Foto Crédito: Rita Martins/SIS
Comentário publicado na The Lancet Regional Health – Americas defende que favelas sejam tratadas como territórios prioritários nas agendas de adaptação climática e segurança alimentar e nutricional
Assinado por pesquisadoras da UFMG, o texto mostra como ondas de calor, enchentes e secas aprofundam a insegurança alimentar em favelas, reforçando desigualdades de gênero, raça e classe no acesso a alimentos saudáveis.
A crise climática já chegou às favelas brasileiras – e está mexendo diretamente com o prato de milhões de pessoas. Publicado em março de 2026 na The Lancet Regional Health – Americas, o comentário “Climate crisis and food access in Brazilian favelas: a territorial justice agenda” defende que esses territórios precisam ser colocados no centro das políticas de adaptação climática e de segurança alimentar e nutricional.
Favelas como territórios da injustiça climática
Assinado por Leticia Lopes Vieira, Luana Lara Rocha, Emanuelly Porto Oliveira e Larissa Lopes Mendes, todas vinculadas ao Grupo de Estudo, Pesquisa e Prática em Alimentação, Ambiente e Saúde (GEPPAAS) e aos departamentos de Nutrição e de Medicina Preventiva da UFMG, o texto argumenta que favelas não são apenas “áreas vulneráveis” genéricas. Elas são formações socio‑territoriais específicas, marcadas por informalidade urbana, organização comunitária e omissão histórica do Estado, onde os efeitos da crise climática se somam a desigualdades já existentes.
Segundo as autoras, ondas de calor, chuvas intensas e períodos de seca deixam de ser eventos isolados e passam a compor o cotidiano da vida nas favelas, afetando moradia, serviços básicos e, de forma muito concreta, a disponibilidade e o acesso a alimentos frescos e saudáveis. Esse cenário configura um quadro de injustiça climática e racismo ambiental: os impactos ambientais recaem com mais força sobre populações historicamente marginalizadas, em especial mulheres, crianças e pessoas negras.
Entre o Mapa da Fome e a fome nas quebradas
O comentário lembra que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da FAO em 2025, marco importante na agenda nacional de segurança alimentar e nutricional. Mas, nas favelas, a insegurança alimentar e nutricional segue presente e tende a se agravar justamente por causa da crise climática.
Essa contradição revela, segundo as autoras, como indicadores agregados podem esconder profundas desigualdades territoriais: enquanto a média nacional melhora, moradores de territórios informais continuam enfrentando dificuldades para garantir alimentação adequada, em contextos onde a exposição a riscos climáticos é maior e a proteção social e urbana é mais frágil.
Quando o clima empurra para o ultraprocessado
Com base em evidências recentes sobre ambientes alimentares urbanos, as pesquisadoras destacam que eventos climáticos extremos têm sido associados à alta de preços de alimentos, à redução da oferta de frutas, legumes e verduras e ao aumento da dependência de alimentos ultraprocessados.
Esse deslocamento não é apresentado como uma simples “escolha individual”, mas como resultado de um conjunto de fatores:
- vulnerabilidades territoriais (distância de equipamentos públicos de abastecimento, informalidade urbana, falhas de infraestrutura sensível ao clima);
- fragilidades nos sistemas locais de abastecimento;
- dinâmica de varejo alimentar em periferias, com forte presença de comércios que oferecem produtos industrializados baratos e de longa duração.
O texto ressalta que esse padrão alimentar está inserido em um sistema agroalimentar hegemonizado por grandes corporações, que prioriza lucro e escala em detrimento da saúde e do direito humano à alimentação adequada.
Sobrecarga das mulheres e vulnerabilidade das crianças
A literatura revisada pelas autoras indica que mulheres em territórios urbanos precários assumem papel central na gestão cotidiana da escassez de alimentos, sobretudo em contextos de crise climática. São elas que acumulam responsabilidades de provisão de comida, cuidado de familiares e administração de recursos limitados, sob o impacto conjunto de eventos extremos, instabilidade econômica e falta de suporte institucional.
Nesse cenário, a dieta baseada em ultraprocessados tende a ganhar ainda mais espaço, o que aprofunda desigualdades de saúde e reforça a dimensão de gênero da injustiça climática. Crianças, por sua vez, são apontadas como um dos grupos mais vulneráveis: além de maior suscetibilidade física a extremos de temperatura, enchentes e doenças associadas, enfrentam efeitos que podem comprometer desenvolvimento, saúde mental e oportunidades ao longo da vida.
