Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil.
O debate sobre os efeitos das tecnologias digitais na saúde mental dos estudantes já chegou a oito em cada dez escolas brasileiras, segundo a nova edição da pesquisa TIC Educação, do Cetic.br/NIC.br. A proporção de instituições que discutiram o tema em 2025 saltou 18 pontos percentuais em relação a 2024, passando de 62% para 80%.
O avanço, porém, é maior no discurso do que na prática. Enquanto a conversa sobre uso seguro e crítico das tecnologias cresceu nas reuniões escolares – de 56% para 75% das instituições -, apenas 65% das escolas de fato desenvolvem alguma ação voltada aos estudantes na área de educação digital e midiática. E essa presença é desigual: 72% nas escolas urbanas contra uma parcela bem menor nas rurais, e 75% entre as que já contam com computadores e internet para uso pedagógico – evidenciando que a falta de infraestrutura ainda trava o avanço nas escolas mais vulneráveis.
Faltam materiais, e faltam famílias
O maior gargalo identificado pela pesquisa não é a vontade dos gestores, mas a ausência de suporte. Entre as escolas que já promovem ações de educação digital, 75% dos gestores apontam a baixa participação das famílias como principal obstáculo, seguida pela falta de materiais e recursos educacionais de apoio (64%). Já entre as escolas que ainda não desenvolvem nenhuma iniciativa, o problema se inverte de ordem, mas não de natureza: 77% citam a falta de materiais e recursos como maior dificuldade, 66% a baixa adesão das famílias e 65% a qualidade insuficiente de computadores e conexão à internet.
O diálogo direto entre escola e família também segue limitado. Em menos da metade das instituições (49%), os responsáveis efetivamente procuraram a direção ou a equipe pedagógica para pedir orientação sobre como mediar o consumo digital de crianças e adolescentes. Do lado das escolas, 48% ofereceram palestras com especialistas em bem-estar e saúde mental às famílias, e 46% distribuíram guias sobre hábitos saudáveis de uso das telas – ações relevantes, mas que ainda não chegam à maioria das comunidades escolares.
Celular na escola, regras heterogêneas
O cenário de uso de celulares por alunos, que passou a ser regulado pela Lei nº 15.100/2025 e pela Resolução nº 2/2025 do Conselho Nacional de Educação (CNE), mostra a mesma fragmentação. Metade dos gestores (51%) proíbe totalmente o uso do telefone pessoal no ambiente escolar – restrição mais comum nos anos iniciais (69%) do que no Ensino Médio (31%). Nas escolas que permitem o aparelho, as regras de guarda variam entre bolsos e mochilas (24%) e armários ou caixas disponibilizados pela instituição (16%), sugerindo ausência de um protocolo nacional uniforme.
IA generativa avança sem orientação formalizada
Levantada pela primeira vez na pesquisa, a adoção de inteligência artificial generativa por gestores escolares já é maioria: 53% afirmam usar essas ferramentas em tarefas de gestão pedagógica, administrativa ou financeira, principalmente para criar conteúdos de comunicação, redigir comunicados e revisar textos. Entre os alunos, o uso é permitido em 37% das escolas. Mas o dado mais revelador é outro: apenas 22% dos gestores dizem que a escola possui um guia de orientações sobre o uso da IA no ensino, na aprendizagem ou na gestão – um descompasso entre a adoção acelerada da tecnologia e a construção de regras claras para seu uso.
O retrato geral
Os números da TIC Educação 2025 traçam um cenário em que o debate cresceu, mas a estrutura para transformá-lo em prática não acompanhou o ritmo: faltam materiais pedagógicos, falta infraestrutura em regiões e escolas mais vulneráveis, falta engajamento das famílias e falta normatização sobre o uso de novas ferramentas como a IA generativa. A pesquisa também aponta desigualdade regional no uso pedagógico do celular pessoal – mais frequente exatamente onde a conectividade e o acesso a computadores são mais escassos, nas regiões Norte (76%), Nordeste (76%) e em áreas rurais (75%), o que sugere que o celular tem funcionado como substituto de infraestrutura ausente, e não como escolha pedagógica planejada.
A TIC Educação 2025 entrevistou por telefone gestores de 2.404 escolas públicas e particulares, urbanas e rurais, entre agosto de 2025 e abril de 2026. Os dados completos, com margens de erro, estão disponíveis no site do Cetic.br.

