O prazer de dançar - ainda que por alguns breves minutos - voltou? Que bom! Foto Crédito: Vitaly Gariev/Unsplash.
RELEMBRANDO – Leia este texto com calma. Ele fala de você – ou de alguém que você conhece e ama. Não é para passar o olho: é para respirar, refletir e se ver nas situações descritas. Lendo devagar, lendo mais de uma vez, você aproveita melhor as orientações e já se prepara para a quinta matéria da série.
Esta quarta matéria sobre dores crônicas e movimento começa com a voz de alguém que decidiu compartilhar a própria experiência com você que está lendo estas linhas agora. Há décadas lidando com uma dor que não vai embora, ele encontrou um jeito de enfrentá‑la e, ao mesmo tempo, transformar esse jeito numa espécie de aliado – e não algo que se volta contra o próprio corpo. É bem provável que você se reconheça no que ele descreve, se alegre por perceber caminhos parecidos com os seus e, talvez, ao ler o que ele escreve, fique mais atento para evitar frustrações desnecessárias.
“Viver com dor crônica é aprender, diariamente, a negociar com o próprio corpo. Não se trata apenas de suportar a dor, mas de continuar vivendo apesar dela. Doenças como fibromialgia, câncer, lúpus, esclerose múltipla, além de condições como hérnia de disco, artrose, artrite reumatoide, enxaqueca crônica e neuropatia periférica fazem parte da realidade de milhões de pessoas que convivem com dores persistentes, muitas vezes invisíveis aos olhos dos outros, mas profundamente impactantes na vida de quem sente.
Ao longo de 26 anos convivendo com a esclerose múltipla, aprendi algo que vai além da teoria: a dor pode estar presente todos os dias, mas ela não precisa definir todos os dias da nossa vida. Existe uma diferença importante entre sentir dor e ser dominado por ela. E é exatamente nesse ponto que o lazer entra como um aliado fundamental, mas que também exige atenção.
Atividades como assistir a séries, jogar videogame, usar o celular, navegar nas redes sociais ou tocar um instrumento musical são, muitas vezes, verdadeiros refúgios emocionais. Elas proporcionam prazer, distração, sensação de autonomia e até alívio psicológico. Para quem convive com dor crônica, esses momentos não são apenas lazer, são estratégias de enfrentamento.
No entanto, o que traz alívio pode, paradoxalmente, se tornar um novo fator de dor quando feito de forma excessiva ou sem consciência corporal. Permanecer horas na mesma posição, repetir movimentos continuamente ou negligenciar pausas pode gerar sobrecarga muscular e articular. É nesse contexto que surgem as chamadas LER/DORT, que não estão restritas ao ambiente de trabalho, mas cada vez mais presentes no cotidiano doméstico e no lazer.”
O relato acima é de Luti Christóforo, psicólogo clínico que convive com esclerose múltipla há décadas e com dor diária. Ele resume, em primeira pessoa, o dilema que atravessa o tema central deste texto: o lazer pode ser abrigo e remédio para quem sente dor crônica – mas, sem cuidado, pode virar mais uma fonte de sofrimento.
O desejo de viver melhor
Nas matérias anteriores, vimos como a dor crônica pode encolher a vida de forma silenciosa. Primeiro, ao se misturar a um mar de informações contraditórias: vídeos de exercícios nas redes sociais, promessas de cura rápida, conselhos bem-intencionados que nem sempre ajudam – e, no meio de tudo isso, a pessoa com dor sem saber por onde começar com segurança. Depois, ao alimentar o medo de se mexer: a cada crise, o corpo parece mais frágil, a rotina vai sendo podada, as saídas de casa diminuem, e quando se percebe, o território da vida está reduzido a poucos cômodos.
Na terceira matéria, acompanhamos histórias de virada: pessoas que, com apoio de fisioterapia, terapia ocupacional, práticas integrativas e equipes multiprofissionais, conseguiram retomar passos concretos – caminhar pelo bairro, preparar uma refeição, voltar a trabalhar, viajar, participar de encontros em família. A dor não desapareceu, mas deixou de mandar em tudo.
É justamente nesse ponto – quando a vida começa a se reabrir – que o lazer volta a ganhar espaço. Assistir a uma série, crochetar no sofá, maratonar vídeos no celular, tocar, pintar, jogar videogame ou fazer artesanato deixa de ser apenas “passatempo” e vira um território de prazer reconquistado. A pergunta, então, deixa de ser se vale a pena e passa a ser: como aproveitar esses prazeres sem transformar o lazer em mais uma forma de machucar o corpo?
Quando o lazer vira mais um ponto de dor
Na prática clínica, o fisioterapeuta Rafael Sales observa cada vez mais casos de dor crônica ou lesões em mãos, punhos, ombros, pescoço e coluna que surgem ou pioram em atividades de lazer. “É comum ver pessoas que passam muitas horas nas redes sociais com dor cervical associada a desconforto nos dedos; quem joga videogame por longos períodos com queixas em punhos, ombros e região lombar; ou ainda quem faz atividades manuais, como desenho, pintura ou instrumentos musicais, com dor em dedos e antebraço”, descreve.
