Reunião on-line reuniu milhares de especialistas, políticos e ativistas. Fonte: Divulgação.
Reunião da Stand Up for Science expõe a ofensiva do governo Trump para ampliar o controle político sobre verbas federais de pesquisa e reacende o debate sobre o futuro da autonomia científica nos EUA
Em 2 de junho, laureados com o Prêmio Nobel, ex-chefes de agências, congressistas norte-americanos, autores, ativistas científicos e aliados se reuniram em caráter de emergência, pela internet, para discutir o que veem como uma ameaça direta à independência da ciência no país. O encontro, que reuniu mais de 2400 pessoas, foi convocado pela organização Stand Up for Science, em resposta a uma proposta do governo Donald Trump que busca ampliar a supervisão política sobre verbas federais destinadas à pesquisa.
No centro da controvérsia está o Escritório de Gestão e Orçamento da Casa Branca, conhecido pela sigla OMB, órgão responsável por ajudar o presidente a formular o orçamento federal e controlar sua execução. Na prática, a OMB funciona como uma das principais alavancas de poder do Executivo em Washington, porque determina como os recursos públicos serão distribuídos entre agências, programas e prioridades de governo. No caso da ciência, críticos alertam que essa estrutura pode ser usada para submeter o financiamento da pesquisa a critérios políticos.
Russell Vought, ex-diretor da OMB e um dos nomes mais influentes da máquina administrativa do trumpismo, é apontado por cientistas e analistas como peça central dessa ofensiva. Associado ao Projeto 2025, plano elaborado por aliados conservadores de Trump para reorganizar o Estado americano, Vought defende um Executivo mais forte, com menor autonomia para órgãos técnicos e maior capacidade de impor a agenda do presidente sobre a burocracia federal.
A disputa pelo controle da pesquisa
A preocupação da comunidade científica é que a Casa Branca passe a interferir diretamente em decisões que, historicamente, caberiam a especialistas. Isso inclui a definição de prioridades, a distribuição de bolsas, a continuidade de projetos e a avaliação de pesquisas financiadas com dinheiro público. O temor é que o mérito científico seja substituído por alinhamento ideológico.
Na prática, essa interferência já aparece em áreas sensíveis. Cientistas e ex-dirigentes de agências apontam o risco de bloqueio ou redirecionamento de pesquisas sobre clima, diversidade, raça e gênero, temas que passaram a sofrer pressão política no governo Trump. Há também preocupação com mudanças na forma como verbas são aprovadas, o que pode permitir que nomeados políticos tenham poder de veto sobre estudos considerados inconvenientes.
A National Oceanic and Atmospheric Administration, a NOAA, tornou-se um dos símbolos dessa disputa. Responsável por monitoramento atmosférico e oceânico, alertas de furacões e produção de dados climáticos, a agência depende de estabilidade institucional para manter séries históricas e previsões confiáveis. Caso seja politizada, alertam cientistas, a consequência pode atingir desde a defesa civil até a agricultura, os seguros e o planejamento urbano.
O que está em jogo
Para pesquisadores, o problema vai além da ciência como campo especializado. O que está em risco é a lógica de funcionamento do próprio Estado. Se decisões técnicas passarem a ser subordinadas ao interesse político do governo, afirmam os críticos, o precedente poderá ser estendido a outras áreas da administração pública.
Essa foi uma das mensagens centrais da reunião de 2 de junho. Timothy Snyder, historiador da Universidade de Toronto e autor de Sobre a Tirania, disse que, se esse tipo de interferência se consolidar na ciência, poderá se espalhar para o restante do governo. Elizabeth Ginexi, ex-funcionária do programa científico do NIH, afirmou que a disputa não diz respeito apenas à pesquisa, mas à relação entre o governo federal e a sociedade. Norman Eisen, ex-embaixador dos EUA, classificou a proposta como um ataque aos fundamentos democráticos: “Essa norma do OMB é o instrumento de ataque da administração Trump contra os fundamentos da nossa democracia, como a ciência, a verdade e as evidências, o Estado de Direito e eleições livres e justas”.
Ciência e poder político
No governo Trump, a ciência vem sendo tratada menos como um sistema de produção de conhecimento e mais como um campo de disputa política. O Projeto 2025 ajuda a entender esse movimento: ao defender mais poder para o presidente sobre a burocracia federal, ele abre espaço para que órgãos científicos, regulatórios e de financiamento sejam enquadrados pela lógica do Executivo.
Para a Stand Up for Science, a reunião de 2 de junho marcou um ponto de virada. O grupo vê a proposta da OMB como parte de uma estratégia mais ampla para transformar a ciência em instrumento de governo, e não em base independente para políticas públicas. Os participantes do encontro afirmam que, se a medida avançar, a pesquisa nos Estados Unidos pode entrar em uma fase de instabilidade institucional, com efeitos sobre o financiamento, a transparência e a liberdade acadêmica.
A disputa, em resumo, não é apenas sobre verbas. É sobre quem decide o que pode ser pesquisado, quem define as prioridades do conhecimento público e até que ponto a Casa Branca pode ir ao tentar moldar a ciência segundo sua própria agenda.

