Foto Crédito: Kofi Nartey/Unsplash.
O Brasil foi o principal destino das pessoas sequestradas na África e trazidas à força nas travessias do Atlântico, mas ainda fala pouco sobre a memória das vítimas da escravidão. Neste 25 de março, Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos, a data criada pela ONU volta a expor essa dívida histórica e a lembrar que o racismo e as desigualdades de hoje são herança direta daquele sistema.
O que a ONU marca neste 25 de março
O Dia Internacional foi estabelecido pela Assembleia Geral da ONU em 2007 e é lembrado todos os anos em 25 de março, em referência ao tráfico transatlântico que, durante séculos, arrancou milhões de africanos de seus territórios de origem. Na sede das Nações Unidas, em Nova York, a data é marcada por cerimônias no memorial permanente Ark of Return, criado para homenagear as vítimas e lembrar “uma das piores violações de direitos humanos da história”.
Em mensagem para a edição de 2026 do Dia Internacional, o secretário-geral da ONU, António Guterres, lembrou que “milhões de pessoas foram roubadas de suas famílias e comunidades na África, traficadas através do Atlântico e escravizadas nas Américas”, e afirmou que a ordem mundial criada por esse crime “ainda assombra nosso mundo hoje, em sistemas e instituições moldados e enriquecidos pela escravidão”. Para ele, a data chama os países a “confrontar esses legados”, rejeitando “a falsa narrativa da diferença racial e a mentira hedionda da supremacia branca” e trabalhando por “verdade, justiça e reparação”.
O lugar do Brasil no tráfico transatlântico
Textos de referência em português, como os do InPACTO e do Itamaraty, lembram que cerca de 40% de todos os africanos escravizados que cruzaram o Atlântico foram desembarcados no Brasil, que se tornou o maior destino das Américas e o último país do continente a abolir formalmente a escravidão, em 1888. O tráfico transatlântico abasteceu engenhos de açúcar, fazendas de café, mineração, obras urbanas e serviços domésticos, estruturando a economia colonial e imperial sobre a exploração de pessoas negras.
Essa história não ficou para trás: ela aparece hoje na concentração de pobreza, nas estatísticas de violência letal, na sub-representação de pessoas negras em espaços de poder e renda, e na persistência de formas contemporâneas de escravidão, como o trabalho análogo à escravidão no campo e na cidade.
Escravidão ontem, trabalho escravo hoje
Organizações como o InPACTO usam a data de 25 de março para fazer uma ponte direta entre a escravidão atlântica e as denúncias atuais de exploração extrema de trabalhadores em fazendas, carvoarias, confecções e serviços. A lógica é semelhante: pessoas em situação de vulnerabilidade, muitas vezes negras ou migrantes, presas a jornadas exaustivas, alojamentos degradantes, dívidas ilegais e ameaças.
Ao marcar o Dia Internacional, a ONU fala em reconhecer o sofrimento das vítimas do passado e honrar seus descendentes, mas também em garantir que “nunca mais” se traduza em políticas efetivas de combate ao racismo e ao trabalho escravo contemporâneo.
Memória, reparação e disputas no espaço público
Enquanto as Nações Unidas mantêm um memorial permanente, o Ark of Return, na própria sede, a lembrança material da escravidão no Brasil ainda é recente e desigual. O reconhecimento do Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, como Patrimônio Mundial da UNESCO, foi um marco, mas ainda são poucos os espaços públicos que tratam a escravidão do ponto de vista das vítimas, e não apenas dos “grandes nomes” da elite.
A data de 25 de março é, assim, uma oportunidade para recolocar em pauta debates sobre museus da escravidão, memoriais, políticas de reparação e fortalecimento de iniciativas negras e quilombolas de memória. É também um lembrete de que a narrativa sobre o passado – quem é lembrado, quem é silenciado, como as histórias são contadas – influencia diretamente a forma como a sociedade enxerga e naturaliza o racismo no presente.
Por que 25 de março?
A ONU escolheu o dia 25 de março em referência a 1807, quando o Parlamento britânico aprovou a lei que aboliu o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas sob sua bandeira. Dois séculos depois, em 2007, a Assembleia Geral criou o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos, observado anualmente nessa data.
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Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