Ele ressalta que, na maioria das vezes, a atividade em si não é o problema, mas a forma como ela é realizada ao longo do tempo. Fatores como exposição prolongada, movimentos repetitivos e pouca variação postural aumentam a sobrecarga sobre o sistema musculoesquelético. Com o tempo, esses quadros podem evoluir para tendinopatias, tensões musculares persistentes e, em alguns casos, sintomas sugestivos de compressão neural, como dormência ou alteração de sensibilidade.
Muita gente ainda associa LER/DORT apenas ao trabalho, mas a literatura e a prática mostram outro cenário: o que pesa não é onde a atividade acontece, e sim como ela é feita. Jogos eletrônicos, uso de celular, tricô, crochê, artesanato, música – qualquer atividade muito repetitiva, por muito tempo, com pouca variação de movimento, pode gerar sobrecarga. Com o tempo, essa dor que “nasceu no lazer” passa a interferir em tarefas simples: segurar objetos, escrever, usar o celular, manter uma posição confortável.
| ENTENDA A DIFERENÇA – LER é a sigla para Lesões por Esforços Repetitivos, ou seja, problemas causados principalmente por movimentos repetidos ao longo do tempo. DORT significa Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho e é um termo mais amplo e atual, que inclui não só esforço repetitivo, mas também posturas mantidas, excesso de força e outras sobrecargas ligadas ao trabalho. |
Do ponto de vista psicológico, como aponta Luti, há um fator importante: quando a pessoa encontra algo que a faz “esquecer” a dor por alguns minutos, a tendência é prolongar ao máximo. “É como se o cérebro dissesse: fique aqui, isso te faz bem. E faz mesmo, mas até certo ponto. O problema não está na atividade em si, mas na falta de limites e de escuta do próprio corpo”, diz ele, no texto que abre a matéria.
O corpo sempre avisa – o erro é ignorar
Nem sempre a dor começa de forma intensa. Segundo a fisioterapeuta Ingridy Barros, os primeiros sinais de que uma atividade prazerosa está começando a sobrecarregar o corpo costumam ser sutis – e, justamente por isso, são frequentemente ignorados.
Ele descreve a sequência mais comum:
- desconforto localizado durante ou logo após a atividade;
- sensação de peso ou rigidez em determinada região;
- formigamento ou dormência em mãos, dedos, antebraços ou ombros;
- progressão para perda de força ou redução de mobilidade.
“O corpo sempre avisa – o erro é ignorar”, resume ela. Deixa de ser “cansaço normal” quando a dor começa a aparecer com frequência, não melhora após descanso, aumenta ao repetir a atividade e passa a limitar movimentos. Nesse ponto, insistir só piora o quadro, e o melhor caminho é procurar avaliação profissional.
Para quem já vive com dor crônica – reumatológica, lombar, cervical, LER/DORT, síndrome do túnel do carpo – o risco não está em um lazer específico, mas na forma como ele é feito ao longo do tempo. O corpo costuma ter menor tolerância a cargas mantidas ou repetitivas, o que torna exposições prolongadas, sem pausas e com pouca variação de movimento mais propensas a intensificar sintomas.
O que faz a diferença
A boa notícia é que não se trata de demonizar o lazer, e sim de adaptar. “Seu corpo não foi feito para ficar duas horas na mesma posição – mesmo que você esteja relaxando”, apontam Rafael e Ingridy.

Foto Arquivo pessoal.
Na prática, ambos sugerem uma regra de bolso simples para atividades repetitivas de lazer, como uso de telas, trabalhos manuais e instrumentos musicais:
- a cada 30 a 40 minutos, fazer uma pausa de cerca de 5 minutos;
- nessa pausa, levantar, mudar de posição, movimentar pescoço, ombros e mãos.
Pequenos ajustes de postura e ambiente também ajudam a reduzir a sobrecarga:
- ajustar a cadeira para que a coluna lombar fique apoiada e os pés bem apoiados no chão, com o peso distribuído na parte posterior das coxas;
- manter cotovelos apoiados na mesa ou no apoio de braços, evitando que os ombros fiquem “sustentando” tudo;
- evitar punhos dobrados por muito tempo;
- usar o celular na altura dos olhos (em vez de manter a cabeça inclinada) ou, quando possível, substituir o celular pelo computador, que permite organização melhor de tela e teclado.
Alongamentos simples, feitos antes, durante ou depois das atividades, podem funcionar como um “reset” do corpo. Rafael sugere: inclinar a cabeça suavemente para os lados, abrir e fechar as mãos várias vezes, girar os ombros para trás, esticar os braços à frente e manter alguns segundos, levantar e fazer uma extensão suave da coluna. Nada disso substitui tratamento quando há lesão instalada, mas ajuda a diminuir a sobrecarga e a sinalizar para o corpo que ele não está “preso” em uma única posição.
