Foto Crédito: Marco Antonio Rosa/Agência PáginaUm de Notícias.
Depois de oito décadas de expansão praticamente ininterrupta, a curva que definiu o crescimento de São Paulo está prestes a se inverter. Segundo projeções do Joint Research Centre da Comissão Europeia, compiladas pela plataforma Our World in Data, a mancha urbana contínua de São Paulo – um recorte geográfico obtido por satélite, distinto tanto do município quanto da Região Metropolitana oficial – deve atingir seu pico populacional por volta de 2030, com aproximadamente 19 milhões de habitantes, e, a partir daí, iniciar um declínio lento, porém constante, que se estenderá até o fim do século (ver gráfico).
Não é um colapso repentino. É o desfecho natural de uma trajetória demográfica que já vinha desacelerando havia anos. Mas o simbolismo é forte: a cidade que mais cresceu na América Latina no século 20, multiplicando sua população em seis vezes desde 1950, se aproxima de um teto.
O que estamos medindo

Antes de seguir, um esclarecimento necessário. Os dados usados no gráfico acima e nesta reportagem não correspondem nem ao município de São Paulo – que segundo o IBGE tinha 11,4 milhões de habitantes no Censo de 2022, com estimativa de cerca de 11,9 a 12 milhões para 2025/2026 – nem à Região Metropolitana de São Paulo oficial, que soma pouco mais de 21 milhões de pessoas distribuídas por 39 municípios.
Trata-se de um terceiro recorte: a mancha urbana contínua de São Paulo, medida pelo Joint Research Centre da Comissão Europeia por meio de imagens de satélite. Em vez de seguir fronteiras administrativas, essa metodologia identifica o tecido urbano fisicamente contíguo – ruas, construções e ocupação do solo que formam um bloco urbano ininterrupto – e o segue ao longo do tempo, independentemente de limites municipais. O resultado, para São Paulo, é uma população de cerca de 18,8 milhões em 2020, um número maior que o do município isolado, mas menor que o da Região Metropolitana oficial, já que nem todos os 39 municípios da RMSP estão fisicamente colados à mancha urbana central.
É esse recorte – nem o município, nem a região metropolitana, mas a área urbana contínua vista do espaço – que embasa as projeções de pico e declínio populacional discutidas a seguir. Enquanto o município deve seguir crescendo lentamente nas próximas décadas, é essa mancha urbana mais ampla que, segundo as projeções, atingirá seu teto por volta de 2030.
Uma curva em declínio
Os números contam a história com clareza. Em 1950, São Paulo tinha pouco mais de 3 milhões de habitantes. Em três décadas, esse total mais que quadruplicou, ultrapassando os 13 milhões já em 1980 – um dos ritmos de urbanização mais acelerados do mundo naquele período. O crescimento seguiu forte até os anos 2000, mas foi perdendo fôlego a cada década: entre 2010 e 2020, o aumento populacional já era modesto se comparado aos saltos anteriores.
A partir de 2030, a curva projetada muda de direção. As estimativas apontam para algo em torno de 18,2 milhões em 2050, caindo para cerca de 15 milhões em 2080 e chegando a 12,7 milhões em 2100 – um número parecido com o que a cidade já tinha há quatro décadas, no início dos anos 1990.
Especialistas em demografia urbana associam esse tipo de reversão a um conjunto de fatores que já se manifesta em outras grandes metrópoles do Sul Global que amadureceram economicamente: queda da natalidade, envelhecimento populacional, saturação da infraestrutura urbana e a migração de moradores para cidades médias do interior, num movimento inverso ao êxodo rural que abasteceu a capital paulista ao longo do século 20.
Xangai segue o mesmo caminho
São Paulo não está sozinha nessa trajetória. Xangai, que cresceu quase dez vezes desde 1950, deve seguir um roteiro semelhante, mas com duas décadas de atraso: seu pico está projetado para por volta de 2050, quando a metrópole chinesa pode chegar a quase 35 milhões de habitantes, antes de também entrar em declínio e terminar o século com cerca de 24,7 milhões.
A coincidência não é acidental. Ambas as cidades passaram por explosões demográficas ligadas à industrialização e à migração em massa, seguidas por uma transição para economias mais maduras – e mais urbanas – em que as taxas de natalidade despencam e o crescimento das cidades deixa de depender do afluxo populacional.
Olhos na África
Enquanto São Paulo e Xangai desaceleram, o motor do crescimento urbano do planeta migra para outro continente. As projeções mostram cidades africanas em trajetória oposta, ainda em plena expansão no fim do século:
- Luanda, capital de Angola, deve seguir crescendo sem sinais de desaceleração, passando dos 9,8 milhões de habitantes em 2020 para cerca de 30,7 milhões em 2100 – um volume que a colocaria à frente de São Paulo já por volta de meados da década de 2040.
- Dar es Salaam, na Tanzânia, segue trajetória parecida, saindo de 6,9 milhões em 2020 para aproximadamente 20 milhões em 2100.
- Adis Abeba, na Etiópia, deve crescer de 5,9 milhões para cerca de 14,4 milhões no mesmo período.
- Carachi, no Paquistão – fora do continente africano, mas parte do mesmo fenômeno de urbanização acelerada no Sul da Ásia – é a que mais cresce entre as seis cidades analisadas: de 19,3 milhões em 2020 para 43,7 milhões em 2100, tornando-se, de longe, a maior das seis metrópoles no fim do século.
O que isso significa
Se as projeções se confirmarem, o mapa das grandes cidades do mundo terá uma configuração bem diferente da atual. São Paulo, que hoje figura entre as maiores metrópoles do planeta, deve perder posições relativas ao longo do século – não porque parou de ser relevante economicamente, mas porque seu ciclo de expansão demográfica simplesmente se completou.
Já o crescimento urbano do século 21, como apontam os pesquisadores por trás do estudo, se concentrará cada vez mais em cidades como Luanda, Dar es Salaam e Adis Abeba – hoje pouco lembradas nas discussões sobre megacidades, mas que devem se tornar protagonistas de um novo capítulo da urbanização global.
Dados: European Commission, Joint Research Centre (2025), via Our World in Data. Licença CC BY. Números de 2030 em diante são projeções e estão sujeitos a incerteza, especialmente em horizontes de várias décadas.
Escritor e jornalista formado pela Universidade de São Paulo, com passagem pelo Diário Comércio e Indústria, pela Revista dos Tribunais, pela Editora Abril e diversos outros órgãos de imprensa, com especialização em extensão rural e jornalismo científico.

