Foto Crédito: Carlos Magno/Unsplash.
Os agentes comunitários de saúde (ACS) se tornaram sentinelas da violência nas periferias brasileiras – dentro de casa e nas ruas –, mas seguem sem preparo, canais claros de encaminhamento ou proteção para atuar como o próprio sistema de saúde espera que atuem. Esse é o alerta central de um estudo com quase 3,8 mil agentes do Nordeste, publicado em periódico do grupo The Lancet, que mostra como esses trabalhadores enxergam, no dia a dia, agressões domésticas, estupros, assaltos e ataques armados, sem receber suporte à altura da responsabilidade que carregam.
A pesquisa foi conduzida em oito municípios do Nordeste – quatro capitais (Fortaleza, Recife, Teresina e João Pessoa) e quatro cidades do interior do Ceará (Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha e Sobral) – justamente por concentrarem alta vulnerabilidade social e índices elevados de violência. Os pesquisadores aplicaram questionários estruturados a 1.942 ACS em 2021, durante as restrições da pandemia de COVID‑19, e a 1.907 ACS em 2023, já no período pós‑emergência sanitária, comparando como esses profissionais percebem e vivenciam diferentes formas de violência urbana e doméstica.
Um ponto crucial é que todos os agentes vivem nas mesmas comunidades em que trabalham, o que os coloca em uma posição dupla: são profissionais de saúde que entram nas casas, ouvem relatos e acompanham famílias por anos, mas também são moradores expostos aos mesmos riscos de assaltos, facções, conflitos de vizinhança e violência de gênero. Ao analisar as respostas, os autores encontraram um padrão nítido de “violência generificada”: homens ACS são mais vitimizados em espaços públicos, enquanto mulheres ACS se tornam as principais referências para relatos de violência doméstica e sexual.
Segundo o artigo, os homens relatam mais frequentemente ter sofrido agressões físicas, esfaqueamentos e disparos de arma de fogo não letais, além de perceberem de forma mais intensa a violência urbana (assaltos, brigas de gangues, confrontos armados). Já as mulheres aparecem como principais “ouvidos” da comunidade para casos de estupro e agressões dentro de casa: são elas que, em maior proporção, dizem ter ouvido falar ou tomado conhecimento de situações de violência sexual e doméstica, sobretudo em 2023, quando as visitas domiciliares voltaram ao padrão pré‑pandemia.
A comparação entre 2021 e 2023 também ajuda a entender o efeito da pandemia sobre a visibilidade da violência. Em 2021, em meio a restrições de circulação, não havia grande diferença entre homens e mulheres na percepção da violência doméstica. Em 2023, as ACS passaram a identificar mais esse tipo de violência do que seus colegas homens, sugerindo que o retorno pleno às visitas permitiu que situações antes “trancadas” no interior das casas se tornassem mais aparentes. Ao mesmo tempo, a percepção da violência urbana permaneceu mais alta entre os homens nos dois períodos.
Apesar dessa posição estratégica – “observadores privilegiados do sofrimento comunitário”, como define o estudo –, os autores apontam que os ACS não contam com treinamento sistemático para reconhecer formas menos óbvias de violência (psicológica, econômica, controle coercitivo) nem com fluxos estáveis para acionar a rede de proteção. Muitos dizem não saber exatamente para quem reportar, temem represálias de agressores e do crime organizado e não dispõem de apoio psicossocial para lidar com o impacto de ouvir, dia após dia, relatos de agressões em seu próprio território.
A partir desses dados, o artigo defende que a exposição à violência seja reconhecida como risco ocupacional dos agentes comunitários de saúde e propõe um conjunto de medidas: treinamento específico em violência de gênero e violência urbana, protocolos padronizados de identificação e encaminhamento, integração das informações trazidas pelos ACS aos sistemas oficiais de vigilância e oferta de proteção legal e suporte psicológico a esses profissionais. Sem isso, concluem os pesquisadores, o país desperdiça uma peça-chave para enfrentar a violência nas comunidades mais vulneráveis – e deixa desassistidos justamente aqueles que estão na linha de frente do cuidado.

