O prazer de voltar a fazer coisas que antes não fazia mais é imenso. Foto Crédito: Thomas Kinto/Unsplash
Recebemos muitas perguntas ao longo da série e reunimos nesta última matéria da série aquelas que podem interessar a mais leitores.
Ao longo desta série, a dor crônica apareceu como aquilo que ela costuma ser na vida real: não só uma questão do corpo, mas também da rotina, do medo, do cansaço, do trabalho e da falta de tempo para cuidar de si. Para fechar a reportagem, reunimos perguntas enviadas pelos leitores e organizamos respostas que ajudam a esclarecer dúvidas ainda muito presentes em quem convive com a dor todos os dias.
Pergunta
Estou com uma artrose reversa no quadril que está me impedindo de andar. Aguardo para fazer uma cirurgia. Acho que piorei bastante tendo em vista a gravidade de saúde da minha filha, que teve choque anafilático, demorou mais de uma hora para ser socorrida. Na emergência, ela foi entubada e entrou em coma, em estado gravíssimo, no topo do vermelho. Mas está revertendo. Já foi extubada mas continua na UTI.
Resposta técnica
A artrose do quadril, também chamada de coxartrose, é uma condição degenerativa que provoca desgaste da cartilagem e pode limitar bastante a marcha e os movimentos. Enquanto aguarda a cirurgia, o tratamento busca aliviar a dor, preservar a função e manter a pessoa o mais segura e confortável possível.
Algumas medidas podem ajudar nesse período:
- manter o acompanhamento médico e fisioterapêutico, se possível;
- respeitar os limites do corpo;
- evitar esforços e movimentos que aumentem muito a dor;
- usar compressas mornas ou frias, conforme a orientação e a resposta de cada pessoa;
- fazer exercícios e alongamentos apenas com avaliação profissional.
Momentos de estresse intenso e sobrecarga emocional também podem aumentar a percepção da dor e piorar a limitação funcional, especialmente em quadros articulares mais avançados. Por isso, além do cuidado físico, é importante tentar preservar o apoio emocional nesse período.
Ficamos felizes em saber que sua filha está melhorando e torcemos para que ela siga evoluindo bem na recuperação.
Pergunta
Gostaria de saber mais sobre a síndrome de Ehlers-Danlos (SED)
Resposta técnica
A síndrome de Ehlers-Danlos (SED) não é uma doença única, mas um grupo de doenças genéticas do tecido conjuntivo. Isso significa que ela afeta estruturas responsáveis por dar sustentação e elasticidade ao corpo, como pele, articulações, vasos sanguíneos e ligamentos. Em geral, está ligada a alterações na produção ou na estrutura do colágeno, uma proteína fundamental para a resistência dos tecidos.
Os sinais e sintomas podem variar bastante de pessoa para pessoa, mas alguns são bem característicos: hipermobilidade articular (aquela flexibilidade “além do normal”), dores articulares e musculares frequentes, sensação de instabilidade nas articulações, entorses de repetição, fadiga crônica, pele mais elástica ou frágil e cicatrização diferente do habitual. Em alguns subtipos, também podem aparecer manifestações cardiovasculares, gastrointestinais e autonômicas, como palpitações, tontura e intolerância ao esforço.
Um ponto importante é que hipermobilidade sozinha não significa SED. Muitas pessoas sempre foram “muito flexíveis” ou conseguem fazer movimentos incomuns, e isso pode ser apenas uma característica individual. Na síndrome de Ehlers-Danlos, o que chama atenção é quando essa hipermobilidade vem acompanhada de sintomas e repercussões clínicas, como dores persistentes, entorses frequentes, sensação de fraqueza ou instabilidade e impacto real no dia a dia.
O diagnóstico costuma ser um desafio, justamente porque os sintomas podem se confundir com outras condições musculoesqueléticas. Ele é feito a partir de avaliação médica detalhada, análise do histórico familiar e uso de critérios diagnósticos específicos para cada subtipo, como o escore de Beighton para avaliar hipermobilidade. Em alguns casos, são indicados testes genéticos para confirmação. Por isso, se houver suspeita de SED, o caminho é procurar um médico (geralmente reumatologista, geneticista ou clínico que conheça o tema) para investigação adequada — não é algo que possa ser definido apenas por autoobservação ou teste caseiro.
Embora a SED não tenha cura, existe tratamento para controle dos sintomas e melhora da qualidade de vida. O manejo costuma ser multidisciplinar, envolvendo acompanhamento médico, fisioterapêutico e, quando possível, profissionais de educação física, entre outros. O foco é controlar a dor, orientar sobre proteção e conservação articular, adaptar a atividade física e monitorar possíveis complicações associadas.
