Foto Crédito: Tânia Rego/Agência Brasil.
Um estudo publicado na revista Science Advances no fim de julho trouxe um dado desconfortável para quem trabalha no combate à desinformação: cortar em 70% a exposição de um usuário a fontes recorrentes de conteúdo falso, de forma sustentada por três meses, não muda o que ele pensa. Nem sobre polarização, nem sobre confiança nas eleições, nem mesmo entre quem mais consumia esse tipo de conteúdo antes da intervenção. A pesquisa, conduzida por Olivier Bergeron-Boutin e uma equipe de mais de vinte coautores de universidades como Berkeley, Dartmouth e Stanford, acompanhou 431 milhões de contas de Facebook e Instagram e rodou um experimento de campo ao redor da eleição americana de 2020.
Trago esse resultado para cá porque o Brasil está prestes a fazer, em escala nacional, uma aposta parecida com a que o estudo testou – e vale entender os limites do que ela pode entregar.
A aposta brasileira
Para as eleições gerais de 2026, o TSE construiu uma arquitetura de enfrentamento à desinformação que se apoia fortemente em regras de plataforma: proibição de circulação de conteúdo sintético gerado por IA nas 72 horas antes e nas 24 horas depois do pleito, exigência de planos de conformidade de empresas com mais de 5 milhões de usuários, rotulagem obrigatória de publicidade que usa IA e um sistema de denúncias – o Pardal – integrado a um alerta de desinformação eleitoral. Sete plataformas assinaram memorandos de entendimento com o tribunal, entre elas Meta, Google, TikTok, X, Telegram, Kwai e LinkedIn, além de três empresas de inteligência artificial: OpenAI, ElevenLabs e Anthropic.
É, em essência, o mesmo tipo de mecanismo testado no estudo: reduzir a circulação de conteúdo problemático na origem, na esperança de que menos exposição produza um eleitorado mais bem informado e menos polarizado. E é exatamente esse elo – entre menos exposição e mais mudança de atitude – que o estudo não encontrou.
O que o achado sugere
Não creio que a conclusão correta seja “a desinformação não importa” – seria uma leitura apressada e, a rigor, o próprio estudo não permite chegar lá. O que ele sugere é algo mais específico: que regras de moderação em nível de plataforma, por mais bem desenhadas que sejam, tendem a funcionar tecnicamente (a exposição de fato cai) sem necessariamente se traduzir em menos polarização ou mais confiança institucional entre o público em geral. Se esse padrão se repetir no Brasil, é razoável esperar que o arcabouço do TSE reduza a circulação de conteúdo falso – o que já é um ganho, inclusive por diminuir o alcance de conteúdo desrespeitoso e potencialmente prejudicial, como aponta o próprio artigo – sem que isso, sozinho, resolva o problema mais profundo de crenças e desconfiança que a desinformação ajuda a alimentar.
Há, porém, uma diferença estrutural que me parece a mais relevante de todas: o Brasil não é um país de Facebook e Instagram como principal arena de desinformação política. É um país de WhatsApp. E ali, criptografia ponta a ponta significa que boa parte do mecanismo testado no estudo norte-americano – remover posts de fontes reincidentes do feed – simplesmente não tem como ser replicado. Especialistas que acompanham as novas regras do TSE já apontam esse ponto cego: o grande desafio segue sendo monitorar conteúdo em redes como o WhatsApp, onde identificar quem produziu e disseminou a desinformação é bem mais difícil do que numa página pública de Facebook.
Vale registrar também um limite metodológico do próprio estudo, que também deveria nos deixar cautelosos antes de aplicar suas conclusões automaticamente por aqui: o experimento dependia do sistema de checagem de fatos por terceiros que a Meta mantinha em 2020 – e que a empresa descontinuou globalmente em 2025. Ou seja, mesmo nos Estados Unidos, hoje, o mecanismo testado não existe mais do jeito que foi medido. Extrapolar esse achado para o Brasil de 2026, com um ecossistema de checagem e moderação diferente, é um passo a mais – não impossível, mas que exige transparência sobre a incerteza envolvida.
Uma aposta com expectativa realista
Nada disso é argumento contra as regras do TSE. Reduzir a circulação de deepfakes, exigir rotulagem de conteúdo sintético e responsabilizar plataformas por comportamento inautêntico coordenado são medidas sensatas mesmo que não mudem sozinhas a cabeça do eleitor – porque, entre outras coisas, tornam mais caro e mais difícil o trabalho de quem produz desinformação em escala, e protegem o pequeno grupo de eleitores mais expostos, que segundo o estudo americano concentra a maior parte do consumo desse tipo de conteúdo.
O que talvez precise mudar é a expectativa em torno dessas regras. Se a meta é “menos gente vendo fake news“, a receita testada parece funcionar. Se a meta é “eleitorado menos polarizado e mais confiante nas instituições”, a evidência disponível – ainda que produzida em outro país, outra plataforma e outro momento – sugere que vamos precisar de mais do que moderação de conteúdo para chegar lá.
Fontes consultadas para este artigo:
- TSE — “Eleições 2026: TSE e plataformas digitais firmam parcerias para ampliar combate à desinformação”: tse.jus.br
- TSE — “Por Dentro das Eleições: conheça as regras sobre uso de IA na campanha eleitoral de 2026”: tse.jus.br
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

