Foto crédito: Andreea Popa/Unsplash
Em vez de dar apenas orientações genéricas na alta, as equipes dos serviços de emergência, hospitais gerais e unidades de saúde podem marcar uma conversa estruturada ainda durante a internação, construir com a pessoa internada um plano de ação para momentos de crise e combinar ligações, mensagens ou cartas em dias e semanas críticas após a tentativa de suicídio. Essas ações, de baixo custo, não substituem psicoterapia ou tratamento médico de longo prazo, mas podem fazer a diferença no pós-alta, justamente a fase em que o risco de uma nova tentativa é mais alto.
Essa é a principal conclusão prática de uma grande revisão de estudos internacionais publicada na revista eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, que analisou a eficácia de intervenções breves e contatos de acompanhamento em adultos que já haviam tentado tirar a própria vida. Os autores, liderados por Stephanie Homan, do Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia de Adultos, Clínica Psiquiátrica Universitária de Zurique e Universidade de Zurique, Suíça, reuniram 36 ensaios clínicos randomizados, envolvendo mais de 9 mil e quinhentas pessoas atendidas em hospitais ou serviços de urgência, e compararam quem recebeu esse tipo de apoio focado e de curta duração com quem foi acompanhado apenas com o tratamento padrão, não focado em prevenção do suicídio.
Entraram na análise intervenções variadas, mas com algo em comum: eram curtas e desenhadas para caber na rotina de serviços sobrecarregados. Em alguns casos, consistiam em uma única sessão em que profissional e paciente montavam um plano de segurança, identificando sinais de alerta, estratégias pessoais para enfrentar crises e contatos de emergência. Em outros, incluíam algumas sessões breves de psicoterapia, telefonemas periódicos, cartões ou mensagens enviados ao longo de meses após a alta, para reforçar o vínculo e lembrar a pessoa de que não está sozinha.
Os resultados mostram que quem recebe esse tipo de cuidado tem menos chance de voltar a tentar suicídio. No conjunto dos estudos, as intervenções breves reduziram em cerca de 28% o risco de nova tentativa em comparação com o atendimento usual. Em termos simples, em grupos semelhantes de pessoas que sobreviveram a uma tentativa, houve menos novas tentativas entre aqueles que tiveram uma conversa estruturada e algum tipo de acompanhamento, mesmo que em formato de contatos rápidos.
A meta-análise, isto é, a revisão estatística conjunta desses estudos, também encontrou uma redução, ainda que modesta, na intensidade de pensamentos suicidas entre os participantes que passaram por essas intervenções. Pessoas que fizeram planejamento de segurança ou sessões curtas de apoio e foram contatadas depois relataram menos ideias de morte do que aquelas que tiveram apenas o atendimento padrão. Os autores destacam, porém, que esse efeito tende a perder força com o tempo se não houver continuidade no cuidado, o que reforça a necessidade de integrar essas ações a uma rede de acompanhamento mais longa.
Por outro lado, o estudo não conseguiu afirmar com segurança que essas estratégias, sozinhas, reduzam outros tipos de autolesão nem que aumentem de forma consistente a adesão a serviços de saúde mental. Em parte, isso porque há poucos trabalhos medindo exatamente esses desfechos, e porque as intervenções, os perfis de pacientes e o tempo de seguimento variam muito entre os estudos. Mesmo assim, a direção geral dos resultados aponta para um benefício claro naquilo que é mais urgente: evitar que uma tentativa se repita logo depois da alta, quando a pessoa ainda está muito vulnerável.
Para os pesquisadores, a mensagem é que intervenções breves e contatos de acompanhamento não devem ser vistas como “menos tratamento”, mas como uma porta de entrada essencial em contextos onde nem sempre é possível oferecer, de saída, um caminho completo de psicoterapia e cuidado especializado. Elas são baratas, exigem treinamento relativamente simples e podem ser implementadas em diferentes tipos de serviço – dos prontos-socorros aos ambulatórios. A recomendação do artigo é de que essas práticas passem a integrar, como padrão, o cuidado pós-tentativa, enquanto novos estudos ajudam a responder perguntas que seguem em aberto, como quais formatos funcionam melhor para cada perfil de paciente e por quanto tempo os contatos devem ser mantidos.

