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Enquanto a Europa registra queda nas exportações, Sebrae promove encontro internacional em Juiz de Fora e pesquisadores financiados pela FAPESP estudam um possível novo estilo brasileiro
A União Europeia vendeu menos cerveja para outros países em 2025. Segundo o Eurostat, órgão oficial de estatísticas do bloco, foram exportados 3,2 bilhões de litros – uma queda de 11% em relação ao ano anterior. O dado foi divulgado na semana do Dia Internacional da Cerveja, comemorado na primeira sexta-feira de agosto. A informação, embora pontual, relativa apenas a um ano, serve de ponto de partida para um movimento que vem ganhando força no Brasil. Em diferentes regiões do país, empresas, entidades do setor e instituições de pesquisa discutem como ampliar a presença da cerveja brasileira, aproximar marcas estrangeiras dos consumidores e criar produtos ligados à identidade nacional.
Em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, o Sebrae Minas e a Associação das Cervejarias da Zona da Mata Mineira (Unicerva ZM) realizam, no dia 26 de agosto, o 1º Seminário Internacional das Cervejarias Mineiras. O encontro ocorrerá das 12h às 18h, no Cultural Pub, e fará parte da Semana da Cerveja Mineira, programada para 24 a 30 de agosto.
O evento terá a participação do belga Luc de Raedemaeker e do holandês Henri Reuchlin, que falarão sobre cultura cervejeira, qualidade, concursos internacionais, tendências de consumo e o futuro do setor. A proposta do Sebrae é aproximar produtores, empresas, técnicos e instituições para discutir soluções práticas e fortalecer as cervejarias artesanais da região.
A programação da Semana da Cerveja Mineira inclui ainda o Concurso Mineiro de Cervejas, a Feira Tecnológica, o Festival da Cerveja Mineira e o pré-lançamento da Rota Turística Caminhos e Cervejas. A rota reunirá 24 estabelecimentos de Juiz de Fora, em Minas Gerais, e de Petrópolis e Três Rios, no estado do Rio de Janeiro.
A proposta é integrar cervejarias, gastronomia, atrações turísticas e meios de hospedagem em um roteiro de turismo de experiência, com o objetivo de valorizar a cultura cervejeira e estimular o desenvolvimento regional.
Pesquisa com mandioca
Enquanto o Sebrae promove o encontro e a troca de conhecimento em Minas Gerais, pesquisadores financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) investigam, em São Paulo, como criar uma cerveja com características próprias do Brasil.
O estudo será realizado no Centro Multidisciplinar de Tecnologia Cervejeira do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), em Sertãozinho, e receberá mais de R$ 400 mil. Durante três anos, pesquisadores do IFSP e da Universidade de São Paulo (USP) acompanharão a produção da chamada Manipueira Selvagem em São Paulo, Santa Catarina e Sergipe.
A bebida é produzida com a ajuda de microrganismos presentes na manipueira – líquido obtido durante a prensagem da mandioca para a fabricação de farinha. A fermentação e a maturação ocorrem em barris de madeira por cerca de 12 meses.
Os cientistas vão comparar duas safras e analisar amostras desde a obtenção da manipueira até a cerveja pronta. Também serão avaliadas as diferenças entre a fermentação em barris de madeira e em recipientes de polipropileno.
O objetivo é descobrir quanto cada elemento – a mandioca, a madeira e o ambiente de produção – contribui para o sabor, o aroma, a composição e as características da bebida. O trabalho poderá fornecer a base científica para o reconhecimento da Manipueira Selvagem como um novo estilo brasileiro de cerveja.
Uma alemã em Leme
Outro movimento ocorre em Leme, no interior de São Paulo, onde a cervejaria alemã Hofbräu München passará a produzir parte de seus rótulos para o mercado brasileiro. A marca já exporta cervejas para o Brasil há mais de 20 anos. A novidade é a fabricação local, que será feita pela NewAge Bebidas sob supervisão de profissionais da empresa alemã.
Inicialmente, serão produzidas no país a HB Weissbier, uma cerveja de trigo com aromas frutados e notas de cravo, e a HB Lager, do estilo Helles. Segundo a Bier Wein, responsável pela operação no Brasil, a produção local poderá reduzir custos de transporte, facilitar o abastecimento e diminuir o preço final dos produtos.
A fabricação em Leme aproxima do consumidor brasileiro uma marca tradicional da Baviera e reduz a dependência do transporte internacional. Já o Projeto Manipueira segue em outra direção: usa ingredientes, microrganismos e conhecimentos ligados ao território nacional para tentar criar uma cerveja com identidade própria.
Três caminhos para a cerveja brasileira
Os três movimentos mostram como o setor se movimenta em diferentes frentes. Em Juiz de Fora, o Sebrae articula conhecimento, qualificação e negócios para fortalecer as cervejarias mineiras. Em Sertãozinho, pesquisadores apoiados pela FAPESP estudam cientificamente o potencial de uma fermentação associada à mandioca. Em Leme, uma marca tradicional da Alemanha passa a produzir localmente para se aproximar do consumidor brasileiro.
Bélgica, Países Baixos e Alemanha estão entre os países europeus que mais exportam cerveja. No Brasil, empresas e especialistas ligados a esses mercados participam de eventos e operações comerciais, enquanto pesquisadores e cervejarias nacionais buscam desenvolver produtos associados às características e à identidade do país.
O resultado é um mercado que combina a presença de marcas estrangeiras, a produção nacional de receitas tradicionais e a tentativa de transformar ingredientes brasileiros, como a mandioca, em elementos de uma nova cultura cervejeira.

