser perigosos para quem tem osteoporose ou problemas cardíacos.
Roberta lembra que vídeos em geral mostram só um recorte do processo: quase nunca explicam progressão gradual, adaptações, contraindicações ou sinais de alerta para parar. “O exercício precisa respeitar limites clínicos e não apenas aparência”, diz. Sem avaliação, a pessoa pode agravar patologias existentes, criar sobrecarga em outras regiões e entrar em um ciclo de dor e compensação.
Cuidado com o lazer
Quando a dor está sempre por perto, o lazer vira um dos principais refúgios. Assistir a séries, jogar videogame, ficar no celular, fazer crochê, pintar, desenhar, tocar um instrumento: tudo isso pode trazer prazer, distração e sensação de autonomia.
O psicólogo Luti Cristóforo, cujo relato abriu a matéria da semana passada, conhece bem essa negociação diária com o próprio corpo. Para ele, atividades prazerosas muitas vezes funcionam como estratégia legítima de enfrentamento. “A dor pode estar presente todos os dias, mas ela não precisa definir todos os dias da nossa vida”, afirma.
O problema é quando o alívio momentâneo vira nova fonte de dor. Permanecer horas na mesma posição, repetir sempre o mesmo gesto, ignorar pausas e sinais do corpo pode levar a sobrecarga muscular e articular. É nesse contexto que surgem ou se agravam quadros de LER/DORT, dores no pescoço, ombros, punhos e coluna.
Luti chama atenção para um ponto emocional importante: quando a pessoa encontra algo que a faz “esquecer” a dor, a tendência é querer prolongar ao máximo. Se, depois, a dor piora, é comum que venha também a culpa – como se ter aproveitado aquele momento fosse um erro. “Não é falha, é aprendizado”, diz. O processo envolve tentar, ajustar, errar, corrigir de novo.
Não pare, ajuste!
O fisioterapeuta Rafael Sales observa no consultório um padrão que já aparece na literatura: LER/DORT e sobrecargas não são exclusivas do trabalho. Elas também nascem em hobbies e lazer quando há muita repetição, pouco intervalo e quase nenhuma variação de movimento.
Para ele, o “perigo” não está em uma atividade específica, mas em como ela é feita ao longo do tempo – sobretudo em quem já tem dor crônica. Um exemplo simples é a pessoa com dor lombar que passa horas sentada assistindo a séries, sempre do mesmo jeito, sem pausa. “O fato de estar sentada não é o problema; o problema é ficar muito tempo na mesma posição, com pouca variação”, explica.
Rafael destaca alguns sinais de alerta de que a atividade prazerosa está começando a sobrecarregar o corpo:
- desconforto localizado que se repete;
- sensação de peso ou rigidez;
- formigamento ou dormência;
- perda de força ou mobilidade.
Deixa de ser “cansaço normal” quando a dor aparece com frequência, não melhora com descanso, aumenta ao repetir a atividade e começa a limitar o movimento. Nessa hora, insistir só piora. “Às vezes não é parar – é ajustar o movimento, reduzir o tempo contínuo, variar gestos e reorganizar a rotina da atividade”, afirma. O objetivo, diz ele, “nunca é tirar o de que a pessoa gosta, e sim permitir que ela continue sem dor”.
Mude a rotina
Valéria reforça que não é só o lazer que pesa: a forma como o dia inteiro está organizado impacta diretamente a dor. Longos períodos na mesma posição, excesso de tarefas sem pausa, sono ruim e estresse constante tendem a aumentar os sintomas. Por outro lado, pequenas mudanças na rotina – como inserir pausas, variar mais o movimento, ajustar o ambiente de trabalho ou de casa e cuidar melhor do sono – podem ajudar o corpo a responder de outra forma.
Quando propõe mudanças, ela diz que começa pelo que é possível naquele momento: melhorar o sono, rever a postura em tarefas repetitivas, incluir pequenas caminhadas, reorganizar tarefas da casa, combinar metas pequenas e realistas. A terapia manual, para ela, tem um papel importante nesse início: ao reduzir a dor e melhorar a mobilidade, dá ao paciente uma experiência menos ameaçadora com o próprio corpo, facilitando a entrada de novos movimentos.
“Não precisa ser grande, não precisa ser perfeito”, resume. “Pequenos movimentos, repetidos ao longo do tempo, já começam a mudar o caminho.”
Cuidados que libertam
A fisioterapeuta e farmacêutica Sílvia Patrício olha para a dor crônica como um fenômeno que exige um tipo de cuidado capaz de devolver autonomia. Ela chama isso de cuidado emancipador. Em vez de ver o paciente apenas como alguém que recebe tratamento, a proposta é que ele participe ativamente do próprio processo, aprenda a ouvir o corpo e reconhecer o que piora ou alivia a dor.