Adaptar para continuar

Foto: Hay Torres.
Quando atividades de lazer não são cuidadas, podem contribuir para a manutenção ou agravamento de quadros de dor crônica. Ingridy descreve o ciclo: sobrecarga → dor → compensação → mais sobrecarga. Uma dor localizada que começou em punho ou dedos pode, com o tempo, envolver pescoço, ombros e coluna – e aí deixa de ser algo pontual e vira um problema persistente.
Para quem já tem diagnóstico de LER, DORT, síndrome do túnel do carpo ou outras condições, ela aponta três pontos fundamentais:
- entender qual foi a causa que gerou o diagnóstico;
- reduzir o tempo contínuo da atividade;
- variar movimentos.
“Às vezes não é parar, é ajustar o movimento para reduzir compensações, fortalecer e reorganizar a rotina da atividade”, afirma Rafael. É aqui que fisioterapia e terapia ocupacional costumam entrar com mais força, analisando como a pessoa executa o gesto, quanto tempo permanece na mesma posição e que alternativas existem para distribuir melhor o esforço.
Em idosos, o cuidado precisa ser ainda mais fino. Atividades de lazer são fundamentais para autonomia, independência e bem-estar emocional – exatamente por isso, não devem ser simplesmente cortadas. “O lazer é essencial, principalmente na terceira idade. O primeiro passo é incentivar o preparo para a atividade, com alongamentos e exercícios de força simples. O equilíbrio está em adaptar, não retirar. Com ajustes, é possível manter a atividade com segurança”, reforça Rafael.
Culpa, limite e aprendizado

Do lado emocional, Luti chama atenção para um sentimento frequente: a culpa. “Muitas pessoas com dor crônica desenvolvem uma relação de culpa quando percebem que uma atividade prazerosa acabou piorando a dor. É fundamental compreender que isso não é falha, é aprendizado”, escreve.
O processo de adaptação envolve tentativa, erro e ajustes constantes. Testar um tempo de atividade, observar a reação do corpo, ajustar a duração, experimentar outra posição. “No meu caso, mesmo convivendo com dor diária há mais de duas décadas, nunca deixei de fazer o que é importante para mim. Isso não significa ignorar o corpo, mas respeitá-lo sem abrir mão da vida”, afirma.
“Existe uma linha tênue entre se preservar e se limitar”, acrescenta Luti. Aprender a caminhar sobre essa linha é um dos maiores desafios – e também uma das maiores conquistas – de quem vive com dor crônica.
Para ele, o lazer deve continuar sendo um espaço de prazer, não de sofrimento. E quando é vivido com consciência – ouvindo os sinais do corpo, ajustando tempo e postura, pedindo ajuda profissional quando necessário – ele deixa de ser risco e passa a ser parte do tratamento.
Divirta-se com moderação
Ao longo desta matéria, vimos que séries, redes sociais, videogames, trabalhos manuais, musicas e artesanato podem ser aliados poderosos de quem convive com dor crônica – como refúgio emocional, estratégia de enfrentamento, forma de manter vínculos e identidade. Mas também vimos que, sem pausas, sem variação, sem escuta do corpo, esses mesmos prazeres podem virar fonte de sobrecarga, LER/DORT e piora de quadros que já existem.
A chave não é abrir mão do lazer, mas aprender a vivê-lo com consciência. Pequenas mudanças – pausas regulares, ajustes de postura, alongamentos simples, variação de gesto – fazem grande diferença. E é fundamental lembrar: dor não é “normal”, mesmo no lazer. Sentir piora frequente, formigamentos, rigidez ou perda de força é sinal de que algo precisa ser revisto e de que vale a pena procurar avaliação profissional qualificada.
No conjunto da série, este capítulo mostra que é possível retomar prazeres, desde que eles caminhem de mãos dadas com cuidado. Na próxima matéria, vamos ampliar ainda mais o foco: sair do nível individual e olhar para o entorno – as políticas públicas, os serviços de saúde, as redes de apoio e os limites sociais que podem facilitar ou dificultar esse equilíbrio entre dor, movimento e prazer.
Se até aqui falamos do que você pode fazer no seu corpo e no seu dia a dia, na próxima etapa vamos discutir o que deveria existir ao redor de quem vive com dor crônica, para que ninguém precise escolher entre sentir menos dor e continuar vivendo a própria vida.
Se você vive com dor crônica e se reconheceu em algum desses medos, ou se cuida de alguém nessa situação, deixe suas dúvidas e experiências nos comentários. Elas vão orientar as próximas matérias da série – inclusive a escolha das histórias reais e das respostas das especialistas – para que o conteúdo seja o mais útil possível para a sua vida. Se preferir uma comunicação mais privada, envie sua mensagem para o WhatsApp (11) 93301‑6286; algumas dúvidas poderão ser abordadas de forma anônima nas próximas matérias da série.
Próxima matéria: 08 de junho
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

