Foto Crédito: Sasun Bughdaryan/Unsplash.
Estudos brasileiros e internacionais confirmam um aumento nos casos de câncer de garganta – mais precisamente da orofaringe, região que inclui amígdalas e base da língua – associados ao Papilomavírus Humano (HPV), vírus transmitido por contato íntimo, incluindo o sexo oral. A mudança de perfil preocupa oncologistas porque atinge, cada vez mais, pessoas que não fumam nem consomem álcool em excesso – fatores historicamente associados a esse tipo de tumor.
De acordo com a Estimativa 2026-2028 do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 17,2 mil novos casos de câncer de boca e garganta por ano nesse período, sendo aproximadamente 12,3 mil entre homens e 4,9 mil entre mulheres. A incidência segue maior entre os homens, mas o perfil dos pacientes vem se diversificando, com identificação crescente de tumores de garganta ligados ao HPV.
Uma mudança no perfil dos pacientes
A relação entre o HPV e os cânceres de cabeça e pescoço vem sendo estudada pela comunidade científica há anos. Uma revisão publicada na Revista Odontológica do Brasil Central, em 2014, já destacava o papel do vírus como fator carcinogênico e cocarcinogênico nesses tumores, reforçando que eles podem ocorrer também em pacientes sem os fatores de risco tradicionalmente associados à doença, como tabagismo e consumo excessivo de álcool. “Ainda atendemos muitos pacientes cujo câncer está relacionado ao cigarro e ao álcool, mas percebemos um aumento dos tumores associados ao HPV, inclusive em pessoas que nunca fumaram. Isso mostra que precisamos ampliar o conhecimento da população sobre os diferentes fatores de risco e sobre as formas de prevenção disponíveis”, explica a oncologista clínica Débora Curi.
Um risco pouco associado ao sexo oral
O HPV é uma infecção extremamente comum, e na maioria das pessoas o próprio organismo consegue eliminá-la. Em alguns casos, porém, o vírus permanece no corpo por anos e pode causar alterações celulares que evoluem para tumores. Como a infecção geralmente não provoca sintomas, muitas pessoas nunca relacionam um contato ocorrido no passado a um diagnóstico de câncer recebido anos – às vezes décadas – depois.
“É importante esclarecer que o sexo oral, por si só, não provoca câncer. O que pode acontecer é a transmissão do HPV durante esse contato. Quando essa infecção persiste ao longo do tempo, ela pode contribuir para o desenvolvimento de alguns tumores de cabeça e pescoço. A informação é fundamental para combater preconceitos e, principalmente, estimular a prevenção”, explica o oncologista clínico David Pinheiro Cunha. Vale destacar que o HPV está associado principalmente aos tumores da garganta (orofaringe), diferente dos tumores de boca (cavidade oral propriamente dita), tradicionalmente ligados a tabaco e álcool – os dois tipos costumam ser tratados em conjunto nas estatísticas oficiais, mas têm causas predominantes distintas.
O vírus vai além do câncer de colo do útero
Embora seja mais conhecido por sua relação com o câncer de colo do útero, o HPV também está associado a tumores de garganta, ânus, pênis, vulva e vagina. Por isso, a vacinação contra o vírus é considerada uma das principais estratégias de prevenção. No Brasil, a vacina está disponível gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, em dose única, dentro do Programa Nacional de Imunizações – pessoas imunossuprimidas seguem esquemas próprios, e adolescentes e adultos fora da faixa etária ideal também podem avaliar a imunização com um médico. A vacina não trata infecções já existentes, mas protege contra os tipos de HPV aos quais a pessoa ainda não foi exposta. “Quando falamos em vacina contra o HPV, muitas pessoas ainda associam o imunizante apenas ao câncer do colo do útero. Mas essa proteção também está relacionada à prevenção de outros tumores, inclusive os de cabeça e pescoço. Vacinar meninos e meninas é uma forma de reduzir a circulação do vírus e proteger as próximas gerações”, reforça Débora Curi.
Para David Pinheiro Cunha, ampliar o acesso à informação é essencial para mudar esse cenário: “Estamos falando de uma doença que, em parte dos casos, pode ser prevenida. A vacinação, associada ao acompanhamento médico e à atenção aos sinais de alerta, representa uma oportunidade concreta de reduzir o impacto desses tumores no futuro.”
O panorama internacional
O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Levantamento publicado pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) mostrou que, entre 1999 e 2015, as taxas de câncer de garganta associado ao HPV cresceram 2,7% ao ano entre homens e 0,8% ao ano entre mulheres no país – na direção oposta ao câncer de colo do útero, que caiu 1,6% ao ano no mesmo período. Estudos mais recentes apontam que o HPV já responde por cerca de 70% dos casos de câncer de garganta nos Estados Unidos e em outras nações desenvolvidas. Um comportamento semelhante já havia sido identificado há mais de uma década em países como Finlândia, Reino Unido, Holanda, Suécia e Austrália, onde o aumento dos casos associados ao HPV ocorre justamente à medida que os tumores ligados a tabagismo e álcool vêm diminuindo.
Sinais de alerta
Especialistas recomendam procurar avaliação médica quando os seguintes sintomas persistirem por mais de duas semanas:
- Ferida na boca que não cicatriza;
- Rouquidão persistente;
- Dor ou dificuldade para engolir;
- Caroço no pescoço;
- Dor de garganta contínua;
- Sangramento na boca ou garganta;
- Sensação de algo preso ao engolir.