Na prática, isso começa com educação em dor: entender que a dor pode ser um aviso, mas também pode se manter por alterações do sistema nervoso, emoções, estresse e contexto de vida. Em seguida, vem o autoconhecimento: notar como raiva, ansiedade, medo ou alegria alteram a forma como o corpo sente.
Sílvia lembra que emoções como ansiedade e angústia podem intensificar a dor, deixando a respiração mais curta, os músculos mais tensos e o corpo em estado de defesa. Em contrapartida, experiências de afeto, acolhimento e prazer podem deslocar a atenção e reduzir a percepção do incômodo por alguns instantes. “Corpo e emoção caminham juntos”, diz.
Nesse quadro, as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) – como acupuntura, meditação, tai chi chuan, auriculoterapia, entre outras – podem ser ferramentas para regular respiração, reduzir estresse, aumentar consciência corporal e fortalecer o equilíbrio emocional. Elas não substituem outros tratamentos, mas ajudam a olhar para o todo, não só para a parte que dói.
Não se limite. Viva, mas proteja-se!
No fim, o que aparece em todas essas falas é uma linha tênue: proteger-se sem se limitar demais. Viver com dor crônica é, muitas vezes, aprender a caminhar nessa borda. Nem evitar tudo por medo, nem insistir em qualquer coisa a qualquer custo.
O corpo tem história, limites e necessidades próprias. Ele não é igual ao do vídeo, nem ao do vizinho. Cuidar dele não é sinal de fraqueza, e buscar apoio não é desistir. É, justamente, o que torna possível continuar se mexendo, trabalhando, cuidando dos outros – e, quando der, também aproveitando a vida.
Parte desse equilíbrio entre se proteger e seguir vivendo não depende só da pessoa, mas também do tipo de cuidado e de serviço que ela consegue acessar.
O que o SUS oferece
Para quem não pode pagar atendimento particular, a rede pública oferece caminhos que muitas vezes passam despercebidos. Em São Paulo, por exemplo, a capital tem seis Centros de Referência em Dor Crônica (CR Dor) distribuídos pelas regiões da cidade, com atendimento multiprofissional específico para pessoas com dor persistente. A prefeitura informa que esses centros somam centenas de milhares de atendimentos desde 2021.

A cidade também conta com seis Centros de Referência em Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (CRPICS), localizados em Guaianases, Sé, São Mateus, Bosque da Saúde, Cidade Tiradentes e Ermelino Matarazzo. Esses equipamentos fazem parte da rede municipal de atenção básica em saúde integrativa.
É muito pouco para uma cidade tão grande. A prefeitura de São Paulo tem de levar Centros de Referência como esses, especializados, para mais bairros, mais regiões, precisa atender mais gente.
Atendimentos dessa natureza – gratuitos e tão importantes – precisam estar à sua disposição na cidade em que você mora. Informe-se:
- procure a UBS mais próxima e pergunte se há grupos de dor crônica, PICS, fisioterapia, terapia ocupacional ou ambulatório de dor;
- peça informação sobre encaminhamento para centros de referência em dor ou em práticas integrativas;
- consulte o site da prefeitura ou da secretaria municipal de saúde para saber se existem serviços específicos para dor crônica no município.
Mais do que mostrar uma lista de endereços, a mensagem é: não é preciso se virar sozinho. Se você convive com dor crônica, procure a UBS mais próxima, pergunte sobre grupos de dor, fisioterapia, terapia ocupacional ou PICS e não copie exercícios da internet sem avaliação. Desde 2006, por exemplo, o país conta com uma política nacional de PICS com foco na atenção a essa condição que afeta tantos milhões de brasileiros. Se o município não disponibiliza esse tipo de atendimento, se a qualidade deixa a desejar, reivindique, não se cale. E lembre-se: movimento importa, mas movimento seguro é o que permite seguir em frente.
Mais serviços e respostas
Na semana que vem, esta série apresenta algumas outras opções de tratamento à disposição da população e traz respostas dos especialistas a questões apresentadas por quem acompanhou as reportagens da Agência PáginaUm até aqui. Não perca.
Próxima matéria: 15 de junho
Se você convive com dor crônica, procure a UBS mais próxima, pergunte sobre grupos de dor, fisioterapia, terapia ocupacional ou PICS e evite copiar exercícios da internet sem avaliação. Movimento é importante, mas movimento seguro, dentro da sua realidade, é o que permite seguir em frente.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