A Fisioterapia tem um papel especialmente importante porque muitos pacientes convivem com dor, instabilidade articular e limitação funcional. Na prática clínica, os objetivos são definidos após uma avaliação individualizada, mas, em geral, o foco não é ganhar mais flexibilidade — essas articulações já costumam ser excessivamente móveis. O trabalho se concentra em estabilização e fortalecimento muscular, melhora da propriocepção (percepção do próprio corpo no espaço), controle motor e reeducação do movimento. Também entram orientações sobre proteção articular, adaptação das atividades do dia a dia e progressão cuidadosa dos exercícios, sempre respeitando a tolerância de cada pessoa.
Em resumo, a SED é uma condição que exige olhar individualizado: duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter quadros bem diferentes entre si. Por isso, tanto o diagnóstico quanto o tratamento precisam ser personalizados, e a fisioterapia bem conduzida pode fazer bastante diferença na funcionalidade e no controle dos sintomas.
Pergunta
Tenho muita dor na mão direita, provavelmente devido a movimentos repetitivos. É uma dor intensa. Não só dói como queima. Gostaria de saber o que posso fazer pra amenizar, pois nem com analgésico passa.
Resposta técnica
Dor forte na mão, com sensação de queimação, principalmente depois de movimentos repetitivos, pode ser sinal de sobrecarga, tendinite, compressão de nervos ou inflamação. Quando nem o analgésico ajuda, vale entender que o corpo está pedindo uma atenção mais específica. Se essa dor já vem há mais de três meses, o ideal é procurar avaliação médica para descobrir a causa e tratar do jeito certo.
Enquanto isso, algumas medidas podem aliviar:
- Evite repetir o mesmo movimento por muito tempo.
- Faça pausas ao longo do dia.
- Use compressa fria por 15 a 20 minutos.
- Observe como a mão e o punho ficam no trabalho e no celular.
- Faça alongamentos leves, de preferência com orientação.
- Em alguns casos, uma órtese pode ajudar a diminuir a sobrecarga, quando indicada por um profissional.
O mais importante é não ficar tentando aguentar sozinha. Investigar a causa da dor é o que ajuda a evitar que ela piore. A Terapia Ocupacional pode ser uma grande aliada na recuperação da função da mão, na adaptação das tarefas do dia a dia e, quando necessário, na confecção de órteses para aliviar a dor e facilitar o retorno às atividades.
Pergunta
Gostaria de saber sobre a dor crônica do lipedema. Quais são as principais características da doença e como aliviar os sintomas? E por que aparecem hematomas? Acredito que seja uma doença nova e alguns sintomas se parecem com dor reumática. Estou no meu achismo, de que é dor nos nódulos de gordura; a pele fica roxa só de esbarrar. As pernas cansadas e inchadas dificultam a locomoção.
Resposta técnica
O lipedema é uma condição crônica que provoca acúmulo anormal de gordura, principalmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços. Ele costuma vir acompanhado de dor, sensação de peso, inchaço e maior sensibilidade ao toque. Muitas pessoas relatam também que as pernas ficam cansadas, doloridas e mais roxas com facilidade, o que pode dificultar a locomoção e piorar ao longo do dia.
Os hematomas aparecem com facilidade porque os tecidos ficam mais sensíveis e frágeis, favorecendo marcas roxas mesmo após pequenos esbarrões ou traumas leves. Isso faz parte do quadro e não significa, necessariamente, um machucado mais grave.
O tratamento do lipedema deve ser individualizado e multidisciplinar, com acompanhamento de médicos como angiologista, cirurgião vascular e endocrinologista, e, em alguns casos, cirurgião plástico. Na fisioterapia, recursos como drenagem linfática manual, pressoterapia, exercícios terapêuticos e orientações para retomar o movimento com segurança podem ajudar a reduzir a dor, o inchaço e a sensação de peso nas pernas.
Na prática, o objetivo não é apenas diminuir o edema, mas cuidar da paciente como um todo, promovendo mais mobilidade, menos dor e melhor qualidade de vida.
No fim, a dor crônica exige mais do que resistência. Ela pede informação confiável, escuta, acompanhamento e uma rede de cuidado que não trate cada sintoma como algo isolado. Nem sempre a resposta vem rápido, mas entender o que está acontecendo já é parte importante do caminho. Para muita gente, isso faz diferença entre seguir sofrendo sozinha e começar a encontrar formas mais seguras de viver com a dor.

