Wagner Moura e Keber Mendonça Filho. Foto Crédito: Victor Juca/Divulgação.
O filme que hoje leva o Brasil ao Oscar e o Brasil que Geisel descreveu em 15 de março de 1977 falam do mesmo país – mas parecem viver em universos paralelos.
Em “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, a ditadura não aparece em tanques nas ruas, mas na textura do cotidiano: corpos descartados em terrenos baldios, como lixo, para serem devorados por animais; empresários que se apropriam de instituições públicas como se fossem extensão de seus escritórios; policiais que colhem depoimentos em lugares informais, fora de qualquer controle judicial; cientistas e servidores perseguidos como “subversivos” porque atrapalham negócios; pistoleiros contratados para silenciar quem ousa resistir. No filme, o retrato do general Ernesto Geisel pendurado em paredes oficiais funciona como uma espécie de lembrança silenciosa de quem está, formalmente, no comando daquele mundo onde violência privada, corrupção policial e repressão de Estado se cruzam.
Em 1977, num 15 de março, 49 anos atrás, o presidente Geisel comemorava três anos de governo com um discurso otimista, cheio de números e promessas. Falou em crescimento econômico superior a 20% em três anos, em renda per capita de 1,1 mil dólares, em batalha contra a inflação “econômica e moral”. Exaltou avanços na agricultura, na indústria, na previdência, na saúde, na educação, e disse que a situação social do Brasil “hoje é bem melhor do que era ontem, e amanhã certamente ainda será bem melhor”. Afirmou ainda que o país se desenvolvia “no campo político”, com eleições de 1974 e 1976 descritas como “livres”, em que o povo teria se manifestado “como quis” e demonstrado confiança no governo pela baixa abstenção.
O contraste entre essas duas narrativas – a ficcional, ancorada na experiência vivida, e a oficial, entoada do alto do poder – diz muito sobre o que a ditadura preferia mostrar e o que precisava esconder. Pesquisas históricas e relatórios de entidades de direitos humanos indicam que, durante o governo Geisel, a repressão continuou matando e fazendo desaparecer opositores, mesmo enquanto o Planalto falava em “distensão lenta e gradual”. Houve censura à imprensa, às artes e ao lazer, fechamento temporário do Congresso e imposição de reformas políticas de cima para baixo, como o Pacote de Abril de 1977, desenhado para garantir a maioria do partido governista e manter eleições indiretas. A “ordem” exaltada nos discursos custava caro a quem estivesse do lado errado da linha que separava aliados do regime e “inimigos internos”.
É nesse intervalo entre o que o poder dizia de si e o que acontecia no dia a dia que “O Agente Secreto” se instala. O filme escolhe 1977 não por acaso. É um momento em que a ditadura vende ao mundo a imagem de abertura controlada, enquanto articula, com o apoio de setores empresariais, formas mais discretas e sofisticadas de violência: demissões políticas em universidades, cooptação de institutos de pesquisa, contratos públicos dirigidos, campanhas de difamação contra opositores, uso da polícia e de grupos armados privados para “resolver problemas” fora da vista do público. Em vez de mostrar generais discursando, a câmera acompanha personagens que sentem na pele o custo de um sistema em que dinheiro, influência e força física valem mais que lei, perícia ou prova.
O discurso de Geisel, lido hoje, revela um esforço quase obsessivo de apresentar a ditadura como um projeto técnico e responsável: desenvolvimento “integrado”, preocupação social, modelo político “adequado à índole do povo brasileiro”, política externa respeitada pela Europa, pelos Estados Unidos e pelo Japão. Quando se refere à política interna, o presidente insiste na ideia de que o progresso deve ser “paulatino, gradativo e lento” – a fórmula da abertura controlada, na qual o próprio regime define o ritmo e o alcance da liberdade. Ao reivindicar para si a bandeira do combate à inflação e da melhora social, Geisel tenta ocupar o lugar de estadista reformador, alguém que corrigiria “excessos” sem romper a lógica autoritária que o mantinha no poder.
O cinema, 49 anos depois, desmonta essa imagem pela via da narrativa, não da tese. Ao mostrar corpos jogados ao lado de uma rodovia, comunidades inteiras vivendo sob ameaça e cientistas tratados como inimigos porque atrapalham interesses privados, “O Agente Secreto” recoloca o empresariado e suas redes de influência no centro da história da ditadura – algo que a ciência política e o jornalismo investigativo vêm documentando há anos, mas que raramente havia aparecido com tanta força na tela. Não é um filme “sobre Geisel”, mas sobre o ambiente criado pelo tipo de poder que ele representava: um poder que falava em “segurança e desenvolvimento” enquanto aceitava – e em muitos casos protegia – a violência clandestina contra corpos considerados descartáveis.
Que esse filme chegue ao Oscar justamente em 15 de março de 2026, data em que se completam 49 anos daquele discurso presidencial, é uma coincidência carregada de sentido. De um lado, temos o registro oficial de um governo que se via como motor de grandeza nacional, elogiando a própria obra e prometendo uma democracia sob medida. De outro, uma obra de ficção que devolve ao centro da cena os personagens que não entravam nas falas palacianas: empregadas domésticas, homossexuais, filhos de trabalhadores, pesquisadores, militantes de direitos humanos, moradores de prédios populares e periferias. Entre o palanque de 1977 e a tela grande de 2026, o que muda é quem tem o direito de contar a história.
Num país em que ainda se relativizam os crimes da ditadura e se romantiza o “milagre econômico”, esse diálogo entre os “dois 15 de março” é uma oportunidade rara. O texto de Geisel permanece como documento de uma autoimagem cuidadosamente construída – um Brasil que se dizia em ordem, em crescimento e em abertura. O filme, por sua vez, funciona como contracampo, lembrando que, por trás de gráficos de PIB e discursos sobre segurança, havia corpos, medos, silenciamentos e conchavos que nunca entraram nas estatísticas oficiais. Ao assistir à cerimônia do Oscar hoje, vale ter isso em mente: não estamos apenas torcendo por um longa-metragem brasileiro. Estamos assistindo, em tempo real, à disputa por qual memória de 1977 vai prevalecer no imaginário coletivo – a do general que celebrava feitos diante de seus ministros, ou a das pessoas que, décadas depois, finalmente começam a ser ouvidas.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