Clima, saúde e território: uma mesma agenda
As autoras criticam políticas climáticas que tratam a crise apenas como um problema ambiental, sem considerar desigualdades sociais, de gênero e de território. Nas favelas, argumentam, a crise climática raramente cria vulnerabilidades totalmente novas; ela aprofunda vulnerabilidades históricas ligadas à precariedade urbana, à insegurança alimentar e à baixa cobertura de serviços essenciais.
Por isso, defendem que a adaptação climática urbana não pode ser dissociada de:
- regulação dos sistemas alimentares;
- fortalecimento de políticas públicas de abastecimento;
- proteção de territórios populares frente à expansão de modelos alimentares centrados em ultraprocessados.
Também enfatizam a importância de superar abordagens exclusivamente “de cima para baixo” e incorporar respostas lideradas por comunidades como parte central da governança de clima e alimentação nas favelas.
O modelo conceitual que coloca o clima dentro do prato
Para sistematizar essas interações, o comentário apresenta uma adaptação de um modelo conceitual proposto anteriormente por Rocha e colegas sobre acesso à alimentação no ambiente alimentar de favelas.
O modelo mantém a estrutura em três níveis – estrutural, territorial e individual/doméstico –, mas agora incorpora as mudanças climáticas e os eventos extremos como determinantes transversais que atravessam e intensificam restrições em cada nível:
- no nível estrutural, políticas econômicas, sociais e ambientais, a regulação (ou desregulação) do sistema alimentar e a forma como o Estado atua ou se omite na garantia do direito humano à alimentação adequada;pubmed.
- no nível territorial, características do espaço urbano das favelas, como precariedade da infraestrutura, baixa cobertura de saneamento e áreas verdes, presença e tipo de estabelecimentos comerciais, assim como maior exposição a enchentes, deslizamentos e ilhas de calor;
- no nível doméstico/individual, condições de renda, trabalho, saúde, gênero, raça/etnia e organização familiar, que determinam como as famílias vivenciam e respondem à insegurança alimentar em contextos de crise climática.
Ao colocar o clima como “fio” que costura esses níveis, o modelo explicita como a crise climática pode reforçar desigualdades já existentes e acentuar injustiças de gênero e raça no acesso à alimentação saudável.
Recomendações: integrar clima, comida e território
O comentário termina com um conjunto de recomendações para tornar as respostas públicas mais equitativas e efetivas:
- integrar agendas de adaptação climática e de segurança alimentar e nutricional em níveis municipal e metropolitano, com metas claras e financiamento específico;
- fortalecer políticas de abastecimento urbano em territórios populares, incluindo equipamentos públicos de alimentação, feiras livres, compras públicas e circuitos curtos de comercialização de alimentos;
- incorporar indicadores territoriais – que incluam favelas e outros territórios informais – na vigilância de riscos climáticos, insegurança alimentar e acesso a alimentos;
- priorizar favelas em ações de mitigação de ilhas de calor e proteção contra enchentes, com investimentos em áreas verdes, drenagem e infraestrutura hídrica;
- proteger crianças e adolescentes por meio de ações intersetoriais entre saúde, educação e assistência social em períodos de extremos climáticos;
- reconhecer, apoiar e integrar redes comunitárias locais e estratégias populares de abastecimento e cuidado como componentes do sistema de resposta.
“COP das Quebradas” e protagonismo das favelas
Como exemplo de resposta comunitária, as autoras citam a “COP das Quebradas”, fórum climático organizado em Belo Horizonte, cujo manifesto coletivo foi entregue a autoridades durante a COP30. A iniciativa mostra como moradores de favelas formulam propostas de base para prevenção de desastres, infraestrutura verde, proteção da água e justiça climática, desafiando a imagem de favelas como meramente receptoras passivas de políticas.
Reconhecer favelas como territórios prioritários de ação em clima e alimentação, concluem as pesquisadoras, é condição fundamental para enfrentar ciclos históricos de desigualdade e construir respostas que articulem adaptação climática, direito humano à alimentação adequada e justiça social.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

