Combinadas, as duas condições podem agravar o dano às mitocôndrias, conhecidas como as usinas de energia das células, comprometendo a contração e a regeneração muscular, diz pesquisadora Foto crédito: Rawpixel.com/Freepik/Fapesp
Uma pesquisa realizada na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) mostrou que pessoas com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) que também têm síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS) apresentam perda de força e pior desempenho físico do que aquelas que têm apenas DPOC. O trabalho foi publicado na revista Scientific Reports e investigou como a combinação das duas doenças afeta a qualidade da musculatura e a capacidade funcional.
Os pesquisadores avaliaram 44 pessoas, divididas em dois grupos: 22 com DPOC associada à apneia do sono e 22 com DPOC isolada. A força de preensão palmar – medida simples usada como indicador de força muscular global – foi, em média, de 26 kgf no grupo com DPOC e apneia, contra 30 kgf no grupo com DPOC apenas. No teste de caminhada de seis minutos, usado para avaliar capacidade funcional, quem tinha as duas condições caminhou cerca de 300 metros, enquanto o grupo com DPOC isolada percorreu em média 364 metros. Distâncias abaixo de 350 metros nesse teste se associam a maior risco de internação e morte, o que reforça a gravidade do quadro quando as duas doenças coexistem.
Um dos pontos centrais do estudo foi analisar o que, durante o sono, mais se relaciona à piora muscular. Em geral, a gravidade da apneia é medida pelo índice de apneia-hipopneia (IAH), que conta quantas vezes a pessoa para de respirar ou respira pouco por hora de sono. No entanto, os autores observaram que o melhor marcador da perda de qualidade muscular não foi o número de eventos respiratórios, e sim o índice de dessaturação de oxigênio (IDO) – que mede quantas vezes o nível de oxigênio no sangue cai durante a noite. Em outras palavras, a “carga de hipóxia” intermitente parece pesar mais do que a contagem de paradas respiratórias em si.
Segundo a equipe, a DPOC e a apneia do sono, mesmo quando ocorrem separadamente, já estão ligadas à inflamação sistêmica e ao aumento do estresse oxidativo. Juntas, podem agravar o dano às mitocôndrias – estruturas responsáveis pela produção de energia nas células –, prejudicando a contração e a regeneração da musculatura. Isso contribui para um ciclo de enfraquecimento progressivo, cansaço, limitação para atividades simples e maior risco de desfechos graves, como internações e óbito.
Os autores defendem que pacientes com DPOC sejam avaliados rotineiramente para distúrbios respiratórios do sono, já que a apneia nem sempre é reconhecida e seu impacto pode passar despercebido. Embora a DPOC não seja reversível, o controle adequado – com medicamentos, parar de fumar, atividade física regular e alimentação equilibrada – ajuda a preservar massa muscular e função cardiorrespiratória. No caso da apneia, o uso noturno de aparelhos de pressão positiva contínua (CPAP), associado a mudanças no estilo de vida, pode reduzir a obstrução das vias aéreas e melhorar a oxigenação noturna.
Medidas como evitar álcool e sedativos antes de dormir, manter horários regulares e boas práticas de higiene do sono também contribuem para um padrão respiratório mais estável à noite. Para quem convive com DPOC, o estudo reforça a mensagem de que não basta cuidar só do pulmão durante o dia: a qualidade do sono, e em especial a oxigenação noturna, é peça-chave para manter força muscular, autonomia e qualidade de vida. O artigo completo, “Impact of obstructive sleep apnea on functional performance and muscle quality of patients with COPD”, pode ser acessado em: https://www.nature.com/articles/s41598-025-32126-3.

